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Para pensar a Amazônia após o pesadelo

Outras Palavras coedita livro em que Ricardo Abramovay demonstra a insanidade do desmatamento e propõe uma “economia do conhecimento da natureza”. Obra relembra necessidade de uma esquerda que vá além da denúncia
De OUTRASPALAVRAS, 19 de Novembro, 2019
Por Antonio Martins


Colhedoras cooperadas de babaçu. Extrativismo sustentável é uma das atividades que ocupam população, mantêm a floresta em pé e favorecem política de “desmatamento zero”Amazônia — Por uma Economia do Conhecimento da Natureza
De Ricardo Abramovay
Uma coedição Outras Palavras, Elefante e Terceira Via
Disponível em nossa loja virtual


As primeiras mobilizações em defesa da Amazônia ocorreram, espontâneas, em agosto de 2019, quando as nuvens de fumaça das queimadas cruzaram o país e bloquearam a luz do sol no meio da tarde. A oposição ao desmatamento é largamente majoritária, inclusive entre quem apoia o presidente que comanda a devastação. O livro de Ricardo Abramovay aporta, a esta consciência nascente, dois ingredientes indispensáveis. Ele demonstra que o fim da maior reserva de biodiversidade do planeta não é inevitável – e, portanto, a luta social (ou sua ausência) será o fator decisivo. E, ainda mais importante, oferece pistas seguras sobre uma alternativa.

Participante, há décadas, de reflexões e lutas em favor da Amazônia, Abramovay distancia-se, porém, daqueles que enxergam na região apenas o idílio natural, o paraíso terrestre que deveria permanecer intocado. Ele lembra: vivem, só na parte brasileira do bioma, 25 milhões de pessoas – mais que Suécia, Finlândia e Noruega juntas.

Esta população cresce, há mais de três décadas, a um ritmo duas vezes maior que o do país. Instala-se em condições precárias: em terras invadidas por grileiros, exercendo atividades mal remuneradas, submetida permanentemente à violência, espalhada por um imenso território, desassistida pelo Estado e pela Justiça. Há dois caminhos: um é deixá-la ao léu e permitir que o poder econômico, frequentemente associado ao crime, impulsione-a contra a floresta e as populações originárias. Nas queimadas e extração ilegal de madeira. Na ocupação de áreas protegidas por lei (50% do território amazônica), mas nunca suficientemente defendidas. Nos garimpos clandestinos. Nos canteiros de obras absurdas.

A alternativa, explica o autor, é o desmatamento zero, combinado com a oferta, a milhões de amazônidas, de ocupações dignas, junto à floresta em pé. Isso é possível; já ocorre, em pequena escala; pode se generalizar facilmente, com enorme ganho social ambiental e econômico, caso mudem as políticas públicas para a região. Dos cinco capítulos da obra, o terceiro, que trata especificamente deste tema, é o mais instigante. Abramovay cita algumas das atividades que indicam o possível surgimento de uma Economia do Conhecimento da Natureza – subtítulo do livro. São elas: Extrativismo Sustentável; Turismo Ecológico; Manejo Florestal (em que a madeira é explorada em ciclos de 25 a 35 anos, de modo a retirar apenas as árvores maduras, preservando as jovens); Restauração Florestal com espécies nativas nas áreas degradadas (como fazem China, França e Alemanha, por exemplo).

Há uma proposta ainda mais desafiadora. Sabemos ainda muito pouco sobre como tirar proveito da vastíssima biodiversidade da floresta em pé, para a produção de medicamentos, cosméticos, sementes. Para desenvolver este conhecimento, Abramovay suscita uma ideia formulada pelo cientista brasileiro Carlos Nobre: a criação de Laboratórios de Inovação da Amazônia, que articulariam “os conhecimentos seculares das comunidades tradicionais, com a pesquisa científica sobre a biodiversidade”.

À medida em que se avança na obra de Abramovay, uma outra Amazônia surge, viva, na mente do leitor. Nela, a floresta e seus habitantes ancestrais são protegidos. Não há fogo, nem clareiras cada vez maiores engolindo a mata. Recupera-se o poder de fiscalização dos órgão públicos. Aos poucos vão se multiplicando as iniciativas de extrativismo sustentável, que hoje existem em pequena escala. Nelas, é possível obter ocupação segura e renda digna. Tudo isso é alimentado graças aos Laboratórios de Inovação. Neles, pesquisadores de todas as partes do país participam, com os povos indígenas, de uma troca de saberes científicos e culturais que gera novos medicamentos e outros produtos.

Parece fantasia, nas condições de hoje. Não será possível, porém, superar os tempos de nuvens escuras que invadem nossas tardes, sem pensar projetos para o Brasil pós-Bolsonaro. O trabalho de Ricardo Abramovay tem o mérito de guiar nossa imaginação, num território tão fantástico como a Amazônia – e de relembrar que certas utopias políticas, sendo muito difíceis, não são, por isso mesmo, impossíveis…

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