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Achille Mbembe: obra em movimento

Do IHU, 02 Novembro 2019
Por Maciek Wisniewski


“Quais são as características constituintes de nossos tempos? Quais são as chaves do nosso momento que ainda não têm um nome?, Mbembe costuma perguntar, destacando que uma coisa é clara: vivemos em tempos de um enredo planetário (planetary entaglement), em que a aceleração e a multiplicação de conexões se interpõe a um drive da contração, contenção, confinamento e seletiva permeabilidade”, escreve Maciek Wisniewski, jornalista polonês, em artigo publicado por La Jornada, 01-11-2019. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

1. A caleidoscópica obra de Mbembe, o filósofo camaronês formado na França e estabelecido há anos na África do Sul - que, recentemente, esteve no México dando uma conferência sobre militarização e as fronteiras -, aborda temas da pós-modernidade, Estado, violência, capitalismo, psicanálise, sexualidade, cidade, migrações, novas tecnologias e sua escalada, até racismo e colonialismo.

Mais conhecido por seu termo necropolítica - uma fusão da biopolítica foucaultiana e o estado de exceção schmittiano, um modo de governar através da decisão do soberano de quem vive e quem morre, em uma ampla gama de políticas de subjugação à morte para controle populacional (Necropolitics, en: Public Culture, núm. 15/1/03, p. 11-40) -, Mbembe se movimenta analiticamente em diferentes direções.

Embora se recuse a ser classificado apenas sob a categoria necropolítica, seu pensamento, em movimento, uma e outra vez volta a ela, como em seu conceito de sociedade de inimizade, entrando em contato com outros temas de seu interesse. Em suas próprias palavras, o rubro da vida, coisas que a afetam e ameaçam (fronteiras, tecnologia), seu futuro e a durabilidade do nosso planeta.

Tudo isso, em uma era marcada pelo ressurgimento de forças racistas, fascistas e nacionalistas, as políticas de exclusão, o neo-apartheid, a erosão da democracia e a proliferação das zonas de morte (ver: Necropolitics, Duke University Press, 2019).

2. Trabalhando amplamente questões de raça, racismo e sua construção - e retomando de Foucault o ponto de como o racismo de Estado se torna uma ferramenta de biopoder e biopolítica -, Mbembe aponta para o Iluminismo como sua origem. Entrelaçando as narrativas da escravidão, colonialismo e apartheid sob o que denomina de razão negra (ver: ‘Crítica da razão negra’, 2013), disseca os modos históricos que moldaram a experiência negra, e um muito concreto nó entre negritude-branquitude, a violência e a morte, cujas raízes estão localizadas nas origens do capitalismo.

Sendo o negro um produto da Europa e sua razão (Kant, etc.) - uma espécie de Sombra da Ilustração -, a negritude se situa para ele no coração da modernidade e do capitalismo. Assim, o necessário desmantelamento da branquitude passa tanto pelo questionamento das violentas instituições pós-coloniais, como pelo despertar do autoconhecimento e a descolonização das ciências.

3. Em um de seus livros mais importantes – On the postcolony (2001) -, Mbembe, invocando Freud e Fanon - figura central de seu pensamento -, analisa como a imagem da África, um continente que raramente aparece por si só e como parte do humano, está composta por uma série de estereótipos, produtos de fantasias, culpas e medos do Ocidente e de seu inconsciente. Em contraposição a isso, destaca seu crescente significado para o futuro do planeta em vias do colapso ecológico e a maneira como expõe a natureza predatória do capitalismo, constituindo, por sua vez, sua última fronteira.

Apontando a África do Sul, convulsionada pela transformação capitalista e a xenofobia, Mbembe a vê como um prototípico país fanoniano que não pode deixar de questionar sua própria consistência e decidir se suas partes devem existir separadamente ou juntas, destacando também como o apartheid, considerado já falecido, pode ser o nosso futuro global.

4. Quais são as características constituintes de nossos tempos? Quais são as chaves do nosso momento que ainda não têm um nome?, costuma perguntar, destacando que uma coisa é clara: vivemos em tempos de um enredo planetário (planetary entaglement), em que a aceleração e a multiplicação de conexões se interpõe a um drive da contração, contenção, confinamento e seletiva permeabilidade. Onde a proliferação de fronteiras / muros/portas/enclaves e divisão do espaço gera todos os tipos de pessoas sobrantes que devem ser separadas. E onde “uma guerra global à 'mobilidade'”, aos refugiados e aos migrantes - a questão política central de hoje - transforma corpos em fronteiras, gerando novos cenários de encarceramento frente o que postula uma necessária utopia de um mundo sem fronteiras.

5 Apesar de ser considerado seu representante, ir destacando pontualmente sua importância e ser autor de um dos mais interessantes livros sobre a pós-colonialidade (On the Postcolony) - apontando bem de passagem a continuidade entre a pilhagem colonial, a economia das plantações e o imperante modelo de capitalismo neoliberal e a extração de recursos -, Mbembe rejeita este rótulo: “Já disse isso muitas vezes, mas ninguém me escuta. Não pratico a teoria pós-colonial (evidenciando a 'diferença', em vez de resgatar o 'passado não metropolitano')”.

Assim, o miolo de seu projeto não é provincializar a Europa (vide: D. Chakrabarty), um continente que por si já não está no centro, possuído por uma busca obsessiva por um inimigo (Necropolitics, 2019), mas, ao contrário, descentralizar o mundo todo.

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