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Onde a Natureza está em mim? Uma pergunta chave frente à crise socioambiental

Do IHU, 5 Setembro 2019
Por El Diario, 03-09-2019. A tradução é do Cepat.


“Os enfoques pedagógicos críticos e reflexivos partem de que a educação não é ideologicamente neutra, por estar inevitavelmente situada em um determinado contexto cultural”, escreve Amparo Merino, da Universidade Pontifícia Comillas.

“Quando se trata de desenvolvimento da conexão com a Natureza como chave para enfrentar a crise socioambiental, reivindicamos a importância de enfatizar estas pedagogias. Possuem a virtude de nos tornar presente a realidade única e indissolúvel do “eu” e a ‘circunstância’. Isso, sim, prestando uma especial atenção à segunda parte do célebre aforismo orteguiano: 'eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo, não salvo a mim mesmo'”, avalia Merino.

Eis o artigo.

Relembre a última vez que talvez tenha tido a oportunidade de passear por uma mata solitária e se perder entre o som das folhas das árvores movidas pelo vento, de sentir que o tempo ficava suspenso, enquanto contemplava o horizonte de cima de uma montanha, ou de se submergir nas águas frescas e vivificantes de um rio cristalino. Por essas experiências, que papel você diria que a Natureza ocupa na definição de seu eu, de sua identidade? Se a ideia do eu e da Natureza fosse representada como círculos, estariam estes muito separados? Haveria uma intersecção mais ou menos ampla entre eles? Estariam unidos em um só círculo?

Assim como acontece com outras identidades como gênero, etnia, lugar de origem e a ideologia política, a intensidade de nossa conexão com a Natureza também influencia na maneira como modelamos nossa identidade, ou seja, na forma como entendemos e construímos o conceito de nós mesmos. A ideia do “eu ecológico” ou ecoself foi introduzida para conceitualizar essa interconexão pelo filósofo Arne Naess, impulsionador do movimento da ecologia profunda. O termo faz referência à consciência de um eu maior que nosso estreito ego, que se expande para incluir todas as outras formas de vida e a Natureza como um todo.

Para Naess, a experiência dessa identidade ampliada dissolve a fronteira entre o “eu” e o “outro”. Deste modo, favorece de maneira natural e intuitiva um comportamento responsável, tornando desnecessário o altruísmo no fundo: “se você e eu (em sentido amplo) inclui a outro ser, você não precisa de nenhuma exortação moral para demonstrar cuidado. Certamente, você se preocupa com você mesmo, sem sentir qualquer pressão moral para fazer isso” [1].

Desse modo, esse eu interconectado teria potencialmente consequências cognitivas (percepção ampliada de semelhança de si mesmo com outras formas de vida), emocionais (ativação de sentimentos de empatia, compaixão e comunhão com outros seres intensificadas pelo descentramento de si mesmo) e motivacionais (inclinação a comportamentos que favorecem a harmonia na interdependência com o contexto).

Na perspectiva ética, estas consequências estariam por trás do desenvolvimento de uma ética da Terra, como a que defendia Aldo Leopold: se qualquer ética se baseia em uma premissa básica de interdependência com a comunidade da qual o indivíduo é parte, a ética da Terra simplesmente amplia as fronteiras dessa comunidade para incluir o solo, a água, as plantas, a atmosfera, os animais... A Terra em seu conjunto.

Em complementaridade à interpretação de nossa conexão com a Natureza como construção de nossa identidade, está a explicação biológica: a hipótese da biofilia, termo introduzido por Erich Fromm como a atração a tudo o que está vivo, desenvolvido pelo sociobiólogo Edward Wilson como a filiação emocional inata dos seres humanos a outros organismos vivos e à Natureza em seu conjunto. Wilson argumenta que essa conexão está enraizada em nossa biologia, e uma prova disso seria esse desejo tão comumente compartilhado de admirar e desfrutar espaços naturais.

Se em nossa evolução como espécie nos constituímos na Natureza e em nossas interações com ela - com um cérebro formado para extrair, processar e avaliar informação do ambiente natural -, deveríamos nos considerar Natureza mesma, junto com o restante de formas de vida.

No entanto, os desenvolvimentos tecnológicos ocorridos fundamentalmente a partir da Revolução Industrial modificaram profundamente a relação da maioria da população do planeta com seu ambiente natural, criando uma lacuna crescente entre a ideia de ser humano e de Natureza. Nossa consciência desconectada se viu reforçada por algumas estruturas dominantes de produção e consumo definidas em torno de uma lógica de crescimento material infinito e acumulação desigual de riqueza. Estruturas que precisam de seres humanos redefinidos como homo oeconomicus, ou seja, motivados a perseguir exclusivamente o interesse próprio e a maximização da utilidade individual, ao mesmo tempo que cegos às consequências coletivas da lógica individualista e de curto prazo.

As correspondentes crises socioambientais que derivam disso requerem, portanto, uma transformação de nossa consciência, alinhada a uma forma de consciência ampliada, conectada profundamente conosco, com os outros (contemporâneos e futuros, humanos e não humanos), e com a Natureza como um todo. Tal transformação vai muito além (sem as excluir) da busca de soluções por meio de certos tipos de comportamentos, regras de governança, esquemas de medição, soluções técnicas ou formas organizativas. Supõe uma profunda revisão da própria noção do eu.

Em consequência, fundamentalmente no campo da psicologia ambiental foram realizadas numerosas pesquisas que mostram a relação positiva entre a intensidade de nossa identificação com a Natureza e o desenvolvimento de comportamentos pró-ambientais e pró-sociais. Um aspecto essencial destes estudos é a consideração dessa interconexão com a Natureza como um traço que varia entre indivíduos e que pode se potencializar e modelar. Por esta razão, o tema também despertou um crescente interesse no âmbito da educação. Em particular, a partir da preocupação de superar o foco na aquisição de conhecimentos potencialmente úteis para enfrentar as crises socioambientais, busca-se entender o papel da educação no desenvolvimento de vínculos emocionais com a Natureza, incluído o sentimento de unidade frente ao de divisão.

Uma das vias que provou ser eficaz para potencializar essa sensação de interconexão é o contato com ambientes naturais, tanto direto como indireto (por exemplo, através de documentários ou fotografias). O escritor e jornalista Richard Louv publicou um influente trabalho com o eloquente título “A última criança nas matas: salvando nossas crianças do transtorno por déficit de Natureza”. Nele, como parte fundamental da educação ambiental, sugere a experiência direta da mata como uma forma eficaz de (re)conectar as crianças com uma Natureza da qual se distanciaram gravemente.

A particular afinidade infantil com os ambientes naturais se viu contaminada pelos atuais estilos de vida urbanos e tecnificados, que diminuem nossas possibilidades de manter um contato adequado com o mundo natural. Esta situação, não só diminui os benefícios para a saúde física e emocional que esse contato fornece, como também favorece comportamentos potencialmente daninhos ao ambiente natural e, além disso, supõe entrar em um círculo de desafeto e de ausência de identificação.

Tal situação é frequentemente evocada nas pesquisas que buscam examinar os benefícios de se desenvolver a conexão com a Natureza por meio da exposição à mesma, especificamente em ambientes educacionais. No entanto, cabe alertar aqui a respeito do risco de confundir os sintomas de nosso distanciamento emocional dos espaços naturais (por exemplo, a hiperurbanização) com as raízes do problema. Indagar nas raízes requer incluir análises culturais, históricas, políticas e econômicas, para buscar causas explicativas mais profundas e estruturais.

Portanto, mais que definir o problema como uma queda moderna do ser humano de uma natureza prístina e selvagem a um ambiente artificializado, convém entendê-lo como uma longa e progressiva história de distanciamento psicológico de nós mesmos como Natureza, propiciado por um determinado contexto cultural, econômico e político. Um contexto que coloca a responsabilidade dos problemas ambientais e as ações correspondentes sobre os ombros dos indivíduos, acima das causas estruturais, como a que supõe um sistema econômico incapaz de ver os inevitáveis limites planetários e as desigualdades que gera.

Como consequência, mesmo que se tenha demonstrado que a exposição a ambientes naturais pouco impactados pelo ser humano e o contato direto com eles nutre nosso sentimento de ser nós mesmos Natureza, é preciso que os enfoques educacionais centrados em aumentar esta exposição não contribuam para tirar o protagonismo de outras pedagogias profundamente necessárias: aquelas que se focam nas raízes últimas da desconexão.

Neste sentido, os enfoques pedagógicos críticos e reflexivos partem de que a educação não é ideologicamente neutra, por estar inevitavelmente situada em um determinado contexto cultural. Defendem que, independentemente da etapa educacional, professores e alunos deveríamos nos envolver em uma educação libertadora que integre teoria, reflexão e ação para identificar as injustiças e trabalhar para as correspondentes mudanças sociais. Paulo Freire, um dos pedagogos fundadores deste movimento, destacava que nos momentos de transição entre duas épocas aumentam as contradições entre as maneiras de ser, de entender, de valorizar e de se comportar próprias de ontem e aquelas que anunciam o futuro. Daí a especial necessidade de cultivar um espírito crítico e flexível.

Enfim, quando se trata de desenvolvimento da conexão com a Natureza como chave para enfrentar a crise socioambiental, reivindicamos a importância de enfatizar estas pedagogias. Possuem a virtude de nos tornar presente a realidade única e indissolúvel do “eu” e a “circunstância”. Isso, sim, prestando uma especial atenção à segunda parte do célebre aforismo orteguiano: “eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo, não salvo a mim mesmo”.
Nota

1.Traduzido do original em inglês: Naess, A. (1988). Self-realization: an ecological approach. En: G. Sessions (Ed.), Deep Ecology for the Twenty-First Century, Boston and London (Shambhala) 1995, pp. 225-239.

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