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É a doença que nos ensina que saúde é um bem precioso

OMOLU, OU OBALUAIÊ, É O ORIXÁ DA DOENÇA
 E DA CURA (FOTO: DIVULGAÇÃO)
Da Carta Capital, 20 DE MARÇO DE 2020
Por PAI RODNEY

Não há poder nem dinheiro que se sobreponha ao Senhor da Terra. Com uma febre, Ele pode varrer o mundo inteiro
“Atotô, Ajibeeru!” Silêncio, Ele é o Senhor que Grita! Em tempos de covid-19, a quem as tradições de matriz africana recorrem para manter seu bem-estar e integridade física? Omolu, ou Obaluaiê, é o orixá da doença e da cura, cultuado especialmente no mês de agosto com uma das cerimônias mais emblemáticas do candomblé: o Olubajé, uma festa que só pode ser realizada com o dinheiro que os devotos pedem nas ruas em troca de um punhado de pipocas, sua principal oferenda.

Esmolas? Sim! A divindade mais rica do panteão africano, o Senhor das Pérolas, só admite que suas obrigações sejam cumpridas com esse dinheiro. Contam os mais velhos que nos momentos de grandes epidemias, Omolu abandonava tudo e saía pelo mundo curando os doentes. Por isso também o chamam de “o médico dos pobres”. Um orixá que nos ensina, afinal, que ter saúde é a maior riqueza.

Dizem que não é de falar muito, que prefere observar, que prefere o silêncio. Obaluaiê é o dono da terra, aquele que abriu mão de tudo, correu o mundo e se compadeceu diante dos sofrimentos que viu e viveu. Em suas andanças, sentiu na pele todas as dores e passou a carregar no âmago as mais profundas marcas. Omolu ensina que nenhum dinheiro compra saúde e mostra seu poder ao livrar povos inteiros da doença, da peste e do pior de todos os males: a fome.

Conforme pontua o babalorixá Sidnei Barreto Nogueira, doutor em semiótica pela USP, “Obaluaiê não é só o senhor da cura pela restauração da doença. Obaluaiê não é uma maldição. Obaluaiê é a própria doença (que permite a restauração). A doença necessária para que não haja morte prematura.” No fundo, a vida brota de suas entranhas, pois tudo que morre germina. Essa ideia de restauração parece remeter aos próprios ciclos que a natureza impõe, o que coloca as epidemias num outro nível de entendimento. A visão punitivista perde completamente o sentido na lógica das tradições africanas.

“Obaluaiê é a febre, a ferida, a alergia, porque para que haja empatia é preciso sentir no próprio corpo o que o outro sente ou pode sentir”, prossegue Pai Sidnei. Lembrando um ensinamento dos antigos, o babalorixá esclarece que é desrespeitoso pedir saúde ao orixá-doença. Pai Pérsio de Xangô sempre dizia: “Não se pede saúde a Omolu. Omolu não tem saúde pra dar a ninguém. A Ele pedimos que leve a doença embora.”

Ele é o “Filho do Senhor”, o dono da terra, de onde brotam todos os grãos. Em agosto, a grande maioria dos terreiros de candomblé oferece o “Banquete do Rei”, o Olubajé, um ritual essencial para os iniciados se resguardarem dos riscos das doenças contagiosas e epidêmicas. Guardião de grandes segredos, Omolu esconde-se sob uma veste de palhas-da-costa. Então, disseram que era velho, feio, com o corpo coberto de chagas. Na verdade, por beleza, luz e calor, por sua extrema humildade, Obaluaiê decidiu não ofuscar ninguém e vestiu-se de palha para que o mistério o definisse.

Segundo Pai Sidnei, no Ocidente é impossível crer na doença como algo bom e necessário. “A doença pede respeito, cuidado, proteção. A doença é um alerta”, explica. “Nós temos uma divindade-doença e, se não a tivéssemos, seríamos todos bestas das mais violentas prontas para matar e morrer prematuramente e sem sentimentos ou empatia. A doença-Obaluaiê nos ensina o valor da vida, o valor do cuidado com a saúde, o valor do ser-humano e do criador e dos orixás que nos habitam”, completa.

Quando Omolu nos convida para seu banquete sagrado, Ele pede que aceitemos de coração aberto. É a doença que nos ensina que saúde é um bem precioso. Afinal, de que vale todo dinheiro do mundo se não temos saúde para usufruir? Então, aqueles que rejeitam as comidas do Olubajé, além de faltarem ao respeito com o terreiro e com o babalorixá ou iyalorixá que as oferece, provocam a ira do orixá e num momento de necessidade, como nesses tempos de coronavírus, não contará com sua proteção.

“Obaluaiê pede respeito. Obaluaiê avisa que a sociedade está doente e que adoece porque se esqueceu do valor da vida-coletiva. Não é Obaluaiê que decide quem pode viver e quem pode morrer. É justamente isso que o Deus-doença quer evitar. Ele é um sábio. Ele é o senhor da igualdade. Ele pede respeito pela vida de todos. Ele mata e come – O pá ní jẹ. Ele quer silêncio – Atoto. É hora de aprender a lição”, conclui Pai Sidnei.

Onilê wá awá lesse orixá

Opé irê Onilê wá awá lesse orixá

Opé irê


E kolobô, kolobô sin sin

Ijí kolobô, kolobô, kolobô sin sin

Ijí kolobô


O Senhor da Terra está entre nós que cultuamos orixá

Agradecemos felizes pelo Senhor da Terra estar entre nós

Em sua pequena cabaça, Ele traz encantamentos

Para nos livrar das doenças


Obaluaiê, o “orixá-doença”, absorto entre as palhas secas, esconde o fogo das lavas, o calor do sol, a beleza do fim. Silêncio. O retirante de pés rachados caminha e não cansa. Saiu pelo mundo, curou, amparou, consolou. O mais rico entre todos os orixás, aquele que mede suas pérolas em cântaros, mostra sua força e provoca a humanidade a pensar sem egoísmo e a viver uma nova ordem. Não há poder nem dinheiro que se sobreponha ao Senhor da Terra. Com uma febre, Ele pode varrer o mundo inteiro.

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