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Carnaval em São Paulo: Por uma política de alegria

"Historicamente, há uma tentativa de associar São Paulo à imagem de "túmulo do samba", e se no início do século XX essa imagem já era falsa, hoje, após o trabalho de retomada do carnaval de rua paulistano, essa alcunha se mostra cada vez mais distante do sentimento geral da população"

Foto: Vagner Medeiros/SMPR
Da Revista Forum, 21 de fevereiro, 2020
Por Vivian Mendes, Alexandre Padilha, Nilce Aravecchia e Matias Rebello Cardomingo


“O Poder requer corpos tristes. O Poder necessita de tristeza porque consegue dominá-la. A Alegria, portanto, é resistência porque ela não se rende.” Gilles Deleuze
No Brasil, é comum associar a política a tonalidades que pouco têm a ver com a real manifestação dos corpos e mentes de seu povo. Há por aí, inclusive, um esforço nesse sentido: de acinzentar a política para afastá-la das pessoas. Mas o povo brasileiro teima em viver e mostrar suas cores. E, obviamente, São Paulo seria apenas mais um território endurecido, se não fosse o trabalho das manifestações artísticas e culturais populares que se organizam pela construção da alegria como instrumento de produção política.

Apesar de todos os insistentes ataques à democracia, mais uma vez surge a voz do povo celebrando o carnaval, que também representa um campo de disputa contínua. Em São Paulo, cidade epicentro do poder econômico, organizações culturais populares passaram a disputar não só as narrativas do carnaval, mas também tiveram que lidar com impeditivos materiais para exercer sua tradição comunitária. Historicamente, há uma tentativa de associar São Paulo à imagem de “túmulo do samba”, e se no início do século XX essa imagem já era falsa, hoje, após o trabalho de retomada do carnaval de rua paulistano, essa alcunha se mostra cada vez mais distante do sentimento geral da população.


É nesse sentido que, se por um lado a repressão às manifestações de rua sempre caminhou junto à repressão ao povo pobre das periferias, por outro, mantém-se o legado de organização popular de setores que sempre estiveram na retaguarda das manifestações de cultura. É importante afirmarmos como o carnaval em São Paulo foi, muitas vezes, apropriado por interesses econômicos. Mas como nada na vida (e nela, sempre embrenhada a política) é fruto apenas do querer, mas também de uma profunda organização, disputa e vontade política, o carnaval também se mostra como um desses espaços que sofreu uma verdadeira revolução com as ações das políticas públicas de cultura. Foi por meio do resgate às tradições de rua, da verdadeira história do samba paulista, que o legado de figuras como Dionísio Barbosa, Geraldo Filme, Madrinha Eunice e Adoniran Barbosa está aí.

Nesse momento de explosão de alegria é importante relembrar à população paulistana porque, de repente, o carnaval na cidade pôde dar vazão para inúmeras expressões de seu povo trabalhador. Os blocos de carnaval – ou bloquinhos, como carinhosamente chamamos – são resultado de uma luta, que encontrou disposição política no governo municipal de Fernando Haddad (PT). Desde sua gestão, construiu-se um processo complexo de ocupação popular da cidade, que contou com incentivos e estímulos institucionais de toda ordem, com destaque para as manifestações populares no carnaval.

Entre as principais medidas (e das mais eficazes) esteve o processo de desburocratização do carnaval, que permitiu um número muito maior de blocos, mais diversos e acessíveis, se mostrando mais afeitos à pluralidade dos perfis da cidade como uma forma sistemática de ocupação do espaço público. Isso fez com que, apenas em 2013, primeiro ano da gestão Haddad, o número de blocos de carnaval saltasse para 210, em contraste aos 40 do ano anterior. Os frutos duradouros dessa gestão de políticas públicas voltadas para o carnaval trouxeram para a cidade mais de 500 blocos carnavalescos só em 2019. A partir deste processo de desburocratização, foi possível democratizar o acesso às ruas e, consequentemente, promover a descriminalização das manifestações carnavalescas, que até então sofriam repressões policiais sob um verniz de segurança pública.

Depois de Haddad, as investidas para coibir a prática da alegria não obtiveram sucesso. O governo Bruno-Doria foi obrigado a se render ao carnaval de rua. Mas ainda que finja acenar pela valorização da cultura popular, a atual gestão se utiliza deste espólio político para vender a alegria do povo, restringindo o carnaval a um negócio. A movimentação econômica é um fator importante para a sustentabilidade dos blocos e dos manifestantes, mas não há resultado melhor do que um povo que caminha livremente pelas ruas.

A liberdade proporcionada pelo legado Haddad, aliada aos movimentos de cultura popular da cidade, foi determinante para a manutenção dessa memória, que inaugurou uma nova tradição política, desde o modo como passou a ser feita a formalização do bloco de carnaval, até a inscrição de interessados a trabalhar como vendedores ambulantes. Foi assim que o carnaval passou a se apresentar também como um desfile de debates sociais, levando às ruas cada vez mais geração de renda, acesso a equipamentos culturais e manifestações de diversas ordens, tudo por meio de uma política de alegria.

Foi no também carnaval de Haddad que as campanhas voltadas ao combate ao assédio cresceram, dando ao debate feminista novas formas e espaços sociais (e muito glitter!). É por isso que não podemos deixar de destacar como uma política pública que objetiva o direito às ruas, ao entretenimento, à cultura e à memória popular são imediatamente debates que colocam as mulheres em evidência, principalmente pelo caráter histórico de protagonismo das mulheres à frente da cultura e das escolas de samba. Se hoje temos um carnaval paulistano de corpos, gêneros, cores e temáticas diversas, é porque houve uma política de inclusão das mulheres neste processo, dando vazão a uma nova forma de organização política e de disputa de narrativas.

Sabemos que o enredo construído a partir dos movimentos culturais e da tradição mais democrática da vivência de nossa cidade encontrou respaldo e eco nas gestões democrático-populares que aqui governaram. A boa convivência de cada bloquinho com a prefeitura são um legado do PT ao povo de São Paulo, que agarrou o carnaval e não solta. Neste ano eleitoral é necessário distinguir os cinzas e o colorido daqueles que realmente representam, na luta política, os anseios de alegria expressos nesta inigualável manifestação popular. Estaremos juntos no cordão da defesa desse legado.

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