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“Vamos acabar como mendigos nas cidades”, alerta indígena sobre pastor na Funai

Líder dos povos isolados critica “retórica idiota” de Bolsonaro e diz que missionário causará “desorganização social”


Por Igor Carvalho
Do Brasil de Fato | São Paulo (SP) 13 de Fevereiro de 2020 


Expedição da Funai para contato com o povo Korubo do Coari, realizada em 2015 - Foto: Funai

Beto Marubo, representante da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) está preocupado. Uma das principais lideranças de povos isolados do Brasil, o indígena falou com exclusividade com o Brasil de Fato sobre a nomeação do pastor Ricardo Lopes Dias para chefiar a Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) da Fundação Nacional do Índio (Funai). Durante a entrevista, criticou Bolsonaro e sua “retórica idiota” e alertou para as mazelas da presença dos missionários nas aldeias. “Causa separação e desorganização social.”

“Muito provavelmente, nós vamos acabar como mendigos nas cidades e perderemos nossa identidade. Seremos excluídos da sociedade, como tantos outros. Assim como negros, homossexuais e as demais minorias. Talvez um dia, alguém vá lá ver que, em algumas regiões viveram índios isolados. Talvez algum arqueólogo encontre nossos ossos”, lamenta Beto, que pertence à etnia Marubo, que está na Terra Indígena Vale do Javari e é considerado um dos povos isolados do Brasil.

De acordo com a Funai, existem 28 povos indígenas isolados no Brasil. A maior parte deles, 20, estão na região amazônica. Além disso, há outros 86 registros que aguardam formalização do governo federal. De acordo com a Comissão de Direitos Humanos da ONU, “povos isolados” são indígenas que não mantém contato rotineiro e constante com a população majoritária.

Desde 1987, o Brasil mantém uma política específica para os povos isolados, que está entregue à CGIIRC. Há protocolos para localização, aproximação e contato com os indígenas que devem ser respeitados.

Nesta terça-feira (11), o Ministério Público Federal (MPF) entrou na Justiça com uma ação civil pública para suspender a nomeação do missionário para a Funai. Na ação os procuradores apontam que a presença de um pastor ligado à Missão Novas Tribos do Brasil na coordenação da Funai que trabalha com os isolados "pode colocar os povos em risco de genocídio e etnocídio”.

Marubo conta que seus parentes resistem desde a década de 1960 ao avanço dos missionários e que teme a falta de experiência dos religiosos na região.

“Os povos isolados, que não tem qualquer proteção no meio da selva, ficam vulneráveis porque qualquer um desses missionários que chegam, oferece roupa e comida. Com isso, entra doença. Em três dias, eles acabam com um povo inteiro por gripe, por exemplo”, explica. Na entrevista, Marubo repudia a “nefasta presença desse pastor” na Funai e explica a relação entre indígenas e missionários. Confira a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato: Como vocês receberam a notícia de que um pastor será o coordenador para Índios Isolados da Funai?

Beto Marubo: Nós, indígenas do Vale do Javari, repudiamos veementemente essa atitude e isso é muito preocupante, porque passa a ter uma Funai totalmente conduzida ao bel prazer do governo. Nós temos a leitura de que a Funai atual vem sendo loteada para atender o interesse do pessoal do agronegócio e dos evangélicos, que são a base desse governo do Bolsonaro.

Apesar de a Funai estar no Ministério da Justiça, o governo queria que fosse para o ministério da Damares Alves [que é evangélica], que tem um poder muito forte e os evangélicos têm interesse em ter acesso às Terras Indígenas, sobretudo no Vale do Javari que tem a maior quantidade de índios isolados no mundo.

Isso não é novidade para nós, do Vale do Javari, que os missionários queiram acessar a nossa terra. Esse é um interesse antigo, principalmente do pessoal da Missão Novas Tribos do Brasil, até pela ideologia fundamentalista religiosa deles, de que tem que levar a palavra do Deus deles a qualquer custo, até mesmo para indígenas que estão em regiões inóspitas, como o Vale do Javari.

Quem estudou a história dessa organização, sabe os estragos que aconteceram e que eles causaram a muitos povos indígenas na América do Sul e no Vale do Javari não foi exceção, principalmente como o povo Marubo e o povo Maiuruna. Esse pastor trabalhou com o povo Maiuruna, os Matsés, que fica fora do Vale do Javari, na Aldeia Cruzeirinho.

Essa atuação dele aumentou o número de igrejas entre o povo Maiuruna, principalmente na Aldeia Lobo, que até então era o último reduto do povo Maiuruna, porque do lado peruano os evangélicos já dominaram todo o povo Maiuruna. Mas do lado brasileiro, nem todas as aldeias seguiam alguma religião, só nossa concepção de religião e cultura. Hoje, metade dos Maiurunas são evangélicos. É isso que causa entre nós, a separação, a desorganização social e cultural. É isso que os missionários causam entre a gente. E pior, é uma visão tosca de que os que não aceitam a doutrinação deles pertence ao diabo. Isso causa rinchas internas e divisões de famílias, é uma presença nefasta, assim como é nefasta a presença desse pastor, que nos afeta.

Como atuam os missionários nos territórios de vocês?

O histórico, por exemplo, do que aconteceu no Suruwahás (Amazonas) com atuação missionária. Os missionários não tem a experiência para lidar com a situação de contato, eles não sabem atuar nas adversidades em situação de contato. A preocupação deles é a doutrinação, eles não levam em consideração os problemas que isso vai causar posteriormente.

A Funai já tem expertise, pois trabalha desde 1910 com indígenas. Nenhuma organização tem a experiência da Funai. Os missionários acessam as aldeias para doutrinar essas populações de povos isolados e isso pode ocasionar um genocídio, como aconteceu entre os Suruwahás.

Na minha região, ainda não há histórico de contato com os missionários, mas não podemos excluir essa possibilidade, já que o próprio chefe para Índios Isolados é um missionário e num contexto de um governo que disse que não demarcará terras indígenas. O Estado brasileiro tem a obrigação de proteger esses indígenas e não pode levar a desgraça até esses povos, principalmente usando missionários.

Como vocês instruem o povo do Vale do Javari a reagir à aproximação dos missionários?

Essa resistência já acontece desde a década de 1960. Nem tudo que orientamos aos nossos caciques que moram nas aldeias, é aceito. Exatamente pela vulnerabilidade. Por exemplo, hoje a maioria dos missionários entra no vácuo do Estado prometendo Educação, só que geralmente essa educação é algo enviesado a partir da educação religiosa ou com o interesse de aprender o idioma indígena. Na maioria das vezes, eles usam o trabalho para se empoderar do idioma indígena. A partir daí, eles vão inserir outras questões e passam a dominar a comunicação, então começa a doutrinação. Agora é pior, eles vão usar o governo para implementar seus métodos e conseguindo chegar nos povos indígenas mais isolados.

Como os missionários atuam quando chegam nos territórios indígenas?

Para um missionário fundamentalista, imagina o valor que tem os povos indígenas. O objetivo deles é levar a palavras deles para qualquer ser na face da terra. Os povos isolados, que não tem qualquer proteção no meio da selva, ficam vulneráveis porque qualquer um desses missionários que chegam, oferece roupa e comida. Com isso, entra doença. Em três dias, eles acabam com um povo inteiro por gripe, por exemplo. Nós não temos imunidade contra isso, eu até tenho, que saio muito da aldeia.

Mas esse contato pode significar uma divisão da aldeia?

Com certeza. Ainda mais agora que eles podem usar o governo e a infraestrutura para nos dividir. Talvez não descaradamente. O Bolsonaro sempre fala que temos que parecer com ele, como se ele pudesse determinar isso, como se ele falasse por nosso destino. Pedimos que as autoridades competentes, o Judiciário e o Ministério Público, contenham essa anomalia na Funai.

Como você vê a situação da população indígena daqui alguns anos, caso essa política para os povos indígenas se mantenha?

Muito provavelmente, nós vamos acabar como mendigos nas cidades e perderemos nossa identidade. Seremos excluídos da sociedade, como tantos outros. Assim como negros, homossexuais e as demais minorias. Talvez um dia, alguém vá lá ver que em algumas regiões viveram índios isolados. Talvez algum arqueológo encontre nossos ossos.

O que você diria para Bolsonaro e Damares?

Para o presidente Jair Bolsonaro, eu diria que o Brasil é muito maior do que a retórica idiota e a ideologia também idiota que ele e seu grupo querem implantar em nosso país. Para a ministra Damares, eu queria dizer que meu Deus não precisa de imposição.

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