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No cinema, o ser fragmentado dos indígenas

Em A Febre, de Maya Da-Rin, os indígenas vistos de forma profunda e original. Na história, o entre-lugar do protagonista: o trabalho, a periferia, a filha que estudará medicina; em casa, o idioma tucano e os contos de seus antepassados…

De OUTRAS PALAVRAS, 05/12/2019 

Por José Geraldo Couto, no Blog do Cinema

A febre, o grande vencedor do recente Festival de Brasília, premiado anteriormente também em Locarno, Chicago e Mar del Plata, pode ser considerado um marco no modo como o cinema encara esse personagem trágico que é o índio no mundo dos brancos – ou, mais precisamente, o índio brasileiro num país entregue desde sempre à voracidade predatória de um certo modelo de civilização.


O filme de Maya Da-Rin leva adiante e aprofunda de modo original uma linhagem cinematográfica que inclui obras tão díspares como Uirá (Gustavo Dahl, 1973), Iracema (Jorge Bodanzky e Orlando Senna, 1975), Brava gente brasileira (Lúcia Murat, 2000) e Serras da desordem (Andrea Tonacci, 2006), entre outros.

Aqui, o protagonista é Justino (Regis Myrupu, melhor ator em Locarno e em Brasília), um índio viúvo, na faixa dos quarenta anos, que trabalha como vigilante diurno no porto de Manaus. Sua filha Vanessa (Rosa Peixoto), que trabalha num hospital público, acaba de ser aprovada no curso de medicina da UnB e está prestes a se mudar para Brasília.

Entre-lugar

Morando na periferia de Manaus, na beira da mata, falando português no trabalho e o idioma tucano em família, Justino representa bem esse entre-lugar ocupado pelos índios na sociedade branca. A primeira imagem que vemos dele – um plano fixo frontal – é eloquente: o colete e o capacete de trabalho não escondem os traços fortemente indígenas, o corpo vigoroso aparentemente incômodo sob uma roupa que não lhe pertence e que o aprisiona.

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