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Em memória de um menino que morreu no avião sonhando com a Europa

Do IHU, 12 Janeiro 2020

A artigo é de Roberto Saviano, escritor italiano, com livros traduzidos para o português, publicado por La Repubblica, 08-01-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Enquanto a equipe técnica do aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, fazia uma inspeção de rotina no avião da Air France que partiu na noite de terça-feira de Abidjan, na Costa do Marfim, e que aterrissou em Paris às seis da manhã da quarta-feira, notou algo anômalo no vão do trem de pouso. Ao se aproximar, percebeu que havia alguém, imóvel: era um cadáver, um pequeno cadáver.

As comunicações que citam fontes policiais francesas falam de um imigrante "com cerca de doze anos" (1). Escrito bem assim "d'une dizaine d'années". A Air France, por seu lado, confirma oficialmente a morte de um "clandestino".
Parecem palavras escolhidas com uma espécie de artimanha para não incomodar o leitor. Em vez disso, é apenas uma hedionda artimanha para gerenciar seu dramático impacto na mídia: a palavra menino nunca é pronunciada. É um menino que morreu.

Tentem imaginar aos dez, doze anos quem vocês eram, como eram. Tentem olhar para um menino dessa idade, mas façam-no agora, neste instante, fixem o olhar nele. Tentem falar em vossa cabeça que ele tem doze anos e tentem descrevê-lo como cidadão ou clandestino, de acordo com os documentos que presumivelmente possui; agora, tentem medir o desgosto que vocês sentem por essa métrica de descrição que acabaram de usar para definir um menino.
Fugir da miséria

Enquanto ainda estou escrevendo, o nome e a idade exata dessa criança que morreu de frio e asfixia no céu entre a África e a França ainda são desconhecidos. É fácil imaginá-lo escondido na clareira ao redor do aeroporto de Abidjan, enquanto vê o avião parado no meio do nada, como muitas vezes acontece nas pistas africanas tão distantes do conglomerado de concreto. É fácil imaginá-lo correndo no momento em que percebeu que não estava sendo visto, atento a encontrar o momento certo para subir nos enormes pneus do avião e enroscar-se no compartimento do trem de pouso.

Isso só podemos imaginar, mas o que sabemos com certeza é que os compartimentos do trem de pouso não são nem aquecidos nem pressurizados. As temperaturas caem para menos de 50 graus entre 9.000 e 10.000 metros, a altitude atingida pelos aviões de passageiros. Vocês sabem o que acontece quando se está a 4.000 metros? É como respirar em um saco de batatinhas fritas, aos 5.000 começa a ser difícil se mover bem, aos 8.000, como os alpinistas dizem, é como correr em uma esteira e "respirar apenas por um canudinho".

Abaixo dos 42 graus negativos, o corpo não é mais capaz de se termorregular e tenta descarregar todo o seu calor, começa a febre e a sudorese, depois as convulsões e o desmaio. Essas descrições não são uma fenomenologia do horror, mas apenas uma tentativa de descrever o que essa criança sentiu ao pagar por seu sonho de voar para a Europa.

A carta de Yaguine e Fodé

Assim também havia acontecido com Yaguine Koita e Fodé Tounkara: eles tinham 14 e 15 anos quando se esconderam em 29 de julho de 1999 em um trem de pouso de um avião que deixou Conacri na Guiné e seguiu para Bruxelas. Eles morreram por congelamento, mas o mundo ficou sabendo dessas duas crianças porque estavam carregando uma carta escrita à mão para a Europa: “Senhores membros e líderes da Europa, é por sua solidariedade e gentileza que clamamos por ajuda na África. Ajude-nos, sofremos enormemente na África, ajude-nos, temos problemas e as crianças não têm direitos ...”.

Atenção e comoção se espalhou pela mídia, mas nenhuma política mudou. Em vez disso, as tentativas de voar continuaram, escondidos no compartimento do trem de pouso. Em 2013, o corpo de um garoto de 16 anos de Camarões foi encontrado congelado em um avião que aterrissou em Paris.

A condenação da África

60% da população africana tem menos de 25 anos e 40% está abaixo dos 15 anos. É o continente mais jovem do planeta. A gangrena gerada pela política populista reside totalmente em ter obrigado um dos temas mais complexos do nosso tempo, a África e as políticas de migração, a uma gaiola interpretativa de pura banalidade. Obrigado a slogans tão mesquinhos a ponto de impedir que todos, mesmo aqueles que tentam desmontá-los e afastar-se de uma análise aprofundada do que realmente está acontecendo na África e dos motivos pelos quais toda uma geração tem um objetivo: fugir para não voltar.

No entanto, isso não precisava ser assim, as coisas nem sempre foram assim. A partir de 2012, a África está cheia de tentativas políticas de mudar o trágico destino ao qual parecia condenada, impedir ser uma terra de saques e impedir que a classe política corrupta descarregue qualquer responsabilidade apenas sobre o Ocidente como um álibi sempre útil.

Quando o movimento senegalês Y'en a Marre (Não aguentamos mais) derrubou o presidente Wade ou o Balai Citoyen de Burkina Faso obrigou Blaise Compaorè a renunciar, quando Lucha no Congo, e En Aucun, no Madagascar, e também Jeune et Fort, em Camarões, Sindimujia (Não sou escravo) no Burundi, falavam sobre a luta contra a corrupção, democracia e participação civil, de acabar com os presidentes vitalícios, de boicotar as políticas contra as migrações europeias, de colocar a mulher no centro, de combater as monoculturas, de defender o meio ambiente, em suma, quando esta África civil começou a se organizar, a Europa ficou com medo: corria o risco de perder os antigos acordos de proteção para a exploração de minas e plantações ou ser chantageada por empresas que, de fato, não confiavam nos novos movimentos e preferiam aqueles que eram sim políticos "filhos da p...", mas também "os nossos filhos da p...”.

As lágrimas e o silêncio

O aeroporto de onde o voo partiu – em homenagem ao primeiro presidente da Costa do Marfim que construiu a igreja mais alta do mundo no final da década de 1980, gastando em um país onde ainda faltavam escolas, redes de distribuição de água e modernização de hospitais, quase US$ 300 milhões - é um símbolo do passado africano que determina seu presente. Depois de todas as palavras sobre a tragédia, só há uma coisa a fazer: parar e engolir todas as lágrimas possíveis para suportar o nojo que nos tornamos por manipular as palavras, traindo todos os significados, comprazendo-nos com nosso sarcasmo de esconder o que está acontecendo com um simples "sempre foi assim". Talvez seja conveniente apenas ficar calados diante desse menino que morreu de frio pela única possibilidade de felicidade que lhe fora dada: fugir escondido.

Nota do IHU

1.- O jovem é Laurent Ani e tinha 14 anos. A informação é publicada por La Repubblica, 10-01-2020. Segundo uma fonte de investigação, o adolescente, de 14 anos, "morreu por asfixia ou por congelamento".

As temperaturas chegam a -50 graus entre os 9 e 10 mil metros, a altitude em que voam os aviões de linha. O local do compartimento do trem de pouso não é climatizado nem pressurizado.

Segundo a ONG International Volunteer Center (Cevi), em 2017 chegaram na Itália, da Costa do Marfim, 8.753 migrantes entre 14 e 24 anos de idade. Destes, 1.263 eram mulheres e 1.474 menores não acompanhados.

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