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O naturalismo integral de Krajcberg

No documentário 'Frans Krajcberg: Manifesto', Regina Jehá privilegiou a militância inconformista de Krajcberg em lugar de uma narrativa propriamente biográfica.


Da Carta Maior, 11 de Outubro, 2019
Por Carlos Alberto Mattos



Frans Krajcberg (1921-2017) está dirigindo um carro por uma estrada do interior de Minas. Sorridente e emocionado, fala de uma árvore bonita e solitária que ele conseguiu salvar à beira da estrada. O carro se aproxima e, quando passa pela árvore, ele agita o braço para fora da janela e a cumprimenta com um grito: "Bom dia, árvore!"

A cena é uma das muitas coletadas por Regina Jehá em FRANS KRAJCBERG: MANIFESTO. Grande parte do documentário se compõe de arquivos de vídeo e áudio que, reunidos, recompõem a trajetória do artista e expõem sua profunda indignação com o descaso dos homens pela saúde do planeta.

Regina acompanhou seu companheiro, o publicitário Sepp Baendereck (1920-1988), em algumas expedições com seu amigo Krajcberg pela Amazônia e o Pantanal. Os registros dessas viagens, somados a alguns materiais complementares, formam um rico testemunho da convivência de Krajcberg com a floresta.



"A Natureza cria mais do que eu", diz ele a certa altura. O deslumbramento pelas formas naturais era tão grande quanto sua revolta contra a destruição. Um ponto de inflexão em sua maturidade foi quando abraçou o Manifesto do Naturalismo Integral, escrito pelo crítico de arte francês Pierre Restany. Em oposição ao realismo (que se relacionaria ao poder), o naturalismo integral propunha uma abertura da consciência para a Natureza.

Daí que a seleção de materiais para esse filme tenha privilegiado a militância inconformista de Krajcberg em lugar de uma narrativa propriamente biográfica. Ele conta, por exemplo, como contratou três caminhões para retirar suas obras de um espaço que as tratava com desleixo ("Curitiba, para mim, não existe mais"). Em outro momento impactante do filme, Regina chega com ele ao prédio da Bienal e testemunha sua exasperação com a forma como vinham preparando sua exposição.

Com discretas intervenções da diretora, o documentário deixa que os arquivos falem por si. Em suas derradeiras filmagens, com Krajcberg já aos 95 anos e corpo carcomido pelo câncer de pele que aproximava sua aparência à das árvores calcinadas com que costumava trbalhar, Regina gravou conversas graves sobre a guerra e a dizimação de sua família pelos nazistas na Polônia. "Para falar de fome, é preciso sentir fome", avisa. E explica que fugiu da cidade para descobrir a vida, que é a Natureza. Assim como fugiu do quadrado (a tela de pintura) para mergulhar o corpo na floresta.


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