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Turismo indígena atrai gringos, dinheiro e drogas para as aldeias do Acre

“ Americanos, Israelenses, Ingleses e etiopianos estão na lista dos gringos que cada vez mais chegam ao Acre para conhecer o chamado “vinho da alma, a ayahuasca. Pacotes que chegam até R$ 150 mil são comercializados para permanência dos turistas nas Aldeias. A áreas habitadas por Katukinas e Yawanawas são as rotas preferidas dos gringos que vêm em busca de vários objetivos.”

De Aliança RECOs - Redes de Cooperação Comunitárias Sem Fronteiras, 27/11/2019

Por Da redação ac24horas


Índios que não concordam com a mercantilização da cultura denunciam a perda de identidade das tribos que durante todo o ano realizam encontros e vendem pacotes de turismo que custam de R$ 3 a R$ 10 mil por pessoa.

Americanos, Israelenses, Ingleses e etiopianos estão na lista dos gringos que cada vez mais chegam ao Acre para conhecer o chamado “vinho da alma, a ayahuasca. Pacotes que chegam até R$ 150 mil são comercializados para permanência dos turistas nas Aldeias. A áreas habitadas por Katukinas e Yawanawas são as rotas preferidas dos gringos que vêm em busca de vários objetivos.

“O fluxo de visitas tem sido tão grande que os índios não estão tendo mais tempo para viverem sua própria rotina. Eles estão abandonando seus hábitos alimentares, perdendo a própria intimidade de vestimentas”, disse uma ativista que pediu para não ter seu nome identificado.

A ativista prefere não se identificar porque conviveu durante anos na Aldeia do Mutum, localizada no Alto Tarauacá, região conhecida como um paraíso escondido no meio da floresta. Americanos vêm ao Acre conhecer a ayahuasca porque nos Estados Unidos o “elixir” é considerado como droga.

Segundo a jornalista Ann Babe que em 2016 já denunciava os impactos do turismo na vida dos indígenas, “a ayahuasca atrai gringos para a Amazônia por vários motivos. Alguns buscam o próprio grande despertar espiritual; alguns querem ser curados de doenças e vícios crônicos. Outros a experimentam para se recuperar de um luto debilitante, para combater ansiedade, ou apenas para chapar com o santo graal das drogas”, escreveu.

No Acre, a ativista que gravou entrevista com o ac24horas alerta para a introdução do capitalismo nas aldeias, um investimento que, segundo ela, não chega na ponta. “O capitalismo que era coisa da cidade entrou nas aldeias de tal forma que eles não pensam em outra coisa a não ser as cerimonias de captar recursos que não é a benefício de todos, mas de ‘alguns’ líderes”, acrescentou.

A reportagem apurou que as primeiras pesquisas sobre os impactos do turismo se concentravam justamente nos aspectos econômicos por que ao mesmo tempo em que os turistas deliram com a energia da ayahuasca, enfrentam impactos ambientais e sociais.

Pesquisadores que estiveram visitando as tribos indígenas que vivem as margens do Rio Gregório e que participaram dos festivais promovidos pelas etnias, atestam o alertam feito pela ativista. Os eventos promovidos no meio da floresta vem deixando algumas pessoas muito ricas, mas as comunidades indígenas onde essas práticas se originaram continuam a viver na pobreza e sob o risco de vários problemas ambientais e sociais.

“Os índios se drogam para aguentar o pique intenso de festivais e encontros. Os huni kuin literalmente comem maconha com farinha, usam a droga para se manter de pé. Os meninos passam a noite tocando, as mulheres cantando, eles não têm tempo para plantar, cultivar, trabalhar com artesanato”, acrescenta a ativista.

Essa perda de identidade foi comentada pelo ambientalista Paul Masterson que no início de novembro esteve na Aldeia Altamira, no Rio Tarauacá, em Jordão, implantando o Programa. Outro famoso, o ator global, Fábio Assunção, veio durante o Carnaval deste ano buscar cura contra a dependência química na Aldeia Nova Morada, em Feijó. Ele apareceu em várias fotos participando do ritual do Rapé, outra tradição regional.

Nas aldeias do Acre, além da ayahuasca e o uso do rapé, os turistas fecham pacotes para participar do ritual do Kambô. É a vacina do Sapo, o nome popular para a aplicação das secreções produzidas pela “perereca” Kambô em pequenos ferimentos produzidos artificialmente nos braços ou nas pernas de uma pessoa, para que as substâncias presentes na pele do animal penetrem na circulação sanguínea.

O negócio está se tornando tão lucrativo que vem estimulando o surgimento de pseudoxamãs por toda a Amazônia para atender a demanda dos pacotes turísticos. O influxo provocado pelo turismo nas aldeias preocupa entidades ligadas à cultura indígena. O caso deve chegar à Comissão dos Direitos Humanos do Congresso Nacional em 2020.

No último domingo (24) foi comemorado o dia estadual da cultura ayahuasqueira. O chá foi batizado pelo Mestre no início da década de 30 com o nome de Santo Daime. A Câmara Temática trouxe representantes dos chamados centros troncos da doutrina no Acre pare debater no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil, na última quinta-feira (21) aspectos jurídicos da deontologia de uso do chá que é considerado sagrado e a evolução entre tradição e ciência.

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