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Alicia Bárcena: “Cultura do privilégio naturalizou desigualdade na América Latina”

Chefe da comissão econômica das Nações Unidas para a região considera esgotado o atual modelo de desenvolvimento e diz que subcontinente perdeu o bonde da indústria e da inovação
Alicia Bárcena, chefe da CEPAL, no aeroporto de Barajas, em Madri.VÍCTOR SAINZ


Por IGNACIO FARIZA
DO El País, Madri - 06 de Fevereiro 2020


Desigualdade, discriminação, cultura de privilégios, evasão fiscal, política industrial. Depois de meia vida longe do debate público, esse quinteto de conceitos passou à primeira linha nos círculos de poder da América Latina. Ainda mais desde o início dos protestos no Chile e, em menor grau, na Colômbia. “As pessoas estão cansadas, e o modelo econômico está esgotado”, repetiu a secretária-executiva da CEPAL, Alicia Bárcena (Cidade do México, 1952). Entre uma resposta e outra, e com os alto-falantes do aeroporto de Barajas (Madri) como melodia de fundo, a chefe desse braço das Nações Unidas para o desenvolvimento econômico latino-americano engole com pressa um refrigerante antes de embarcar para Roma, onde participa de uma cúpula de economistas patrocinada pelo papa Francisco no Vaticano. Tudo em um ritmo vertiginoso.

Pergunta. A sequência se repete há anos: vocês e as demais organizações internacionais publicam suas previsões de crescimento para a América Latina, e acabam desmentidos em seguida pela realidade. Otimismo demais?

Resposta. Com este ano já serão sete de crescimento muito baixo, e isso deve ser um sinal de alerta. O contexto externo não ajuda, mas a região tem um problema significativo de produtividade: é muito baixa e não avançou. Há exceções, claro, como Peru e Colômbia, economias que de fato crescem.

P. A região perdeu o trem do resto do bloco emergente.

R. Ao contrário de muitos países asiáticos, a América Latina perdeu dois trens: o da política industrial e o da inovação, deixando a tomada de decisão nas mãos das forças do mercado. É claro que este modelo de desenvolvimento, sem uma estratégia produtiva, estava esgotado. Tanto em questões econômicas, como fica evidenciado pelo baixo crescimento, quanto em termos de distribuição: que continuamos sendo a região mais desigual do mundo significa que não conseguimos distribuir essa aparente expansão.

P. Durante anos foi dito que a ordem na política fiscal e monetária traria crescimento, mas...

R. Com exceções, a macroeconomia tem estado ordenada e estável. E isso é importante, mas não suficiente. O problema é que a matriz produtiva não foi diversificada com conhecimento, com conteúdo nacional e com vínculos com pequenas e médias empresas. A grande fábrica de desigualdade da América Latina continua sendo a lacuna entre grandes e pequenas empresas. O caso do México é claro: exporta mais de um bilhão de dólares por dia, mas isso não é sentido na sociedade.


Alicia Bárcena (à direita) ao lado do papa Francisco em Roma, onde participa de encontro de economistasREMO CASILLI / REUTERS (REUTERS)

P. Estamos passando por um processo de reprimarização em várias economias da região, o que faz suas exportações recaírem quase exclusivamente nas matérias-primas.

R. Sim. É uma tema bem complicado, especialmente na América do Sul: são países que dependem de poucos produtos —petróleo, cobre, prata— e poucos mercados. As esperanças são o Brasil, que é um país muito diverso, e a Argentina, onde o novo Governo vem com força para propor uma política industrial.

P. Por que a política industrial é, há muitos anos, um anátema na América Latina?

R. Pelo neoliberalismo puro e duro; pela escola de Milton Friedman. O consenso de Washington teve um grande impacto em países como o Chile, e o resultado é uma economia desigual e nada diversificada. Em geral, o modelo econômico aplicado na América Latina está esgotado: é extrativista, concentra a riqueza em poucas mãos e quase não tem inovação tecnológica. Ninguém é contra o mercado, mas ele deve estar a serviço da sociedade, e não vice-versa. Temos que encontrar novas maneiras de crescer, e isso exige políticas estatais. Não é o mercado que nos levará, por exemplo, a mais inovação tecnológica.
A grande fábrica de desigualdade da América Latina continua sendo a lacuna entre grandes e pequenas empresas. O caso do México é claro: exporta mais de um bilhão de dólares por dia, mas isso não é sentido na sociedade

P. Vocês há anos apontam a desigualdade e a necessidade de mudar o modelo de desenvolvimento da região. Sem muito sucesso: os governos praticamente não lhes dão atenção. Sente que estão pregando no deserto?

R. O que acontece é que não conseguimos penetrar na própria estrutura: não alcançamos um pacto social entre o Estado, empregadores e trabalhadores, como o dos países nórdicos, para reduzir a enorme disparidade entre trabalho e capital. Sinto que pregamos no deserto: todos falamos de empregos cada vez melhores, formalização... O que é necessário é uma reviravolta estrutural do modelo. Na América Latina, houve um movimento de pessoas dos estratos da classe baixa para a classe média, mas mais da metade delas não completou nem 12 anos de estudos. O desafio agora é como apostar na educação e nas novas tecnologias.

P. O caso das energias verdes é especialmente paradigmático: a América Latina é uma das regiões do mundo com mais sol e vento, mas em muitos países ela não decola...

R. É outro trem que a América Latina não pode perder, e por isso precisamos de políticas ativas. A Costa Rica é um caso de sucesso, que em breve deixará de depender das energias carbônicas. E o Chile também. O México também deve apostar em ser neutro em carbono: é claro para mim que ele deve continuar produzindo petróleo, mas deve aumentar a energia renovável.

P. O governo de López Obrador não vai exatamente nessa direção.

R. O México está num processo de reflexão que me agrada. O presidente formou um conselho de investimentos, com Alfonso Romo no comando, e acho que nele podemos encontrar justamente esse equilíbrio entre investimento e respeito ao meio ambiente.

P. Mas o compromisso do Governo com o petróleo é inequívoco.

R. Inequívoco eu não sei. O que acho que o México está procurando, e acho muito razoável, é parar de depender das importações de petróleo. Sendo um país que possui reservas, você deve aproveitá-las com a melhor tecnologia disponível, mas também precisa compensar essa produção com outros tipos de desenvolvimentos mais sustentáveis. Tenho confiança em Romo: ele tem uma visão mais ampla e sabe que o mundo está indo nessa direção, como o Fórum de Davos acaba de mostrar.
Em geral, o modelo econômico aplicado na América Latina está esgotado: é extrativista, concentra a riqueza em poucas mãos e quase não tem inovação tecnológica

P. Alguns apontam para o aparente paradoxo de que os protestos, especialmente no Chile, ocorrem no momento de maior prosperidade material da história. É uma questão de expectativas?

R. O pano de fundo é desencantamento e raiva; um ponto de ruptura do modelo concentrador de riqueza e privilégios, com instituições que beneficiam apenas alguns. Isso a sociedade percebe, como também a evasão fiscal, a corrupção e a impunidade. Precisamos sair dessa propensão rentista, de concentração da propriedades e dos lucros e, acima de tudo, uma cultura de privilégios que naturalizou a desigualdade e a discriminação. As pessoas estão cansadas.

P. A desigualdade foi subestimada?

R. Definitivamente sim. Sempre foi calculada a partir de pesquisas domiciliares e, quando você a compara com os registros tributários, percebe o quanto subestimamos a desigualdade há anos. Temos que refinar nossa maneira de medi-la. No Chile, por exemplo, essa pesquisa diz que o décimo mais rico da população ganha, em média, 7,5 vezes mais que o décimo mais pobre, mas nos registros tributários essa diferença é de 25 vezes. E em alguns países da América Central é de até 70 vezes. A desigualdade sempre foi vista da perspectiva da pobreza, mas deve ser vista do ponto de vista da riqueza.

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