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O que você vai fazer o resto da vida?

Do 247, 2 de janeiro de 2020
Por Eric Nepomuceno


O escritor Eric Nepomuceno afirma em sua coluna que vivemos "tempos de breu, um breu que, além do mais, revelou, ao menos para mim e para um punhado de amigos de sempre, as verdadeiras dimensões da parte tenebrosa do meu país, e que vivia submersa: a parte reacionária, racista, olimpicamente ignorante, misógina, brutal, brutal"

Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia - Eu devia ter uns 22 anos quando ouvi uma belíssima canção escrita pelo francês Michel Legrand e com letra de um casal de norte-americanos, Alan e Marilyn Bergman: “What are you doing the rest o your live”, assim mesmo, no afirmativo, embora contenha uma pergunta aberta.

A canção, ouvi pela primeira vez na voz de Barbra Streisand. E a primeira coisa que me chamou a atenção foi o título, inquietante e inquisidor: o que você vai fazer o resto da vida?

Bem: naquele 1970 eu tinha acabado de ser abandonado pela minha companheira, e achei que iria passar o resto da vida entre apaixonado e dilacerado pela separação. Sobrevivi, e bem.

Além disso, aqui no meu país vivíamos debaixo de uma ditadura feroz, essa que Jair Messias e companhia negam ter existido, e me perguntei se ela iria durar até o resto da minha vida. Também sobrevivi, e bem.

Nesse dia de estreia de um ano que não parece vir especialmente benfazejo, cá no sossego de Petrópolis, na serra vizinha ao Rio, cidade de dona Laura, minha avó paterna, tropeço com a mesma canção depois de décadas.

E a pergunta volta a me rondar: o que vou fazer o resto da minha vida, além, claro, de viver?

O que fazer neste Brasil que entra num 2020 que ninguém sabe como será, se é que será?

Em muitas das vezes que me convidam para dialogar com plateias aqui e em outras paragens, em geral formadas por jovens, repito a mesma coisa: sou parte da geração (em 1968 eu tinha vinte anos) que sonhou alto, apostou alto, que em alguns momentos chegou a sentir que estava a ponto de tocar o céu com as mãos (a última vez: a Nicarágua de 1979), e que perdeu.

Perdeu.

A geração que padeceu as ditaduras absurdamente cruéis nestas comarcas da nossa América, que sobreviveu às perdas de amigos e companheiros, ao exilio, a tudo.

E que sobreviveu para ver, aqui no Brasil e em outros rincões, uma retomada de esperança – esperança refeita, adaptada, mas claramente esperança – e de repente despencar de novo no breu mais tenebroso, aqui representado por Jair Messias e sua trupe.

Paulo Guedes, por exemplo, jamais foi pesadelo para a minha geração porque ninguém tinha a mais leve ideia da sua nefasta existência. E é ele, enquanto Jair Messias e sua trupe nos distraem, que vai destroçando o país.

Enfim: tempos de breu, um breu que, além do mais, revelou, ao menos para mim e para um punhado de amigos de sempre, as verdadeiras dimensões da parte tenebrosa do meu país, e que vivia submersa: a parte reacionária, racista, olimpicamente ignorante, misógina, brutal, brutal.

Uma parte que sempre soubemos, e repito aqui o que disse numa coluna anterior, que existia, mas não tínhamos ideia da sua dimensão.

Pois é: sempre que me convidam para dialogar com plateias, em geral de jovens, aqui e por onde ando, repito a mesma coisa: sou parte de uma geração que sonhou alto, apostou alto, e que perdeu. E que depois, em vários momentos de várias das nossas comarcas, viveu a retomada da esperança.

Sim, sim, perdemos.

Mas não perdemos o essencial, as únicas coisas, além da vida, que conseguimos manter: a memória, a capacidade de nos indignar, e a esperança. A capacidade de resistir.

A primeira noite de um ano que começou carregado de enigmas está por terminar.

E cá no sossego da cidade da minha avó Laura – a mulher mais importante da minha vida (que me perdoem todas as outras) –, eu me lembrei dela, que foi-se embora há mais de trinta anos, e da canção, e de repente entendi o que vou fazer o resto da minha vida: manter acesa a memória, continuar me indignando, mantendo a esperança.

E resistindo.

Ah, claro: e respirando.

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