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O fim do indivíduo. Viagem de um filósofo à terra da inteligência artificial

Liberem a Inteligência Artificial: entre a Europa, a América e a China, Gaspard Koenig apresenta um panorama dos atores desse progresso incerto, que em todas as partes ameaça nosso livre arbítrio.
Do IHU, 04/12/2019

A reportagem é de Cédric Enjalbert, publicada por Philomag, 20-08-2019. A tradução é de André Langer.
Reprodução da capa do livro

Mal tendo voltado de sua viagem à “terra das liberdades” (Éd. de L’Observatoire, 2018), Gaspard Koenig empreendeu uma nova, desta vez “à terra da inteligência artificial” (La fin de l'individu. Voyage d’un philosophe au pays de l’intelligence artificielle. Éditeur L’Observatoire – 400 páginas – Preço 21 euros). O filósofo liberal, fundador do laboratório de ideias GenerationLibre, fez a pesquisa tentando “preencher a lacuna entre os esplendores da tecnologia e a permanência da metafísica”.

Sua expedição começa no laboratório de Inteligência Artificial do Facebook em Paris e continua em Berlim, Estados Unidos, China e Israel. Este denso diário de bordo é o resultado de mais de cem entrevistas com especialistas e filósofos (Cédric Villani, Yann Le Cun, Nicholas Nassim Taleb, Yuval Noah Harari...). Koenig convoca também os clássicos, sem tecnofobia, mas com precauções reais, porque uma ameaça pesa sobre o nosso livre arbítrio, “que se encontra mais ou menos na base das nossas sociedades ocidentais desde o Iluminismo, e que justifica ao mesmo tempo os direitos individuais, os mecanismos de mercado, o direito de voto e a justiça penal”.

No campo do trabalho – onde os algoritmos estão substituindo os recursos humanos –, da justiça – onde orientam as decisões –, no amor – onde selecionam o cônjuge –, até nos campos ético e moral, Koenig teme que estejamos perdendo o controle na “sociedade do torniquete”, aceitando pouco a pouco, de torniquete em torniquete, “atordoados pelo conforto e a eficiência” das escolhas delegadas à Inteligência Artificial, uma forma de renúncia e de servidão. “Como ser livre e responsável – preocupa-se – quando nosso pensamento é o mero produto de um campo de forças que o ultrapassa?”.

O autor observa um paradoxo: os responsáveis por essa sabotagem dos “fundamentos liberais das nossas sociedades” também são os primeiros defensores do liberalismo, isto é, os atores do Vale do Silício, “tão cegados por sua paixão pela inovação que se recusam a medir o risco fundamental que a Inteligência Artificial representa para a própria noção de indivíduo”. Ele empresta de Deleuze o conceito de “dividual” (o contrário de “individual”) para qualificar o homem “decomposto em tantas coordenadas digitais quanto existem sistemas interessados nele”, levando a uma sociedade sem sujeito, sem unidade, mas não sem política.

O que fazer? Optar por um “suicídio” tecnológico, renunciando aos riscos do progresso? Abandonar o terreno da democracia, deixando o “terreno livre para os autocratas”? Koenig imagina uma terceira via. Inspirando-se no filósofo americano Daniel Dennett, ele inverte a noção de “livre arbítrio” – muito ambiciosa – em benefício do “arbítrio livre”, conciliando determinismo (os algoritmos) e autonomia. Esta perspectiva “compatibilista” considera, como escreve Leibniz, que “a conexão das causas com os efeitos, longe de causar uma fatalidade insuportável, fornece meios para elevá-la”.

Como? Apropriando-nos das nossas escolhas, mesmo que guiadas pela Inteligência Artificial, e conferindo às nossas ações o sentido de uma intenção. Com outras palavras, tomar consciência dos determinismos que nos governam e agir de acordo com esse conhecimento, sem fatalismo. Insistir na arbitragem mais que sobre a liberdade, definindo as áreas em que a Inteligência Artificial opera e os princípios éticos que a orientam, a partir de uma deliberação consigo mesmo.

Trata-se, portanto, de escolher o escape em relação ao caminho otimizado pelo algoritmo ou de definir a lista de livros a partir da qual outras compras são sugeridas. “O arbítrio livre, portanto, consiste em um tipo de reflexividade da intenção. [...] Nós dominamos o processo que precede a escolha”. Ainda devemos ter os meios para isso: politicamente, garantindo a propriedade sobre os nossos dados; tecnicamente, garantindo sua portabilidade; e pessoalmente, liberando o tempo, o dinheiro e as competências necessárias para essas escolhas perpétuas.

Nota de IHU On-Line:

O Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove o seu XIX Simpósio Internacional. Homo Digitalis. A escalada da algoritmização da vida, a ser realizado nos dias 19 a 21 de outubro de 2020, na Unisinos Campus Porto Alegre.
XIX Simpósio Internacional. Homo Digitalis. A escalada da algoritmização da vida.

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