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Desenhos descobertos em porão que já foi senzala de Vila Rica revelam inéditas cenas africanas


Pesquisadores acreditam que elas foram feitas no século XVIII e mostram cotidiano de sociedades que viviam do outro lado do Atlântico.



Por Thais Pimentel
Do G1 Minas — Belo Horizonte, 31 de Outubro, 2019 


Pessoas trabalhando em pilão, utensílio africano, são retratadas em gravuras centenárias. — Foto: Philipe Passos/Arquivo pessoal

Em uma das paredes do porão de um dos casarões centenários da Rua Conde de Bobadela, conhecida como rua Direita, em Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais, onde havia uma senzala, há um “retrato”, até então desconhecido, de uma cena africana.

Pessoas trabalhando em um pilão, mulheres em um navio e animais que não fazem parte da fauna brasileira estão cravados no espaço, descoberto durante reforma.

“A obra tinha começado em 2017, e o rapaz que trabalhava lá perguntou se eu já tinha visto os desenhos na parede. ‘Que desenhos?’, eu perguntei. O porão é muito escuro e eu nunca tinha percebido. A antiga dona me disse depois que essas imagens sempre existiram lá. Foi uma surpresa encontrar essa riqueza aqui”, falou o empresário Philipe Passos, cuja família é proprietária do casarão.

Segundo pesquisadores, os desenhos foram feitos por pessoas escravizadas que viviam na senzala, onde hoje é o porão.

“É algo nunca visto em Minas Gerais. Não se tem notícia de nada parecido. É um ponto de partida para entendermos a origem desta população que forjou esta cidade. Uma peça fundamental deste ‘quebra-cabeças’ que é a história destas pessoas”, disse o guia turístico e historiador Marcelo Hipólito.



Figura mostra navio com duas pessoas; ele seria comum na região onde hoje é Guiné e Nigéria. — Foto: Philipe Passos/Arquivo pessoal

Uma das cenas que chama a atenção é a de duas mulheres em um navio. ”Essa gravura mostra que quem a desenhou passou por um rio ou pelo mar. Em Ouro Preto, na época Vila Rica, há apenas córregos. Não há navios por aqui ou histórico disso”, disse o historiador.

Para a também historiadora, pesquisadora da cultura africana e diretora de Promoção da Igualdade Racial da Prefeitura de Ouro Preto, Sidnéa dos Santos, o tipo de embarcação registrado na parede é similar aos usados no Rio Níger, que atravessa territórios que são hoje Guiné e Nigéria.



À esquerda da tela de Johann Moritz, que retrata um mercado de escravos, há um menino desenhando na parede. — Foto: Johann Moritz/Reprodução

"Esta descoberta reforça a teoria de que quem veio para trabalhar na mineração em Vila Rica eram pessoas que já detinham o conhecimento desta atividade. E estes povos ficavam justamente nesta região, revelando que os portugueses sabiam exatamente quem poderia fazer este tipo de serviço", disse ela.

Outras curiosidades são a presença do pilão, um utensílio africano, e um animal semelhante a um guepardo, típico da savana.

“São memórias de alguém que viveu ali. São registros fundamentais. A escravidão, querendo ou não, faz parte sim da história desse país. É preciso estudar e conhecer”, disse Hipólito.


Animal semelhante a um guepardo foi entalhado em parede por pessoas escravizadas. — Foto: Philipe Passos/Arquivo pessoal



Casarão onde os desenhos foram encontrados fica no centro de Ouro Preto — Foto: Aparecido Gonçalves/ Arte G1

O casarão foi construído no século XVIII, auge da exploração do ouro durante o período colonial. Estima-se que neste época Vila Rica tinha 40 mil pessoas escravizadas. Cerca de 10% da população africana que foi sequestrada e desembarcou nas Américas vieram para trabalhar nas minas.

"Trata-se de uma ponte que liga Minas Gerais até o outro lado do Atlântico. As pessoas que foram sequestradas em África tinham conhecimentos agrícola, de engenharia, de astronomia, de medicina muito mais avançados do que na Europa naquele tempo", disse Sidnéa.



Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais — Foto: Reprodução/TV Globo

Preservação

A Fundação Cultural Palmares, que preserva e promove valores da influência negra na história do Brasil, pretende fazer uma parceria com o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para a realização de pesquisas envolvendo a descoberta.

“Estas gravuras são, por si só, um achado histórico. Cenas de África feitas por pessoas que foram sequestradas e escravizadas. Agora, nosso objetivo é preservar esta descoberta”, disse o presidente da entidade, Vanderlei Lourenço.

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