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Verde, amarelo e preto

Do Boletim Ponto, 07 de Setembro de 2019 

Bolsonaro pediu para apoiadores vestirem verde e amarelo; estudantes vestirão preto contra governo / Tomaz Silva/Agência Brasil

Enquanto sufoca pesquisa, Bolsonaro mantém a política de implodir universidades

1. Que vivan los estudiantes

Categoria que até agora demonstrou mais capacidade de mobilização contra o governo, os estudantes voltam às ruas neste sábado, 7 de Setembro, para protestar contra o corte de recursos para a educação e a tentativa de privatização das universidades e institutos federais. E a medição de forças vai ser cromática. No melhor estilo Collor, Bolsonaro conclamou seus apoiadores a irem para os atos do Dia da Independência vestindo verde e amarelo - mais ou menos como pedir aos palmeirenses que vistam verde na estreia de Mano Menezes. Como resposta, nas redes sociais espalhou-se a ideia de vestir preto contra o governo. Não faltam motivos.

Na segunda (2), a Capes anunciou o corte de mais 5.613 bolsas de mestrado e doutorado. Foi o terceiro anúncio de corte em bolsas de pesquisa em 2019: a gestão Bolsonaro já extinguiu 11.811 bolsas da Capes. Enquanto sufoca a pesquisa, Bolsonaro mantém a política de implodir as universidades. Já são seis reitores nomeados em universidades desrespeitando a vontade da maioria da comunidade acadêmica. O mais recente é o reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), que já chegou a ser pró-reitor em uma gestão considerada de esquerda na oportunidade, mas abraçou o terraplanismo ideológico de olho na oportunidade. Os estudantes da UFFS ocupam a reitoria há uma semana, movimento que vem se repetindo em outras instituições. Na Federal do Ceará, os estudantes mantêm os protestos contra a nomeação do reitor Cândido Albuquerque, nomeado por Bolsonaro apesar de ter sido o terceiro colocado na eleição interna, com apenas 610 votos, contra 7.772 do primeiro. A reitoria da UFG também foi ocupada pelo movimento estudantil, contra o aperto financeiro imposto pelo MEC. Na UFSC, os estudantes vêm protagonizando uma grande mobilização, que culminou com a reprovação, por parte do Conselho Universitário, da adesão ao programa Future-se. Centros acadêmicos de pelo menos 15 cursos já anunciaram greve.

Em tempo: enquanto enfrenta a oposição das universidades ao programa Future-se, o MEC mantém o corte no repasse de verbas à maioria das instituições e chega a falar que pretende aprovar o programa por meio de Medida Provisória.

2. Piso sem fundo

Duas pesquisas divulgadas na semana comprovam a queda acelerada da popularidade de Bolsonaro e colocam em dúvida o tamanho do bolsonarismo raiz. Na segunda (2), o Datafolha mostrou que a reprovação de Bolsonaro pulou de 33% para 38%, na comparação com julho, e a aprovação caiu de 33% para 29%. Ele vai muito mal no Nordeste e também entre os mais pobres, mas na região Sul a reprovação teve aumento de 25% para 31% e a aprovação entre os ricos caiu de 52% para 37%. Foi a primeira vez que o Datafolha mostrou piora nos índices de Bolsonaro entre os eleitores mais escolarizados. Outro dado interessante diz respeito ao “contingente de arrependidos”, como apontado pelos diretores do Datafolha: um em cada quatro dos que votaram em Bolsonaro não repetiria a opção hoje. O instituto ainda apontou uma vitória de Haddad sobre Bolsonaro se as eleições fossem hoje. Porém, além de 2022 estar muito distante, houve um problema de metodologia: o Datafolha fez uma série de questionamentos sobre Bolsonaro antes de perguntar sobre a intenção de voto, o que pode influenciar a resposta. De qualquer forma, outra pesquisa divulgada na segunda (2) confirma a tendência de queda na popularidade: na XP/Ipespe, 41% dos entrevistados consideram o governo ruim ou péssimo, enquanto 30% o consideram bom ou ótimo e 37% o avaliam como regular. Em fevereiro, a curva estava invertida, com 40% de ótimo/bom e apenas 17% de ruim/péssimo.

Uma das questões suscitadas pelas pesquisas é até onde vai o piso do apoio a Bolsonaro, que durante algum tempo não baixou de 30%. Os diretores do Datafolha, por exemplo, cruzaram três dados (voto declarado no segundo turno de 2018, avaliação da atual administração e confiança nas palavras do presidente) para concluir que o núcleo duro do bolsonarismo é de 12% da população brasileira, com forte presença de homens, brancos e mais velhos. Mas Vinicius Mota, na Folha, chama a atenção que este núcleo é formado por “batalhadores cuja família ganha de R$ 2 mil a R$ 5 mil por mês”. Na Carta Capital, antes do novo Datafolha, Marcos Coimbra comentou os resultados do seu Vox Populi e do Ibope e chamou atenção para a velocidade da deterioração da imagem de Bolsonaro, questionando a tese de que o bolsonarismo teria um piso em torno dos 30%. “Muito provavelmente, até o fim deste ano o desgaste será maior”, avalia.

3. 2022 é logo ali

As declarações recentes contra João Dória Jr. e fritando Sérgio Moro em praça pública mostram que Bolsonaro nem terminou o primeiro ano de mandato e só pensa em reeleição, elegendo o governador de São Paulo e seu próprio ministro como principais adversários no momento. Para Bruno Boghossian, as pesquisas mostram que Bolsonaro consolidou o apoio da extrema-direita e não vai deixar ninguém ocupar este território. Quem ocupava parte das faixas de renda e das áreas do país capturadas por Bolsonaro era o PSDB. Como candidatos desse campo político não terão abertura para reconquistar espaço pela esquerda, então tendem a reagir pela direita.

O lavajatismo, neste caso, é o inimigo interno. A turma da República de Curitiba age baseada na ideia de que a interpretação do operador judiciário está acima da lei e acalenta um projeto de chegar ao Estado e alterar sua estrutura, como as mensagens da Vaza Jato comprovam. Aderir ao Bolsonarismo foi o caminho mais rápido para a turma de Moro e Deltan. Entretanto, depois alimentarem o bolsonarismo e se alimentarem dele, a lua de mel acabou e o clã Bolsonaro está empenhado em sufocar aliados que disputem espaço com ele. A indicação do subprocurador-geral Augusto Aras para a PGR é emblemática neste sentido: Bolsonaro ignorou a lista tríplice, até então respeitada apenas pelo PT, sequer consultou Moro e escolheu um engavetador-geral para chamar de seu. A indicação desagradou até uma ala do bolsonarismo que vê em Aras laços perigosos com a esquerda. Já os procuradores, que passaram os últimos anos semeando vento, agora reclamam da tempestade.

Um efeito colateral da indicação de Aras talvez seja o pretexto que faltava para Sérgio Moro deixar o governo. Segundo o Datafolha, sua reputação ainda permanece intacta perante o eleitor brasileiro. Na Folha, Monica Bergamo revelou que a cúpula da PF está convencida de que Bolsonaro age contra Moro ao interferir na corporação sem consultar o ministro, que estaria sendo “humilhado pelo presidente”. Aliás, o motivo da fúria de Bolsonaro contra a PF é curioso: haveria uma investigação em curso sobre seu amigo Hélio Negão, deputado federal que o acompanha em todas as atividades, no que poderia ser resultado de intrigas entre agentes e delegados da PF. Por outro lado, o Estadão apurou que a postura de Moro em abandonar uma entrevista sem comentar a possível demissão do diretor-geral, Maurício Valeixo, foi interpretada como capitulação a Bolsonaro. O mais cotado para o cargo é o atual secretário de segurança do DF, o delegado federal Anderson Gustavo Torres, indicação com dedo de Eduardo Bolsonaro. Torres foi investigado por denúncias de tortura em 2007.

4. Encontros e desencontros

Integrantes de 16 partidos e representantes da sociedade civil participaram do evento Direitos Já, na segunda (2), em São Paulo. Estiveram no encontro representantes de PSDB, PT, PCdoB, PDT, DEM, PSB, PR, Rede, Podemos, PSOL, PROS, Novo, PPS, PSD, Cidadania e PV. No entanto, Fernando Haddad não compareceu. No dia seguinte, as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo promoveram um seminário em defesa da soberania nacional, em especial diante da possibilidade de privatização da Petrobras. O evento marcou também o lançamento da Frente Popular e Parlamentar em Defesa da Soberania Nacional. Os partidos, parlamentares, movimentos populares, igrejas, ONG e outras instituições que compõem a nova frente também anunciaram um calendário de atos pelo Brasil. Estão previstas manifestações em defesa dos Correios, da Petrobras, da Amazônia, dos bancos públicos, da reestatização da Vale, da Base de Alcântara e da Eletrobras

5. Problemas lá fora

Se a oposição interna ainda bate cabeça, Bolsonaro enfrentará alguns problemas no exterior. Na próxima terça (10), por exemplo, a OAB e o Instituto Vladimir Herzog denunciarão o governo brasileiro nas Nações Unidas, por retrocessos à democracia e por fazer apologia à ditadura. Além de uma intervenção diante do Conselho de Direitos Humano,as entidades realizarão um evento paralelo na sede da ONU para denunciar o desmonte das estruturas de Justiça, Memória e Verdade no país.

Por enquanto, o governo parece mais preocupado com o que vai acontecer no Vaticano em outubro: lideranças católicas do mundo todo se reunirão na 16ª assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos, que discutirá por 23 dias o tema “Amazônia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. No Sínodo, os bispos discutem com o Papa como a Igreja Católica pode intervir em determinados conflitos. Pelo menos desde fevereiro a Abin e o Exército monitoram a organização dessa reunião, encarada pelo governo como uma forma de empurrar a “agenda da esquerda” e “ameaçar a soberania do Brasil sobre a Amazônia”.

6. Caso Marielle

A procuradora-geral da República Raquel Dodge pediu que o STJ apure "indícios de autoria intelectual" no assassinato de Marielle Franco por parte de Domingos Brazão, ex-deputado e conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Rio. A decisão do STJ que concedeu à PGR acesso aos autos pode resultar na federalização do inquérito. Brazão é suspeito não só de ordenar o atentado, como também de usar a estrutura do seu gabinete para obstruir a investigação sobre o caso. Desde março, quando a morte de Marielle completou um ano, surgem notícias sobre infiltração de milicianos na delegacia que investigava o caso. A suspeita de Dodge é que o conselheiro tenha utilizado o policial federal aposentado Gilberto Ribeiro da Costa, que era funcionário de seu gabinete no TCE-RJ, para atrapalhar as investigações, plantando uma testemunha falsa. Paralelamente, segundo Lauro Jardim, a investigação da Polícia que apura as falhas da polícia civil no caso Marielle seria o verdadeiro motivo para a exoneração de Ricardo Saadi da direção da PF carioca.

7. Voos de galinha

Na falta de investimento público para estimular a economia pelo menos no médio prazo, o governo aposta em medidas pontuais e inusitadas para movimentar o mercado interno. A mais recente delas é a tal Semana do Brasil, iniciada nesta sexta (6), com descontos para aquecer as vendas e amenizar o mau ano do varejo. A Folha também apresenta planos do governo para liberar recursos para o capital de giro das empresas e criar ações secundárias para qualificar trabalhadores e facilitar a pejotização. Fato é que o governo não consegue atrair investimentos, e entre os motivos estão a estagnação do PIB e a retórica virulenta do presidente, e a polêmica da semana girou em torno da revisão do teto de gastos, mecanismo incluído na Constituição por Temer, definindo que o gasto máximo que o governo pode ter seja calculado com base no orçamento do ano anterior, corrigido pela inflação. “O Orçamento apresentado para 2020 parece ter acendido o sinal de alerta entre membros do governo e do Congresso sobre a extensão do drama que ameaça o País. Afinal, além de reduzir os recursos para investimentos na construção e reparo de infraestrutura para o menor patamar da série histórica, a proposta corta dos programas sociais e pode levar à total paralisação de ministérios”, explica a economista Laura Carvalho.

Ponto final: nossas dicas de leitura

Ainda sobre as pesquisas, Andrei Roman do Atlas Político chama a atenção para dois fatores: primeiro, o centro está abandonando o Bolsonaro, mas a base bolsonarista é ainda bastante coesa, de forma que a centro-direita não consegue expandir, como provam os índices negativos de João Dória (58,3% de rejeição) e Rodrigo Maia (66%). Segundo, a queda de popularidade de Bolsonaro não resulta em avanço de nenhuma figura da oposição à esquerda. Os níveis de aprovação e desaprovação de Lula, Haddad e Ciro estão estagnados, analisa Roman.

Na análise da professora Celi Pinto, da UFRGS, “a negação de Bolsonaro não aparece em projetos populares de centro-esquerda ou de esquerda, mas em uma direita pseudo moderada, ou assim autodefinida, que chegaria como salvação, para afastar, finalmente, os extremismos: da direita e da esquerda”. Daí, os movimentos novamente de setores da direita em ressuscitar a candidatura Luciano Huck no vácuo da estagnação de Dória e Maia. Já a esquerda, continua apostando no pensamento mágico de que se não fizer nada, naturalmente o governo cairá no seu colo.

O professor de Economia da UFBA Luiz Filgueiras faz uma análise sobre o Future-se do ponto de vista da história econômica brasileira. Para o pesquisador, com o programa o governo federal tenta impor uma solução para um problema que ele mesmo criou, o da falta de recursos. O Future-se não irá alavancar de forma significativa a pesquisa e a inovação para além do que as instituições federais já fazem, inclusive em parceria com a iniciativa privada, e um dos motivos é a natureza da burguesia brasileira. “O Future-se tem dois objetivos fundamentais: o primeiro é criar condições institucionais, impostas de fora para dentro (camuflada em “livre escolha”), para viabilizar um processo de “acumulação por espoliação” do orçamento e do patrimônio público, bem como do conhecimento produzido pelas IFES, através da criação de fundos de investimento que farão a privatização e securitização dessa riqueza e sua posterior transferência para ser movimentada no mercado financeiro. O segundo objetivo é transformar estruturalmente o sistema de Universidades e Institutos Federais, desarticulando-o e quebrando a sua unidade político-operacional”, escreve Filgueiras.

Sobre o caso do jovem negro que foi despido, amordaçado e chicoteado por seguranças de um supermercado em São Paulo, por ter roubado um chocolate, Leonardo Sakamoto escreve: “Temos lidado com o passado como se ele tivesse automaticamente feito as pazes com o presente. Não, não fez. E o impacto de não entendermos, refletirmos, discutirmos e resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia a dia com o país aterrorizando, reprimindo e torturando parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica)”.

Reportagem da revista National Geographic relata os bastidores das operações do Ibama para o combate à extração de madeira ilegal na Amazônia. Em um dos trechos, o repórter relata sinais bem claros de que o próprio ministro Ricardo Salles teria alertado madeireiros sobre a iminência de uma operação.

Para entender como é cuidar da saúde no bairro onde se morre mais jovem em São Paulo, com a pior taxa de emprego formal e onde mais de 80% dos moradores dependem do SUS, o The Intercept acompanhou por 25 dias a rotina de uma mãe solteira com três filhos.

A crônica semanal de Luis Fernando Verissimo nos jornais está imperdível: “Temos que esquecer nossas diferenças e nos concentrarmos nesta verdade nua e crua: que isto não é um país, isto é uma zona de guerra. E eles atiraram primeiro”.

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Ponto é editada por Daniel Cassol e Miguel Enrique Stédile.

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