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A dupla crise - da narrativa histórica e descrição geográfica - contra o dragão do neoliberalismo

Do IHU, 26 Outubro 2019
Por Bruno Cava Rodrigues


"O neoliberalismo, em vez de visão problemática do todo que se exprime localmente, virou uma teoria geral de enquadramento do local. Em vez de história estrutural, ou seja, história-problema, virou estrutura da história, quer dizer, estagnação. Vivemos uma crise similar àquela da velha historiografia, de narração e de descrição. Entre o determinismo das estruturas e o possibilismo das narrativas, o pensamento não acontece", escreve Bruno Cava Rodrigues, em post publicado em sua página do Facebook, 23-10-2019.

Eis o texto.

Quem hoje tentar compreender os vários focos de protesto pelo mundo vai enfrentar dificuldades extremas. Chega a ser um paradoxo, a dificuldade de se acercar do que acontece no mundo, com tantas redes sociais e vazamentos, quando a informação existe em profusão, praticamente instantânea e à mão. Isto não se deve, porém, à baixa qualidade da informação ou às fake news, mas ao processamento. E nem tanto à falta de processamento das informações, mas, talvez, ao exagero.

Uma palavra que tem servido de clivagem na leitura dos protestos é neoliberalismo. Sua simples evocação tende a arrastar o regime de discurso para um determinado campo ideológico. Ela realmente traz uma grande comodidade, pois permite uma primeira abordagem simpática ou antipática.

Quando se diz que os protestos no Equador ou no Chile seriam contra o neoliberalismo, imediatamente se entende o que se quer dizer: populações sofrendo os efeitos de políticas de austeridade se revoltam para não perder garantias, para manter o caráter público dos serviços. A economia chilena não vinha sendo pintada como exemplo regional de sucesso da flexibilização dos direitos? E a equatoriana não seria dolarizada?
Não há muito o que o pensamento fazer aí, a grade de enquadramento dos fatos está dada desde o princípio. Já os protestos em Hong Kong ou na Venezuela não poderiam ser contra o neoliberalismo, uma vez que o chavismo e a China seriam, senão alternativas, pelo menos modelos mitigados em relação ao neoliberalismo tout court. E por aí vai.

O lugar comum do neoliberalismo permite assentar a sutil confiança do 'portrasismo'. Confia-se que, por trás da multidão chilena e equatoriana, haveria a resistência ao neoliberalismo. Multidões valentes, conscientes do interesse de classe. Ao passo que, em Hong Kong e Caracas, se é levado a desconfiar que, por trás das multidões, é o próprio neoliberalismo que age. Multidões ingênuas, lutando contra o próprio interesse.

É bastante curioso o percurso que a teorização centrada no neoliberalismo fez até chegar à miséria atual. Poderíamos anotar um marco importante no curso de Michel Foucault, ministrado em 1979 em Paris, e publicado somente bem mais tarde, em 2004. Intitulado "O nascimento da biopolítica", a análise do neoliberalismo ali é conduzida com um fino equilíbrio entre abstrato e concreto. Se a análise é estrutural, o é para destacar o recheio de tensões que a estrutura suporta. Em Foucault, não se vai achar nenhum 'libelo contra o neoliberalismo', nenhum esquema fácil para inserir-se, nem sequer mesmo um flerte à preguiça de ser a favor ou contra. Ele jamais foi perdoado quando a publicação tardia do curso destoou do consenso esquerdista construído nos anos 1990.

Que terrível inversão desde o Foucault dos anos 70, com a literatura que vai dos jogos de montar de David Harvey à inchada massa de livros anti-neoliberais que não mereceriam dois parágrafos de resenha. Do curso foucaultiano que instala a inquietação, que nos arremessa no desafio das ambiguidades, dos atravessamentos, das estratégias ardilosas, para a atual condição, em que neoliberalismo implica a evocação de clareza de intenções, da certeza moral, e do entendimento estruturante. O essencial já está dado, o resto é consequência. Reduzido à rotina mental que conduz a um particular estado de relaxamento do espírito. Em vez do estupor diante das erupções contemporâneas de antagonismo, a consciência tranquila de estar do lado certo, a distensão do binarismo. A dispensa de interrogar o mundo, a preguiça de pensar da bela alma travestida de resistência autoconsciente.

Mas devemos ir mais longe, para anotar também como a análise do neoliberalismo é tributária de uma longa tradição que se inicia nos anos 1930 na França. Nessa década, um grupo de historiadores europeus, aglutinados ao redor da revista Annales (Lucien Febvre, Marc Bloch, Fernand Braudel...), promoveu uma revolução no modo de fazer história. Rechaçando o imperialismo da história política, aquela que se concentra nos grandes líderes, partidos e protagonistas, a busca de uma compreensão global dos fenômenos históricos, em suas várias dimensões e temporalidades. Isto é, não mais a narrativa cheia de bandeiras e trombetas próprias da Política, mas um campo complexo de estruturas e tensões conglobando geografia, economia, sociedade e cultura.

Em certa medida, estamos numa situação parecida àquela que Braudel diagnosticava como uma dupla crise articulada. Crise da narração na história; crise da descrição na geografia. Entendia-se que à geografia cabia descrever o terreno, preparar o palco para, num segundo momento, a entrada dos personagens e dramas, que caberia à história narrar. E aí haveria a corrente determinista que concedia primazia ao meio para os acontecimentos históricos, e a corrente possibilista que, dando preferência à narrativa histórica, exacerbava as liberdades e vontades dos protagonistas.

Braudel contestava ambos os vícios que, no fundo, são simétricos. Pois o fatalismo do meio concede ao agente a livre escolha entre as forças existentes, que nada mais é do que um tipo de voluntarismo. Para romper a armadilha, Braudel propõe um novo método que vai narrar o espaço e descrever o tempo, uma dupla inversão que enfrenta tanto a frivolidade das conjunturas quanto o determinismo estrutural das macroforças. Nasce assim a geografia histórica.

É interessante como Euclides da Cunha, várias décadas antes, já tem um vislumbre da geo-história braudeliana. "Os Sertões" se divide em três partes: a terra, o homem, a luta. Uma estrutura tradicional que vai da geografia à história. A força da literatura euclidiana reside exatamente na capacidade de entretecer linhas temporais de longa e curta duração, a ponto de atingir velocidade de escape dos determinismos e voluntarismos. A história do sertão se abre como problema e a mestiçagem que produz o sertanejo é perpassada por linhas de profunda polivalência. Algo que um cineasta como Glauber resgata nos seus filmes ambientados no Nordeste, que eram tão intrigantes e provocativos que seria inimaginável alguém da época sair comemorando ao término das exibições.

A teorização sobre o neoliberalismo remonta a essa tradição da geo-história, que problematiza os grandes ciclos do meio, processos históricos em várias camadas, que se distendem por séculos, subterrâneos e superficiais ao mesmo tempo. É mobilizado por esse método que Foucault vai falar em arqueologia dos saberes, ou Deleuze-Guattari em geofilosofia ou numa 'geologia da moral'.

Mas está tudo ao contrário. O neoliberalismo, em vez de visão problemática do todo que se exprime localmente, virou uma teoria geral de enquadramento do local. Em vez de história estrutural, ou seja, história-problema, virou estrutura da história, quer dizer, estagnação. Vivemos uma crise similar àquela da velha historiografia, de narração e de descrição. Entre o determinismo das estruturas e o possibilismo das narrativas, o pensamento não acontece. Resta a tagarelice com ares de inteligência.

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