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Coronavírus levará a revisão dos valores neoliberais, afirma Christian Dunker

Sociedade se defronta com a precarização do trabalho e começa a ver a necessidade de um pacto para promover maior proteção social, defende professor da USP.
Da Rede Brasil Atual, 30/036/2020

Por Redação RBA

Tatiana Ferro/arquivo CPFL TV Cultura

Dunker: "Tornou-se ridículo neste momento dizer vamos reduzir o Estado. E onde estão os que defendem isso?"


São Paulo – Ao analisar a situação atual do Brasil frente à crise imposta pelo coronavírus, o professor e psicanalista da USP Christian Dunker afirma que a excepcionalidade da situação nos coloca para pensar sobre qual é a regra que nos preside. “Estamos em uma situação de confinamento e é muito importante respeitar esse confinamento, mas do ponto de vista subjetivo cada qual vai interpretar essa situação segundo suas próprias formas de funcionamento e de leitura do mundo”.

O psicanalista afirma que alguns, por mais que saibam que isso é uma recomendação fundamental, seguida globalmente, vão por outro lado e se deparam com sentimentos e afetos que entendem que esta situação é uma contrariedade ou uma espécie de castigo, “algo que tem outro sentido que não aquele que é o sentido sanitário compartilhado perante a crise”.

“A gente aprende desde pequeno que o isolamento é uma situação aparentada à punição. A retirada do convívio é uma das formas de punição mais instituídas entre nós. Há uma confrontação aí com o nosso medo da doença e com nossas angústias”, afirmou em entrevista ao jornalista Marco Piva, de O Planeta Azul.

Em meio ao clima de divisão social que existe hoje no país, alimentado sobretudo pelos apoiadores do governo de Jair Bolsonaro, existem aqueles que não suportam conviver com algo que não conhecem e por isso negam a existência da realidade da crise do coronavírus. “Não é surpreendente que exista uma atitude refratária que nega o que a contraria. Isso já existia antes da eleição de Bolsonaro e é uma situação mundial, que toca a nossa relação com o outro”, afirma.

Mas segundo o psicanalista os valores intrínsecos a esse modo refratário de ver o mundo devem passar um por uma revisão ao longo da crise e por um questionamento, como é o caso das relações de produção que produzem a pauperização do trabalho e a financeirização da economia que promove a extrema concentração de riqueza.

“A gente percebe os precarizados que estão sem proteção social nenhuma e agora estão relegados a essa situação de pauperização”, avalia.

A crise do coronavírus, segundo o professor da USP, poderá ensejar questionamentos sobre o sistema capitalista e a possibilidade de seu reordenamento. “Há novas formas de troca social e econômica que podem ser imediatamente implantadas. Há um reposicionamento óbvio, massivo, do papel do Estado. Tornou-se ridículo neste momento dizer vamos reduzir o Estado. E onde estão os que defendem isso? Eu sugiro que esses sejam os primeiros a renunciar às suas máscaras, como também os primeiros a renunciar ao sistema de saúde e a empreender o processo empresarial de combate ao vírus. Isso dá uma ideia de quanto ilusionados nós estávamos”.

Ele comenta que com a crise há iniciativas florescentes, pois trata-se de um momento de criação, de repactuação em que podemos ter uma mudança nas regras e nas relações, como por exemplo no que se refere à ocupação imobiliária ou à ocupação do território. “Isso está afetando pessoas que vão morrer, porque estão em lugares muito pequenos. E por outro lado existem imóveis fechados nas grandes metrópoles, que são produtos da especulação. Isso está errado”, afirma.

Segundo Christian Dunker todo o rol de questões que envolvem a sociedade, como salários, aluguéis, contas públicas e a dificuldade daqueles que não tem nenhum salário vai fazer com que a sociedade olhe para pauperização que estava sendo produzida e sinta agora a necessidade de haver um repactuamento.

Sobre a política e o papel que vem sendo desempenhado pela oposição frente ao governo de Jair Bolsonaro, que tem se manifestado contra o processo de isolamento social, o professor diz que a oposição está indo bem no plano estratégico e mal no sentido político, ao mesmo tempo. “A oposição está dando corda para que o governo se enforque e está com isso diminuindo a consistência do lugar de oposição. Isso está dando razoável sucesso. Quando a esquerda se retira de cena, a gente consegue ver o que é o bolsonarismo, entregue a ele mesmo, na sua própria entropia, em sua própria devastação, na explicitação de seu discurso perigoso e segregativo”.

Nesse plano, ele comenta que o que não está legal é que o campo progressista não está conseguindo articular uma plataforma do que precisa fazer, o que precisamos neste momento. “Por muito menos a Dilma saiu do governo. É hora de Bolsonaro pedir a conta e ir embora. É preciso pensar como vamos fazer para tirar essa pessoa da presidência. Isso se tornou óbvio e uma questão nacional”. Para ele, o discurso vazio e a convocação das milícias, entre outras características do discurso de Bolsonaro, tornaram-se um sintoma secundário de seu antigoverno.

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