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O canto da sereia de um 'líder de sistema'

Do 247, 12 de fevereiro de 2020
Por Pepe Escobar, publicado originalmente no Asia Times,
Tradução de Patricia Zimbres, para o 247


Os Estados Unidos talvez estejam destinados a uma existência histórica mais curta do que a era mongol instaurada por Genghis Khan

4Marcello (Marcello Mastroianni) e Maddalena (Anouk Aimée) em La Dolce Vita, impossivelmente chiques e cool, são como a Última Mulher e o Último Homem antes do dilúvio do "espalhafato vulgar" (Foto: Divulgação)

Um espectro considerável do Ocidente liberal vê como uma lei natural imutável a interpretação norte-americana do que vem a ser civilização. Mas e se essa interpretação estiver às beiras de um colapso irreparável?

Michael Vlahos afirmou que os Estados Unidos não são apenas um mero estado-nação, e sim um "líder de sistema" – "uma potência civilizacional como Roma, Bizâncio e o Império Otomano". E deveríamos acrescentar a China – não mencionada por ele. O líder do sistema é "uma estrutura de identidade universalista vinculada a um estado. Essa superioridade é útil porque, hoje, os Estados Unidos claramente possuem essa estrutura de identidade".

Alastair Crooke, o grande especialista em questões de inteligência, em um artigo extremamente cáustico, explora em maior profundidade como essa "visão civilizacional" "foi inculcada à força por todo o globo como sendo inevitável, o destino manifesto da América: não apenas em termos políticos - incluindo os adereços do individualismo e do neoliberalismo ocidentais, mas acoplado também à "metafísica judaico-cristã".

Crooke aponta também o quão profundamente arraigada se tornou a ideia de que a vitória na Guerra Fria "afirmou de forma espetacular" a superioridade da visão civilizacional dos Estados Unidos" em meio às elites do país.

Bem, a tragédia pós-moderna - do ponto de vista das elites dos Estados Unidos - é que muito em breve isso talvez deixe de ser verdade. A feroz guerra civil que engolfou Washington nos últimos três anos - com o mundo inteiro como espectadores estupefatos - só fez acelerar esse mal-estar. 

Lembrem-se da Pax Mongolica

Faz pensar, saber que a Pax Americana talvez esteja destinada a uma existência histórica mais curta do que a era mongol instaurada depois que Genghis Khan, o chefe de uma nação nômade, lançou-se à conquista do mundo.

Genghis, a princípio, investiu em uma ofensiva comercial para tomar as Rotas da Seda, esmagando os Kara-Kitais do leste da Turquia, conquistando o Khorezm islâmico e anexando Bucara, Samarcanda, Báctria, Coração e Afeganistão. Os mongóis chegaram aos arredores de Viena em 1241 e ao Mar Adriático um ano depois.

A superpotência daquela época estendia-se do Pacífico ao Adriático. Mal conseguimos imaginar o choque que isso representou para a Cristandade Ocidental. O Papa Gregório X estava ansioso para saber quem eram esses conquistadores do mundo, e se eles poderiam ser cristianizados.

Paralelamente, apenas a vitória dos mamelucos egípcios na Galileia, em 1260, salvou o Islã de ser anexado pela Pax Mongolica.

A Pax Mongolica – uma potência única, organizada, eficiente e tolerante - coincidiu em termos históricos com a Era Dourada das Rotas da Seda. Kublai Khan – que governava sobre Marco Polo – queria ser mais chinês que os próprios chineses. Ele queria provar que conquistadores nômades sedentarizados conseguiriam aprender as regras da administração, do comércio, da literatura e até mesmo da navegação.

Mas quando Kublai Khan morreu, o império se fragmentou em kanatos rivais. O Islã lucrou. Tudo mudou, Um século mais tarde, os mongóis da China, da Pérsia, da Rússia e da Ásia Central nada tinham em comum com seus ancestrais cavaleiros.

Um salto para o jovem século XXI mostra que a iniciativa, em termos históricos, está mais uma vez nas mãos da China, por todo o Grande Interior e ao longo das terras fronteiriças. As empreitadas capazes de transformar o mundo e virar o jogo não se originam mais no Ocidente, como foi o caso do século XVI a fins do século XX.

Apesar de todo o mal-disfarçado desejo de que o coronavírus venha a descarrilar o "século chinês" que, na verdade, será o século eurasiano, e em meio ao tsunami míope da demonização das Novas Rotas da Seda, é sempre fácil esquecer que a implementação de uma miríade de projetos nem sequer começou.

Será provavelmente em 2021 que todos os corredores e eixos de desenvolvimento continental irão se acelerar em todo o Sudeste Asiático, no Oceano Índico, na Ásia Central e no Sudoeste Asiático, na Rússia e na Europa, paralelamente à Rota da Seda marítima que configura um verdadeiro fio de pérolas indo de Dalian aos Pireus, Trieste, Veneza, Gênova, Hamburgo e Roterdã.

Pela primeira vez em dois milênios, a China é capaz de unir o dinamismo da expansão política e econômica nos setores tanto continentais quanto marítimos, algo que nunca mais ocorreu desde a curta investida expedicionária liderada pelo Almirante Zheng He no Oceano Índico, em inícios do século XV. A Eurásia, em um passado recente, foi dominada pela colonização ocidental e soviética. Agora ela se torna totalmente multipolar - uma série de permutações complexas e em evolução constante lideradas pelo eixo Rússia-China-Irã-Turquia-Índia-Paquistão-Cazaquistão.

Nenhum desses atores tem a menor ilusão quanto às obsessões do "líder do sistema": evitar que a Eurásia se unifique sob uma única potência - ou uma coalizão, como a parceria estratégica Rússia-China; assegurar que a Europa permaneça sob a hegemonia norte-americana; evitar que o Sudoeste Asiático - ou o "Grande Oriente Médio"- se ligue às potências eurasianas; e evitar a qualquer custo que a Rússia e a China tenham acesso desimpedido às rotas marítimas e aos corredores de comércio.
A mensagem do Irã

Ao mesmo tempo, uma suspeita sorrateira se insinua - a de que o plano de jogo do Irã, em um eco de Donbass em 2014, talvez seja o de sugar os neocons norte-americanos para um clássico caldeirão russo, no caso de a obsessão pela mudança de regime vir a ser turbinada.

Há uma séria possibilidade de que, sob pressão máxima, Teerã venha a abandonar definitivamente o Plano de Ação Conjunto Global, e também o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, o que seria um convite aberto a um ataque dos Estados Unidos.

O que vem acontecendo é que Teerã enviou duas mensagens muito claras. A precisão dos ataques de mísseis à base norte-americana de Ayn Al-Asad, no Iraque, em resposta ao assassinato que teve como alvo o Major General Qassem Soleimani, significa que qualquer ramal da vasta rede de bases dos Estados Unidos agora passa a ser vulnerável.

E a névoa de desmentidos que nada desmentem que cerca o abate do BACN (Battlefield Airborne Communications Node) da CIA - essencialmente uma central de espionagem aérea – em Ghazni, no Afeganistão, também traz uma mensagem.

O ícone da CIA Mike d’Andrea, conhecido como o 'Aiatolá Mike', o Coveiro, o Príncipe das Trevas ou todas as opções acima, pode ou não ter estado a bordo. Independentemente do fato de que nenhuma fonte do governo dos Estados Unidos jamais irá confirmar ou negar que o Aiatolá Mike esteja morto ou vivo, ou sequer que ele ao menos exista, a mensagem permanece a mesma: nossos soldados e agentes de inteligência também são vulneráveis.

Desde Pearl Harbor, nenhuma nação ousou desafiar o líder do sistema de forma tão frontal quanto o Irã fez no Iraque. Vlahos mencionou algo que presenciei pessoalmente em 2003, como "jovens soldados americanos se referiam aos iraquianos como 'índios', como se a Mesopotâmia fosse o Velho Oeste". A Mesopotâmia foi um dos principais berços da civilização tal como a conhecemos. Bem, no final das contas, os 2 trilhões de dólares gastos para democratizar o Iraque com bombas não favoreceu em nada a visão civilizacional do "líder do sistema". 

As Sereias e La Dolce Vita

Agora, acrescentemos alguma estética à nossa política "civilizacional". Todas as vezes que vou a Veneza - que, em si, é uma metáfora viva tanto da fragilidade dos impérios quanto do Declínio do Ocidente – me vêm à memória os The Cantos, a épica obra-prima de Ezra Pound.

Em dezembro último, depois de muitos anos, voltei à igreja de Santa Maria dei Miracoli, também conhecida como "a caixa de jóias", que desempenha um papel protagonista nos The Cantos. Ao chegar eu disse à signora zeladora que tinha vindo ver "As Sereias". Com um sorrisinho de quem sabe das coisas, ela iluminou meu caminho ao longo da nave até a escadaria central. E lá estavam elas, esculpidas nos pilares de ambos os lados de um balcão: "Colunas de cristal, acantos, sereias no capitel do pilar" (Crystal columns, acanthus, sirens in the pillar head), como lemos no Canto 20.

Essas sereias foram esculpidas por Tulio e Antonio Lombardo, filhos de Pietro Lombardo, mestres venezianos de fins do século XV e inícios do XVI – "e Túlio Romano esculpiu as sereias, como diz o velho guarda: de forma tal que até agora ninguém foi capaz de esculpi-las para a caixa de jóias, Santa Maria dei Miracoli" (and Tullio Romano carved the sirens, as the old custode says: so that since then no one has been able to carve them for the jewel box, Santa Maria dei Miracoli), como lemos no Canto 76.

Bem, Pound errou o nome do criador das sereias, mas isso não importa aqui. O que importa é que Pound via as sereias como a epítome de uma cultura forte - "a percepção de toda uma era, de pilhas inteiras e sequências de causas, entrou na montagem dos detalhes, daí que seria impossível falar em termos de magnitude", como escreveu Pound em Guide to Kulchur.

Tanto quanto suas amadas obras-primas de Giovanni Bellini e Piero della Francesca, Pound entendeu plenamente que as sereias eram a antítese da usura – ou a "arte" de emprestar dinheiro com juros exorbitantes, o que não apenas priva uma cultura da melhor arte, como Pound a descreve, mas que também é um dos pilares da total financeirização e marquetização da própria vida, processo esse que Pound, de forma brilhante, previu quando escreveu em Hugh Selwyn Mauberley que, "todas as coisas fluem, o sábio Heráclito diz; Mas um espalhafato vulgar reinará por todos os nossos dias" (all things are a flowing, Sage Heracleitus says; But a tawdry cheapness, shall reign throughout our days).

La Dolce Vita completará sessenta anos em 2020. De forma muito semelhante às sereias de Pound, o tour de force hoje mitológico de Fellini, passado em Roma, é como um palimpsesto de celulóide em preto e branco de uma era passada, o nascimento dos Swingin’ Sixties. Marcello (Marcello Mastroianni) e Maddalena (Anouk Aimée), impossivelmente chiques e cool, são como a Última Mulher e o Último Homem antes do dilúvio de "espalhafato vulgar". No final, Fellini nos mostra Marcello se desesperando com a feiura e, sim, a vulgaridade que se intromete em seu belo mini-universo – os contornos da cultura trash fabricada e vendida pelo "líder do sistema" que está prestes a nos engolfar a todos.

Pound era humano, um rebelde de desenfreado gênio clássico, totalmente humano. O "líder do sistema" entendeu errado o que ele dizia, tratou-o como traidor, encarcerou-o em Pisa e o despachou para um hospício nos Estados Unidos. Ainda fico pensando se ele acaso teria chegado a assistir e apreciar o La Dolce Vita na década de 60, antes de morrer em Veneza em 1972. Afinal das contas, havia um pequeno cinema à distância de uma caminhada da casa na Calle Querini onde ele viveu com Olga Rudge.

"Marcello!" Ainda nos assombra o icônico canto da sereia de Anita Ekberg, semi-imersa na Fontana di Trevi. Hoje, ainda reféns da visão civilizatória deteriorada do "líder do sistema", o máximo que conseguimos é juntar forças para, como no verso memorável de T.S. Eliot, lançarmos "uma meia olhada para trás, por sobre o ombro, para o terror primitivo" (a backward half-look, over the shoulder, towards the primitive terror).

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