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Carlos Nobre: modelo econômico de floresta em pé tornaria Amazônia mais soberana e competitiva

Para cientista do IPCC, Amazônia ganharia mais com indústria biotecnológica do que com Zona Franca. E país perde respeito por descumprir metas de acordo do clima


Da Redação RBA 29 de Outubeo, 2019


"Se nós tivermos preocupação com as futuras gerações, temos que reduzir as emissões", afirmou o cientista no Roda Viva

São Paulo – O cientista Carlos Nobre, integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), disse nesta segunda-feira (28), em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, que o Brasil conquistou a posição de líder mundial em preservação do meio ambiente, por conta da redução no desmatamento da Amazônia, entre 2005 e 2014. Segundo ele, após em 2015, e sobretudo em 2019, a devastação teve um avanço explosivo. Com isso, o Brasil corre o risco de perder o respeito internacional – um prestígio que havia colaborado, inclusive, para o sucesso do agronegócio no exterior.

“Vamos perder esse prestígio que nos vale muito como imagem e como benefício econômico? Essa pergunta ainda não tem resposta. Seria péssimo para o futuro do país, a curto e longo prazo, se perdêssemos esse protagonismo”, afirma. Com as reduções no desmatamento alcançados naquele período, Nobre disse que o Brasil foi o país em desenvolvimento que mais reduziu suas emissões de gases de efeito estufa que contribuem para o agravamento do aquecimento global. Nobre disse que o atual governo não deve alcançar as metas para 2020, estabelecidas uma década antes.

Entrevista histórica

Em entrevista à Revista do Brasil, em 2013, Carlos Nobre deu uma aula sobre a relação entre mudanças climáticas, aquecimento global e modelos econômicos que têm conduzido o mundo ao aumento da desigualdade.
• Parte 1 – “O mundo não tem escolha: precisa se impor metas muito mais ambiciosas contra o aquecimento, com o cuidado solidário de não agravar desigualdades entre ricos e pobres”
• Parte 2 – “Países desenvolvidos têm de criar fundos e apoiar os em desenvolvimento na mudança de suas matrizes de emissão sem impactar na possibilidade deles de reduzir a pobreza””
• Parte 3 – “Indivíduo sustentável vive com o que precisa, nada mais. O modelo das sociedades ricas levou à crise ambiental. E um novo modelo depende do indivíduo. A expectativa dele é que transforma a sociedade”

Sem esse compromisso, o mundo fica se aproxima do “ponto de não retorno”, quando as mudanças ambientais causadas pela elevação da temperatura média global não seriam mais reversíveis, e o planeta passaria a viver, cada vez mais, períodos extremos, com chuvas e secas excessivas.

“Se tivermos preocupação com as futuras gerações, se respondermos a Greta, que nos cobra uma solução, temos de reduzir as emissões”, afirma, fazendo referência à jovem ativista sueca Greta Thunberg.

Segundo Carlos Nobre, nos últimos 200 anos a temperatura da Terra já se elevou em 1,1 grau Celsius. Se chegar a três graus de elevação, Groenlândia e da Antártica derreteriam, elevando o nível do mar em até 12 metros. “As cidades costeiras praticamente deixarão de existir.”

Teorias de conspiração

O cientista, que começou sua carreira científica no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em 1975, diz que nunca viu ameaça de invasão estrangeira da região. A suposta ameaça à soberania brasileira na região é evocada por Bolsonaro e também por militares, que acusam outros países e ONGs internacionais.

A saída, segundo Nobre, é o desenvolvimento de um modelo econômico, “com a floresta em pé”, de exploração sustentável das riquezas naturais da floresta.

“Será que se nós desenvolvermos uma economia em que a floresta tem um enorme valor econômico, será que isso não assegura muito mais a nossa soberania? Soberania hoje, no século 21, tem muito a ver com o domínio das tecnologias”, afirma Nobre. Para ele, a instalação de um polo industrial de biotecnologia na região tornaria o país mais soberano em relação à proteção e ao aproveitamento de sua biodiversidade e mais competitivo do que com as fábricas de motocicletas, eletrodomésticos e eletrônicos na Zona Franca.

Nobre também afirmou que os impactos do vazamento de petróleo no litoral do Nordeste já atingem a economia local, com a suspensão da atividade pesqueira, bem como a saúde dessas populações costeiras. “Em todas aquelas praias tradicionais de pesca artesanal e das marisqueiras tem de ser suspensa totalmente a pesca – com pagamento de auxílio-defeso às famílias afetadas –, porque as substâncias deste petróleo contaminam a um nível terrível, tanto os alimentos, como o mangue, a vida no mangue, a vida marinha. Mas também a saúde daquelas pessoas.”

Atuante no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Nobre foi um dos autores do Quarto Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, que rendeu à equipe envolvida, o Prêmio Nobel da Paz em 2007

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