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UFSC rejeita o Future-se

Foto: Jair Quint
Do IELA, 4 de Setembro de 2019
Por Elaine Tavares

A Universidade Federal de Santa Catarina viveu dias de muita mobilização por parte de estudantes, técnico-administrativos e professores. E tudo isso por conta dos cortes de recursos na educação e da proposta do governo federal de entregar as universidades para a iniciativa privada. Primeiro foram as discussões por categoria, depois as assembleias nos Centros, a reuniões dos colegiados, as articulações das mais diversas organizações que atuam no campo estudantil. Uma movimentação que havia muito tempo não era percebida pelo campus. As mobilizações também se espraiaram para os demais campi da UFSC no interior do estado e tudo isso culminou numa grande assembleia geral universitária, na segunda-feira, dia 2.

A AGU foi histórica. Milhares de pessoas lotaram as dependências do Centro de Eventos e outras tantas ficaram no lado de fora, acompanhando pelo telão. O colorido das bandeiras, a energia estudantil, a força dos trabalhadores, tudo junto formando o mosaico do protesto e da indignação. O ponto central do debate foi o projeto Future-se, proposto pelo governo. Essa proposta joga a administração das universidades para empresas privadas, diminui orçamento e obriga os Centros de Ensino a atuarem como captadores de recursos. Ora, ninguém está na universidade para gerir dinheiro. A universidade existe para formar gente, para criar conhecimento, desenvolver a ciência.

O anúncio feito pela reitoria da UFSC de que não haveria mais refeições no Restaurante Universitário a partir de outubro e que também não poderiam mais ser pagas as bolsas de estudos colocou gasolina na mobilização que já se esboçava em propostas de luta. Por isso, a assembleia foi massiva.

Por horas, os discursos se sucederam com a apresentação de motivos para que o projeto governamental fosse rejeitado. Jovens negros, estudantes empobrecidos, indígenas, sobreviventes da escola pública, cada um apontando a dura luta que empreendeu para conseguir chegar até a universidade. Uma escalada que não é fácil, uma vez que há que passar por inumeráveis barreiras até passar no vestibular. Além disso, outras tantas precisam ser superadas no cotidiano da permanência. Uma verdadeira batalha para garantir o que deveria ser um direito de todos. Ao final, a assembleia definiu que encaminharia ao Conselho Universitário uma proposta fechada: não ao future-se e, contra os cortes, pela suspensão do vestibular e pela construção de uma greve geral.

No dia 03, terça-feira, foi a vez do Conselho Universitário se reunir, de forma aberta e com a participação de toda a comunidade. De novo, estudantes, técnico-administrativos e professores lotaram o Garapuvu para acompanhar a decisão da instância máxima da universidade. Na abertura da reunião, o reitor Ubaldo Balthazar anunciou que a decisão de servir refeições no RU apenas para os alunos em situação de carência estava suspensa e que o RU seguiria atendendo toda a comunidade. Mas que quando acabasse o dinheiro, fechava para todos. Da mesma forma, as bolsas seguiriam sendo pagas até terminar os recursos. Terminando, a universidade fecha.

Depois, passou-se à discussão do projeto Future-se. Membros do Conselho, representantes dos Centros, foram passando suas posições, bem como as entidades e as representações estudantis. Repetiram-se as falas e os argumentos da assembleia geral. O projeto é ruim e deve ser rejeitado na íntegra. Assim, por maioria, a decisão foi exatamente essa: rejeitado. O Conselho também decidiu lançar uma moção na qual contesta os cortes e exige que o governo mantenha o que foi definido no orçamento. Reafirmou a posição da UFSC pela plena autonomia constitucional, de gestão financeira, administrativa e pedagógica, pelo respeito à democracia interna das IFEs, pela indissociabilidade do ensino, pesquisa e extensão, pelo financiamento do Sistema de Ensino Superior Público como dever do Estado, a garantia de Políticas estruturantes de apoio à permanência estudantil e a preservação das múltiplas vocações, da pluralidade acadêmica e da dimensão social das IFEs.

O Conselho não deliberou sobre suspensão do vestibular e a reitoria já havia lançado uma nota dizendo que o exame está garantido. Já na assembleia geral universitária esse ponto foi polêmico, pois há grupos que entendem que suspender o vestibular é fazer exatamente o que o governo quer, que é fechar a universidade. A juventude negra e os jovens empobrecidos não podem ficar sem mais essa chance, argumentaram. Esse é um debate que ainda vai render. Há ainda uma terceira proposta que é proposta histórica, defendida desde há tempos, que é do fim do vestibular, com a abertura das portas da universidade para quem quiser estudar. Os ataques à universidade vindo do governo abriram de novo essa oportunidade, de um avanço estrutural.

Sobre a greve geral ela foi um indicativo da assembleia geral universitária. Agora, cada categoria vai discutir no âmbito particular se encaminha ou não a proposta. Virão novas assembleias e discussões. A universidade se mexe como há anos não se via.

No oeste de Santa Catarina, além dos cortes a Universidade Federal da Fronteira Sul, que foi uma conquista de larga luta da comunidade, ainda enfrenta a intervenção do governo federal, que decidiu nomear para reitor um professor que perdeu fragorosamente as eleições na consulta feita. O nomeado ficou em terceiro lugar e nem disputou o segundo turno. Foi indicado por Bolsonaro porque foi apoiador de sua campanha nas eleições presidenciais. Não ficou nem vermelho e já aceitou o cargo. Mas, os estudantes, técnico-administrativos e professores não concordam com isso. Os estudantes ocuparam a reitoria e seguem lá, dizendo que não vão aceitar a intervenção.

Assim como na UFFS outras quatro universidade federais já estão com interventores. Alguns já assumiram e enfrentam os protestos e lutas. O governo federal mexeu num vespeiro. As universidades estão travando a batalha, interna e externamente. A chantagem feita, com o corte das verbas, para que as universidades passem a aderir ao Future-se não está dando certo. A recusa tem sido geral.
De qualquer forma o governo federal tem a máquina na mão e tem também a cornucópia das mentiras que se reproduzem como moscas pelas redes privadas como o uatizapi. Mentiras sobre os trabalhadores, mentiras sobre a universidade. E isso acirra o ódio de seus apoiadores contra a instituição.

Desgraçadamente, a universidade, ao contrário do que diz o governo, tem muito pouca inserção na sociedade e pouca preocupação com as grandes questões nacionais. Isso fragiliza um pouco o apoio externo que poderia vir. Há que construir essa ponte e isso não se faz no fragor da luta.

Então, a guerra aberta pelo governo contra as universidades se apresenta como um momento único para se repensar o que a universidade tem sido na relação com a nação. Até onde ela pode permanecer como é ou se é chegada a hora de uma mudança estrutural definitiva que faça dessa instituição um lugar de discussão dos problemas nacionais e elaboração de soluções para eles. Sem colonialismo mental, sem braços dados com o capital. Mas, verdadeiramente abraçada com as gentes em luta e suas demandas.

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