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Oscar Wilde é reeditado no Brasil – aproveite antes que censurem

Por PEDRO ALEXANDRE SANCHES
Da Carta Capital, 22 DE SETEMBRO DE 2019



Parte substancial da obra do autor britânico de ‘O Retrato de Dorian Gray’ volta às livrarias
Enquanto não é proibido pela novilíngua brasileira, o britânico Oscar Wilde (1854-1900) tem parte substancial de sua produção literária reeditada no País pela Nova Fronteira, na caixa Grandes Obras de Oscar Wilde, em três volumes. O primeiro deles acondiciona O Retrato de Dorian Gray, o único romance do escritor; no segundo, reúnem-se nove histórias de fadas; no terceiro, estão as peças teatrais Salomé, Um Marido Ideal e A Importância de Ser Prudente.

Atuante desde os anos 1870 como poeta, ensaísta, jornalista, contista e dramaturgo, o escritor nascido em Dublin conheceu o peso da censura moral de sua época ao publicar O Retrato de Dorian Gray, em 1890, inicialmente como uma história periódica na revista mensal Lippincott’s Monthly Magazine.

Num mesmo jantar, em 1889, o editor J.M. Stoddart convidou Wilde e Arthur Conan Doyle a escrever novelas para a revista. Doyle entregou O Signo dos Quatro, segundo volume da saga do detetive Sherlock Holmes. Wilde preparou a história filosófica do dândi que se mantém jovem e belo enquanto um retrato pintado pelo artista Basil Hallward envelhece em seu lugar. Que tristeza! Que tristeza! Eu ficarei velho, feio, horrível. Mas este retrato se conservará eternamente jovem. Nele, nunca serei mais idoso do que neste dia de junho… Se fosse o contrário! Se eu pudesse ser sempre moço, se o quadro envelhecesse!… Por isso, por este milagre eu daria tudo! Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a alma!, suplica Dorian Gray, atraindo para si a tormenta.



Ao receber os originais, Stoddart suprimiu 500 palavras do texto, sem conhecimento prévio do autor (a versão original, sem cortes, só seria publicada em 2011). As alusões à homossexualidade e ao homoerotismo foram removidas do texto, assim como qualquer referência às amantes femininas de Dorian Gray como “amantes”. Publicado na edição de julho de 1890, o texto fez com que a editora WH Smith retirasse todas as cópias da revista de suas livrarias em estações ferroviárias. Qualquer semelhança com o Brasil de 2019 é mera coincidência.

Processado por violar a moralidade britânica, autor morreu no exílio

À época, sugeriu-se que Wilde fosse processado por violar a moralidade britânica, e ele travou inflamado debate sobre o tema em correspondência com a imprensa. O artista teve de se dobrar à censura. Publicado em livro em 1890, O Retrato de Dorian Gray cresceu de 13 para 20 capítulos, mas permaneceram suavizadas as referências ao homoerotismo. Em troca do veto moral, Wilde reforçou o enfoque da luta de classes na narrativa, na figura de James Vane, irmão da jovem atriz que se suicida ao ser rejeitada por Dorian Gray.

Ao que se sabe, não houve vetos a outras passagens que traem muito do espírito daquela época (e/ou desse autor). Meu filho, mulher nunca é um gênio. As mulheres são um sexo decorativo. Nunca têm nada a dizer, mas falam que é um encanto, afirma a certa altura o lorde Henry Wotton, terceira ponta do triângulo masculino do livro.

O Retrato de Dorian Gray precipitou a vida de Oscar Wilde em muitos sentidos. Imediatamente antes dele, o autor havia se dedicado às histórias de fadas, reunidas no segundo volume de Grandes Obras. O Príncipe Feliz e Outras Histórias, de 1888, foi escrito para os filhos Cyril e Vyvyan, de seu casamento (em 1884) com Constance Lloyd, e incluía as fábulas amargas O Rouxinol e a Rosa, O Gigante Egoísta, O Amigo Dedicado e O Foguete Notável, todas presentes na caixa agora lançada. Em O Filho da Estrela, aparece outro personagem jovem, belo e cruel, parente distante de Dorian Gray. Nós o tratamos como você trata os outros que estão desamparados e não têm quem os socorra. Por que razão é tão cruel para com todos aqueles que precisam de piedade?, roga o lenhador, pai adotivo do menino, em outro flagrante das motivações de classe que incomodaram o pensamento do aristocrático Wilde.




Depois da controvérsia com Dorian Gray, o escritor apurou a dramaturgia iniciada em 1880 e escreveu Salomé (1891), ensaiada por Sarah Bernhardt, mas interrompida e considerada ilegal por pretender retratar personagens bíblicos no palco. Proibida em Londres, Salomé estrearia em Paris, em 1896. Certa leveza e o tom satírico predominam nas peças escritas após Salomé, Um Marido Ideal e A Importância de Ser Prudente, ambas de 1895. Na primeira, um político promissor é chantageado e tenta evitar que venham à tona detalhes obscuros de seu passado. A segunda retrata em tempo de comédia de erros a sociedade de aparências da Inglaterra vitoriana.

O hedonismo culpado de Dorian Gray abateu-se sobre a cabeça de Oscar Wilde a partir de 1895, quando, inicialmente, ele decidiu processar por difamação o pai de seu amante Alfred Douglas, que o havia classificado como “sodomita”. Autor sempre apaixonado por simetrias e paradoxos, Wilde viu o processo voltar-se pouco a pouco contra ele próprio. Preso, o acusador mandou contratar detetives para provar a homossexualidade do escritor.

Dorian Gray foi usado em julgamento, e Wilde terminou sentenciado a dois anos de prisão e trabalhos forçados pelo crime de “indecência”, um eufemismo para “sodomia”. Nesse contexto, Wilde cunhou a expressão “o amor que não ousa dizer seu nome”, que se poderia dizer anacrônica para os quase anos 2020, se gibis da Marvel com rapazes se beijando não fossem apreendidos na Bienal do Rio de Janeiro, em meio a um sem-número de casos semelhantes.

O escritor foi hostilizado pela população britânica durante o julgamento e numa transferência de presídio. Uma carta do esteta Wilde a Alfred Douglas tornou-se De Profundis, uma espécie de testamento literário do autor, publicado apenas parcialmente em 1905, cinco anos após sua morte. Libertado em 1897, Wilde foi para a França e nunca mais voltou ao Reino Unido. Morreu de meningite, em 1900, aos 46 anos. Hoje, apenas alguns terraplanistas negam a ele o título de um dos mais relevantes escritores de seu tempo, e de tempos futuros.


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