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Os maus costumes

Do 247, 2 de fevereiro de 2020
Por Miguel Paiva


Cartunista, ilustrador, diretor de arte, roteirista e criador da Radical Chic e Gatão de Meia Idade

"Vivemos um momento chave em que o anormal, o perverso, o furioso, o violento, o fóbico, e o reacionário convivem no nosso mundo sem serem nem mesmo importunados", escreve o colunista Miguel Paiva

Por Miguel Paiva, para o Jornalistas pela Democracia - O que mais me espanta na relação atual das pessoas com o governo é tratar tudo que acontece como natural. Esperar que alguma coisa boa possa sair deste governo é, no mínimo, falta de informação ou má fé. Até agora nada aconteceu e não é uma questão de ponto de vista, de posição política. É falta de resultados mesmo. Você pode dizer que a reforma da previdência foi uma vitória. Pode ser, mas ela saiu cheia de alterações, mantendo ainda seu viés elitista de tirar dos pobres para dar aos ricos e acabou de mostrar a verdadeira realidade com um rombo histórico. Mais do que isso vivemos de pirotecnia eleitoreira, com ditos e desditos, mentiras e desmentidos e por ai vai numa sucessão de fatos inúteis que nada acrescentam ao país.

A grande imprensa insiste, e é um dos papéis dela, em tratar dos números da economia como se bastasse isso para um país se reerguer. Percentual pra cá e pra lá e nada consistente resiste, nenhuma linha mais estável de crescimento ou desenvolvimento aparece. Somente números sem significados.

Na cultura não precisamos nem falar. A polêmica criada com a escolha da Regina Duarte para a Secretaria acaba inaugurando uma discussão também inútil. Vocês acham, sinceramente, que a Regina, por mais bem intencionada que fosse, iria conseguir emplacar algum projeto cultural significativo? Vocês acham que o país hoje em dia pode sobreviver culturalmente diante de si próprio e do mundo sem uma atenção, um espaço devido às questões de gênero? Não dá mais para fingir. Esse governo com aspectos fundamentalistas evidentes, com um carater religioso presente apesar da Constituição nos garantir a laicidade, com defensores de princípios arcaicos e prejudiciais nos principais cargos do governo não nos surpreenderia jamais.

Não surpreenderia também à Regina Duarte mesmo que ela ouvisse o que a classe artística realmente quer. Acho que a classe artística não se ilude. Imagino que deva pensar como eu e não esperar nada desse governo declaradamente inimigo dos artistas. Essas atenuantes ilusórias que só servem para falar à bolha bolsonaristacontinuará demonizando artistas e pessoas não binárias, inimigos declarados desse fascismo fashion do século 21. Do mesmo jeito que o empresariado entregou a Alemanha para o nazismo os anos de 1930 do século passado, a classe empresarial fecha os olhos, ou mesmo convida para seus domínios esses incompetentes mal intencionados do novo fascismo brasileiro. Em parte ignoram o risco em prol dos lucros e em parte concordam com os princípios dessa ideologia elitista que curiosamente atrai tantos pobres, não só economicamente, mas de espírito.

Vivemos um momento chave em que o anormal, o perverso, o furioso, o violento, o fóbico, e o reacionário convivem no nosso mundo sem serem nem mesmo importunados. Essa normalidade fecha os olhos para os riscos iminentes deste tipo de governo em troca de supostos resultados neoliberais na economia. Mas a realidade é que nem essa política vem dando certo mundo afora. Isso é muito ruim porque acabaremos pagando um preço imenso na insistência de uma solução que, de tão ruim que é, não privilegia nem quem a defende. Continuaremos destruindo coisas, e isso o brasileiro adora,com o mesmo prazer que deveríamos ter construindo. Destruir é mais fácil que construir e para um povo abandonado que nem o nosso, o prazer sádico de destruir o que já existe acaba iludindo os espíritos. Pior não pode ficar, pensam eles, mas pode sim. Bem pior. A História mostra e quem tem c...digo, conhecimento, tem medo.

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