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Depois da lama realidade virou ficção

Do Le Monde Diplomatique, 6 de Fevereiro de 2020por Mariana Ferrari (texto e fotos)


Em 2015, a barragem de Fundão em Mariana (MG) rompeu e devastou as comunidades rurais atingidas pela lama tóxica; quatro anos depois a família D’Ângelo tenta reconstruir a vida, mas para o patriarca, de lá para cá, vida virou ficção

Há ficção quando a existência passa a ser só carne e osso. Quando a união vira unidade. Quando a vida tenta se reestruturar, mas falha. E a falha vira a única forma de viver. Ou existir. Porque a vida é muito mais do que só carne e osso. Quando só se olha para o todo, o individual não existe. E é na individualidade que se enxerga a vida vivida e não a inventada.

O fatídico dia 5 de novembro de 2015 transformou em lama a realidade de quem existia enquanto comunidade. Quando a barragem de Fundão rompeu, no distrito de Bento Rodrigues (pertencente a Mariana, município de Minas Gerais), a palavra comunidade passou a ser só uma lembrança no distrito de Paracatu – e também em outros distritos atingidos: Camargos, Ponte do Gama, Paracatu de Baixo, Paracatu de Cima, Pedras, Borba e Campinas.


Chegada em Paracatu de Baixo.

A lama tóxica enterrou dezenove pessoas. Tóxica porque com essa lama não se brinca, não se suja. Tóxica porque esse tipo de lama mata. E também mata a humanidade, só que aos poucos, como uma faca dia e noite na ferida.

O solo fértil virou solo contaminado. De acordo com estudo da empresa Ambios Engenharia e Processos, cádmio, níquel, zinco e cobre estão presentes na terra que antes era só vegetação. O Rio Doce, que corta os distritos atingidos, não tem mais peixe. A água segue marrom, feito barro. Quando a barragem da Samarco estourou, 40 bilhões de litros de lama tóxica foram despejados nas comunidades – destruindo tudo o que via pela frente. A mineradora, com forte atuação no estado de Minas Gerais, é controlada pela Vale.


Depois de 4 anos do rompimento da barragem de Fundão, o rio Doce segue marrom e sem peixes.

Caos. A única palavra que tende a expressar a desordem que avançou no município rural de Paracatu quando a aparência imóvel da barragem de Fundão rompeu e a lama levou tudo pela frente. E quando o caos se insere a tendência é olhar o todo. Analisar a complexidade pelos números. Resumir vidas a uma massa.

Foi no caos que cada um dos atingidos tornou-se atingido. E ponto. Arthur D’Ângelo tem 7 anos e já sabe resumir: “Ninguém consegue viver na lama, só Jesus”. E dessa vez, até Jesus se sujou de lama.


Com a garganta inchada de tanto tentar gritar, Marino D’Ângelo, pai do inteligente Arthur, cansou de ser fração. Acostumou com os gravadores, com as perguntas e até com a palavra jornalista. O problema era que ninguém entendia que ele era Marino D’Ângelo. Não uma frase solta no texto ou a metonímia da palavra atingidos. A família D’Ângelo não aguentava mais ser só enquanto estatística e, por isso, insistem. Porque em algum momento a família D’Ângelo poderia existir como família D’Ângelo.


Família D’Ângelo: Maria do Carmo (esq.), Arthur (meio) e Marino (dire.). A filha mais velha do casal, Alice, estava dormindo na hora da foto e ainda não consegue falar sobre o rompimento.

Marino e Maria da Silva D’Ângelo não aceitaram a estatística. Não queriam que carne e osso virassem números. Não queriam que história virasse aspas. E assim, marido e mulher, resolveram transformar ódio em luta. Juntos passaram a integrar a Comissão de Atingidos de Paracatu de Cima (MG). A chance do poder decisório trouxe um pouco da individualidade do casal, mas não era tudo o que eles tinham a oferecer.

Sentado em um sofá verde musgo, na sala que antes era dele e agora é da sogra, Marino diz que vive uma ficção. E essa história começou no dia 5 de novembro de 2015.

Quando veio a lama

O telefone de dona Francisca da Silva não parava de tocar. E ela teimosa não queria acreditar que a lama da barragem de Fundão ia chegar até Paracatu. “Não é possível que esse trem é tão grande.” Quase 70 quilômetros separam os dois distritos – ambos da região rural e bem distantes do que chamamos de urbanização.

Seu Geraldo fazia companhia à esposa dentro da casa amarela de telhado quatro águas. Dali Francisca não queria sair – ainda que precisasse. Só depois de muita insistência e muitas ligações de telefone, Francisca e Geraldo deixaram a casa e seguiram rumo a uma fazenda de conhecidos, lá no alto do morro. “Passei a mão na bolsa e saí de galope.” Se enroscaram no capim até caírem no asfalto e só depois pousaram os pés na fazenda do vizinho Romo. 

Lá passaram a noite.

A pouca luz do lugar vinha de velas acesas e um sentimento confuso tomava conta do ambiente. Era medo e insegurança. Foi ali que dona Francisca sugeriu uma reza coletiva. Deram as mãos e rezaram o terço de cabo a rabo.

Foram sete filhos paridos e criados na casa amarela. Casa não. Lar. E em um dia tudo se perdeu. Lá da fazenda, Geraldo e Francisca não sabiam o que estava acontecendo, mas tudo havia se perdido. Do lar nada restara.

Os dois deixaram a casa para trás sem escolha. Seguiram para a urbanização e ficaram um tempo na cidade de Mariana, perdidos na casa de parentes. Deslocados, porque o sangue pulsava roça e ali só existia asfalto. Até então a confusão era fantasia, mera ilusão.

Quando o breu clareou a perda veio à tona. Paredes e tijolos sujos de lama. A vida atolada em destroços. O passado destruído em um futuro incerto. O trem era tão grande que não só chegou em Paracatu como levou o pouco de vida que dona Francisca e seu Geraldo guardavam nos cômodos largos.


O que sobrou de construções em Paracatu de Baixo.

Foram anos pingando de galho em galho na espera da casa cheia de lama voltar a ser lar. Francisca e Geraldo achavam que um lar poderia ser reconstruído. Acharam errado.

O casal, junto há mais de cinquenta anos, se aconchegou na casa da filha Maria do Carmo D’Ângelo, a fim de esperar a construção da nova casa. Das janelas e da porta principal Francisca conseguia avistar a casa subindo aos poucos. Tão aos poucos que só foi entregue mais de três anos depois.

Dia 21 de dezembro de 2018, Geraldo e Francisca pisaram na nova casa. Esperançosos. Cansados de esperar por um lar. Quando entraram viram que aquela não era a casa deles. Nesse momento, eles perceberam que reconstituir uma vida não depende só de cimento e tijolo. E a vida deles estava completamente desconstituída.

Dezembro, janeiro e fevereiro. Foi o tempo que Francisca suportou morar em um lugar que diziam ser seu – e não era. A casa nova tinha uma varanda que nunca existiu. As escadas eram exageradas. E nada da raiz fincar na terra de novo. O pomar sumiu. Horta não existia. A comida agora era comprada e já não havia terra boa para se plantar. Goiaba, mamão, abacate, banana, condessa, manga, cana, mandioca, inhame, acerola, cidra. O quintal de seu Geraldo e dona Francisca era rico e agora não havia uma plantinha sequer para contar história. Porco, gado, galinha. Tudo se foi.

Casa em Paracatu de Cima, onde Francisca e Geraldo moram agora. Antes a casa era de Maria do Carmo e Marino.

O cantinho de seu Geraldo na casa também sumiu. Um assoalho de madeira era seu espaço de refúgio. Com as temperaturas mineiras lá no alto, todo dia seu Geraldo deitava sob o assoalho e esperava o vento fresco acalmar a pele calorenta. Na nova casa o assoalho também sumiu. Seu Geraldo já não tinha um canto preferido por lá.

Os dois tentaram se encontrar naqueles cômodos que não conheciam, naquele mato que não tinha pomar. Mas não deu. Francisca olhava para a casa e dizia: “Pra mim não serve”. E não serviu. A verdade é que ela sente repúdio ao ver o lugar. Principalmente da varanda que os engenheiros decidiram colocar na nova casa. Uma arquitetura que nunca fez parte da casa velha. “Sou sincera, eu tinha vergonha de chegar naquela varanda.” De novo, os dois saíram a galope e se fixaram na casa da filha Maria do Carmo e do genro Marino.

Era um domingo quente de novembro quando dona Francisca me recebe na casa que agora é sua, mas antes era da filha. A mesa está posta e há fartura de comida. Duas garrafas térmicas cheias de café na mesa. Uma com açúcar e a outra sem. Bolo de fubá. Queijo de minas. Banana em cacho. Ela me chama para merendar, conta que a casa está na chamada linha vermelha – ou seja, pode ser atingida, de novo, pela lama no caso do rompimento de outra barragem – e isso desanima qualquer reforma. Francisca explica que Maria e Marino estão morando um pouco mais para frente dali, em uma casa alugada pela Fundação Renova, porque precisavam de espaço para criar os bichos. Ali é só ela e seu Geraldo.


Marino, Maria do Carmo, Alice e Arthur agora moram em uma casa alugada pela Fundação Renova.

A Fundação Renova surgiu em 2016, em uma parceria de Vale e BHP Billiton – autorizada pela União dos estados do Espírito Santos e Minas Gerais. A ideia era reconstruir a destruição, que até agora não fora reconstruída.

Depois de 77 anos vividos, dona Francisca precisou aprender a conviver com a insegurança. Dia e noite a cabeça a atormenta com a palavra sirene. Se soar tudo acaba de novo. E, para isso, é preciso estar atenta. E se soar e eles estiverem dormindo? E se, e se, e se… prevalece o constante sentimento de angústia.

Quando a porta de entrada da casa abre um vale verde sem fim transforma os batentes em moldura da paisagem. A imagem fixa na mente. Os pássaros e as galinhas ressoam nos ouvidos. A porta aberta mostra a imensidão, a paz que tanto se procura. Mas atrás de poucas árvores está a nova casa amarela. No vale silencioso está o resquício da destruição. O lar que a lama transformou em mera construção. E na cabeça de dona Francisca e seu Geraldo o medo da sirene soar e a lama subir.

Quem pode ser um atingido?

Um engenheiro da Samarco acompanhava Marino D’Ângelo entre os cômodos da casa que antes era sua e agora abriga Francisca e Geraldo. O graduado queria mostrar o que tinha acontecido na propriedade do agricultor. Chegando na casa, a frente dela estava tomada pela lama. Galinheiro. Pomar. Horta. Tudo tingido com uma cor triste. “Parecia que a gente estava na lua. Ficava cinza, aquele negócio sem vida nenhuma por cima.”

Marino seguiu com o engenheiro, observando os cantos da residência, a plantação no chão. A lama estava lá. A casa não estava no chão e as paredes continuaram de pé. “O que aconteceu aqui foi muito pouco.” Foi assim que o engenheiro resumiu a destruição na casa de Marino. As únicas palavras que saíram de Marino foram: “É pouco, mas é tudo o que eu tenho”.

Saiu de sua própria boca, mas Marino ainda não entendia. Via a vida se desmanchando e mesmo assim sentia que a destruição na família D’Ângelo tinha sido pouca.

Os dias foram passando e a cabeça de Marino continuava martelando. Como uma súplica inconsciente para que ele entendesse o caos – e se visse nele. A palavra “atingido” ainda não tinha fincado na pele do agricultor.

Meio ano depois do rompimento da barragem, Marino decidiu colocar para fora a dúvida que lhe atordoava. Aproveitou o encontro com um técnico do Ministério Público e desabafou: “A Renova tem avaliado o tanto que a pessoa é atingida de acordo com o tanto que a lama sujou”. E a resposta veio em forma de luz: “Marino, atingido é aquele que teve a vida suja de lama”.

No mesmo instante, Marino passou a se enxergar com lama dos pés à cabeça, só os olhos se mantinham minimamente limpos. Depois do devaneio a resposta veio do consciente: “Agora, ninguém me cerca mais não”.

Quatro terrenos, mil litros de leite produzidos por dia, pasto, horta, pomar, um lar. Esse era o “pouco” destruído de Marino. E seis meses foi o tempo que ele demorou para fincar na testa a palavra atingido. Passou a entender o gigante abismo entre perder concreto, parede e cimento e perder a vida. A família D’Ângelo estava no grupo dos desolados. Os que precisavam viver na perda. Os dias e as horas estavam sujos de lama. Isso eles começaram a entender.

Marino olhava Paracatu destruída. Via propriedades inteiras arrebatadas. Propriedades e não moradia. Essa era a grande questão: a diferença de perder a moradia e perder um amontoado de tijolos. “Pô, conheço gente que perdeu o terreno e muito mais coisa do que eu. Mas não vivia aqui. A vida dele em si continuou.” E a vida enlamaçada mostrou aos D’Ângelos que riqueza está muito além de dinheiro. Riqueza tem a ver com a palavra comunidade.


“Parecia que a gente estava na lua. Ficava cinza, aquele negócio sem vida nenhuma por cima”, relembra Marino D’Ângelo

Antes da barragem de Fundão romper a horta de Maria e Marino era farta. Todos dias a refeição era composta por três tipos diferentes de verduras, tudo extraído do quintal. O casal não sabia qual era o preço da mandioca e nem do tomate cereja. Cozinhava com o que plantava. A alimentação era rica. A fartura era tanta que a horta não servia só para eles. Quando uma comunidade funciona em sintonia não há fome que reine.

Um dia o vizinho de Marino começou a dar sinais de fome. A recente separação da esposa havia deixado o rapaz sozinho no mundo. E fome era uma palavra que não tinha chance de vingar na comunidade de Paracatu.

Na frente da casa de D’Ângelo uma enorme plantação de mandioca dava as caras. O rapaz sozinho, um dia, pestanejou e gritou lá na frente da plantação: “Seu Marininho, eu vou pegar mandioca aqui”. E de lá Marino respondeu: “Na hora que quiser. Não precisa ter gente aqui não. Você chega, pega e só planta outra no lugar”. Dali o rapaz saía e, pelo caminho, continuava ganhando alimento. Essa é a definição da palavra comunidade para Marino. E essa mesma palavra foi também excluída e destruída pela lama da Samarco.


Seu Geraldo na janela e Francisca e Arthur na porta da casa, que ainda tem marcas da lama.

A falta da comunidade virou um vazio dentro de Marino. A vida ativa de quem trabalha e vive na roça ruminou. As forças foram se esvaziando e Marino passava a vida deitado. Acordava, enchia a xícara com café e ficava na janela. A cabeça listando as tarefas do dia e o corpo pedindo arrego. Era dia e noite deitado. No outro amanhecer tudo igual: mente pensando e planejando e corpo exausto. Até que Maria passou a notar a estranha atitude do marido: “O que está acontecendo? Você só fica deitado aí”. E Marino não sabia responder. “Aquilo não tava em mim não, sô. Eu pelejava para sair dali e não conseguia”.

A solução foi procurar ajuda profissional. Do psicólogo, Marino foi encaminhado ao psiquiatra. E, na primeira consulta, nenhuma palavra falada. Só as palavras não ditas que escorriam dos seus olhos. “Você acha que eu conseguia falar? Quando eu tentava falar nem a voz saía.” E os olhos transbordavam em rio. Marino saiu do consultório com remédios prescritos.

Depois de sessenta dias lá estava ele de novo no consultório. Dessa vez, as palavras foram ditas. E quando ditas três comprimidos diários foram prescritos. Até hoje Marino os engole todos os dias.

Foi essa falta da palavra comunidade que fez Marino abraçar para si a luta dos atingidos. Primeiro como presidente da Comissão dos Atingidos de Paracatu e, depois, integrante da Comissão dos Atingidos de Paracatu de Cima – depois da separação incisiva entre Paracatu de Cima e Paracatu de Baixo.

Marino via a lama levando o único modo de vida que a família sabia viver. Como ser roça se não era mais possível ser roça naquele lugar? Como viver sem 1000 litros de leite produzidos por dia, já que hoje Marino só produz 300 litros? Como viver quando sua filha de 21 anos não consegue falar do dia 5 de novembro de 2015 sem chorar? Como viver quando a vida real vira ficção?

Marino sabe que ser rico está muito além da conta bancária. “A gente não tinha riqueza, mas era rico.” Sabe também que não há como reconstruir uma comunidade, que não é possível fazer da ilusão a própria vida.

Hoje, Marino (51), Maria (45), Alice (21) e Arthur (7) vivem em uma casa que não é deles – alugada pela Fundação Renova. A vida, além de ficção, é imposta. O que era para ser lar virou um acumulado de cimento. O que era para reconstruir só vingou ainda mais a destruição. “A gente está em uma propriedade que a gente não pode organizar, não pode planejar, não pode investir.” E, por isso, Marino e Maria buscam na internet um lugar para começar do zero. Um lugar em que possam ser ricos de novo. Onde a terra pode – de novo – ser o bem mais precioso.

Paracatu de cima e Paracatu de baixo, é tudo Paracatu

É um domingo e o relógio marca 11h30 da manhã. Maria do Carmo cruza a porta de entrada com sacolas e segue até a cozinha da mãe. Rapidamente, ela começa a descascar as batatas e o almoço passa a ganhar forma.

O pequeno Arthur corre de um lado para o outro, tentando afagar todo o doce de leite. Maria e Francisca avisam que aquele tanto de açúcar deixa a pessoa diabética. Depois da lama Maria e Marino adquiriram a doença e, hoje em dia, todo cuidado é pouco.


Maria do Carmo descascando batatas para o almoço de domingo.

Na primeira oportunidade, Maria já descamba críticas à casa amarela que fora criada. E quando a mãe começa a dizer que, pelo menos, os cômodos ficaram um pouco maiores, Maria já avisa que isso era um direito, conquistado pela Comissão dos Atingidos.

A Comissão surgiu logo depois do rompimento, em 2015. Mas quando percebeu o nascimento da divisão de Paracatu, Maria assumiu a bronca. Porque a chamada Paracatu de Baixo estava fortalecida, enquanto a parte de cima seguia sem amparo e sem direitos.

A comunidade, que antes era uma só, virou duas. Paracatu de Cima em um canto e Paracatu de Baixo em outro. A Comissão que era única precisou se dividir. E Maria seguiu na participação da arquitetura dos direitos dos atingidos de Cima.

A filha de 45 anos de Francisca e do seu Geraldo começou a perceber o limbo em que Paracatu de Cima estava. Como a parte de baixo fora a mais devastada, os atingidos lutavam fortemente pelos seus direitos. Enquanto a parte de cima ficava na dúvida se podia se considerar um atingido e o que precisava ser feito.

Ao mesmo tempo que coloca o feijão para cozinhar, Maria lembra de quando saiu de porta em porta buscando assinaturas para a criação da Comissão dos Atingidos de Paracatu de Cima. De rabisco em rabisco a comissão surgiu e, desde então, Maria praticamente trocou a roça pela agenda corrida de quem precisa defender os direitos do seu povo. Ela seguia sem entender a divisão do município, mas, para isso, nada mais poderia ser feito. O jeito era reunir forças e trazer o mínimo de dignidade para a comunidade dissipada.

Arthur entra na cozinha – agora sem o intuito de roubar o doce de leite em cima da geladeira. O pequeno chega bem perto de mim e solta: “Eu queria que a Samarco não existisse”. Pouco depois o telefone toca. É Marino avisando que Maria já pode ir buscá-lo. Arthur, eu e Maria entramos no carro e seguimos rumo a Águas Claras, local onde fica a casa alugada do casal.

No meio do caminho, Maria encontra outra Maria. A motorista buzina e pede para a colega entrar no veículo, a fim de pegar uma carona – ela tem o cabelo curto e usa óculos quadrados. Carrega uma sacola de plástico grande e veste uma blusa de manga comprida – mesmo a sensação térmica ultrapassando os 30 graus.

Antes que Maria feche a porta para se despedir da amiga, esta resolve desabafar. Há tempos sente uma forte dor no rim, nas pernas e o fígado está cheio de gordura. “Eles têm que me curar do jeito que eu era.” Ela diz que precisa fazer o exame para saber se há metais pesados em seu corpo, mas avisa que não confia em nenhum laboratório de Mariana. Maria do Carmo acalma a amiga e diz que quando a médica da USP for para Paracatu ela faz o exame. As duas se despedem e Maria D’Ângelo segue pela estrada até chegar na casa azul alugada. Marino e Alice entram no carro e seguimos de volta para a casa de dona Francisca.

No almoço, o cardápio feito por Maria é: arroz, feijão, torresmo e maionese de batata. De sobremesa pudim. Ficamos um tempo conversando até que Maria sugere: “Quer ver uma comunidade destruída?”. Entramos novamente no carro. Dessa vez só eu e ela. Seguimos cerca de cinco minutos pela estrada até avistar a placa “Paracatu”. Chegamos na cidade fantasma-viva. Fantasma pela sensação, mas viva pelos humanos que seguem habitando e vivendo em Paracatu.

Área de risco

O calor penetra pelo nariz. Os olhos ardem. Em poucos minutos a coceira toma conta dos meus braços expostos. A poeira que resta é seca, ao mesmo tempo que gruda feito chiclete na roupa. A placa verde sinaliza: Paracatu. Em cima o aviso: área de risco.


Placa avisa a chegada em Paracatu, também com o aviso de “Área de Risco”.

Pisar em ruínas que antes eram vida sufoca. O ar extremamente quente dificulta a respiração e o medo de inalar um gás tóxico faz a inspiração profunda ficar para depois. Naquela tarde de domingo só há eu e Maria entre a destruição. Ela caminha na frente e me mostra lá no fundo a cesta de basquete – agora da nossa altura. “Eu falo que essa cesta até eu acerto”. Brinca e ri. Como quem ri por desaforo. De quem não aceitou o que era imposto. Desaforo poderia ser o sobrenome de Maria.

Mais à frente passamos pelo corredor que antes os estudantes cruzavam para chegar às salas de aula. Metade da pequena construção de dois andares está manchada de lama tóxica. As janelas estão quebradas e próximo ao chão a escola está em decomposição.

Ao cruzar o corredor e olhar para dentro do que antes fora um local de ensino sinto falta de ar. O corpo fica sufocado e não há mais nada a fazer a não ser fotografar. Fotografo, pois tenho medo de não conseguir exprimir a destruição. Busco palavras e só consigo lembrar de Marino – que naquele momento está dormindo no sofá da sala da sogra devido os efeitos colaterais dos antidepressivos. Ficção. Essa palavra chega e fica.


Parte do que sobrou de material na escola no chamado Paracatu de Baixo, onde a lama causou maior destruição.


As marcas da lama mostram que mais da metade da escola foi atingida pelo rompimento da barragem de Fundão, em 2015.


O banheiro da escola completamente destruído pela lama.


Bilhete encontrado entre os escombros da sala de aula.

Olhar para os quadros manchados, as cadeiras reviradas, os vasos sanitários entuchados de lama tóxica é como observar uma realidade inventada. Em uma das salas de aula mais caóticas há um bilhete, um pequeno recado que fala sobre a violência psicológica da criança. Fotografo sem encostar no pequeno pedaço de papel azul. Não tenho esse direito. Lembro de Maria ao meu lado e da frase suja de lama tóxica, jogada no chão da sala de aula: “Existe violência psicológica”. Existe. E ela está concretizada bem na minha frente.

Há quatro anos, Maria convive com o que podemos chamar de Paracatu fantasma. Ela sabe cada pequeno detalhe dos destroços e explica como uma guia o que eram os tijolos antes de serem atingidos. “Aquele bar ali era muito famoso na região”, e aponta para uma construção indecifrável. Do bar sobrou uma fileira de tijolos de cerca de 1 metro e meio de altura.

Não há nada preservado. Tudo soa como destruição. Caminhamos no que antes era uma casa. “Aqui deveria ser a cozinha”, arrisca Maria, olhando para os azulejos brancos sujos de marrom. A parede é do meu tamanho. Tenho 1,60. “Olha a altura da tomada”, avisa Maria. A tomada que ficaria no alto da casa está no chão. Assim como todo o resto.

Quando a caminhada está quase no fim, meus olhos encontram um cachorro no meio dos escombros. Ele está sentado no meio da destruição. A lama tóxica transborda pela janela. Sinto uma coceira insuportável em meus braços e no nariz. Minha boca está seca. Fixo meu olhar no cachorro com coleira, tranquilo e deitado sob o material que faz o meu nariz coçar. Olho para ele e não sei como avisar que aquele lugar não é seguro. O cachorro continua parado na mesma posição, enquanto eu começo a me distanciar. Fecho os olhos e sei que se ele continuar ali sua vida será curta. Afinal, estamos em uma área de risco. Ali, sinto na carne e no osso a realidade inventada de Paracatu.


O pouco que sobrou de construções em Paracatu de Baixo.


Em Paracatu de Baixo são muitas as placas que avisam o risco da área.

Outro lado

A reportagem entrou em contato com a Fundação Renova, Samarco e Vale, para questionar as questões apuradas e apresentadas pelos atingidos. A Samarco respondeu, por meio de assessoria de imprensa, que “a demanda que você nos encaminhou deve ser apurada na Fundação Renova”. Até a publicação desta reportagem nem a Vale e nem a Fundação Renova responderam os questionamentos.No dia 17 de dezembro a reportagem entrou em contato com a Fundação Renova, Samarco e Vale. Com as seguintes perguntas: Como foram avaliados os atingidos? Há um método para classificá-los?
Há atingidos que seguem vivendo em casas alugadas pela Fundação Renova. A ideia é que esse quadro siga até quando? Há uma projeção para que os atingidos possam ter casas próprias?
Casas que estão na chamada linha vermelha serão mantidas? Há um protocolo a ser seguido para que essas pessoas sintam-se seguras?
Como foi elaborado o plano de reconstrução de casas? A ideia era trazer uma nova residência ou uma construção o mais similar possível da construção atingida?

Para vocês, é possível reconstruir uma comunidade?

No dia 19 de dezembro, a assessoria de imprensa da Samarco respondeu que as questões eram com a Fundação Renova (que estava em cópia no e-mail). Após a publicação do material, a mesma assessoria entrou, novamente, em contato com a reportagem e encaminhou a seguinte nota: A Samarco reafirma o seu compromisso com as comunidades e com as áreas afetadas pelo rompimento da barragem de Fundão e salienta que, até novembro do ano passado, foram destinados cerca de R$ 7,42 bilhões para as medidas de reparação e compensação que estão sendo conduzidas pela Fundação Renova.

A Fundação Renova entrou em contato com a reportagem pelo mesmo e-mail que as perguntas foram enviadas em dezembro, pediu posicionamento e aguardamos o envio das respostas.



*Mariana Ferrari é jornalista.

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