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O 11 de setembro latino-americano

Do IELA, 12 de Setembro de 2019
Por Gentila da Cunha


"Derrota após derrota até a vitória final."
Che Guevara

No 11 de setembro, recordamos um dia triste. O fatídico dia em que o Palácio de La Moneda, sede da presidência da República do Chile, era bombardeado em 1973; data da morte de Salvador Allende, o primeiro presidente socialista eleito conforme as regras do jogo da democracia burguesa.

Cercado na sede da presidência pelo exército liderado por Pinochet, Salvador Allende, em seu último ato de generosidade, fez um discurso transmitido pela rádio Magallanes que ficou marcado na história: "Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição." Estas foram as últimas palavras de Allende, carregadas de uma serenidade que somente um homem sábio e em paz com a sua consciência pode ter.

Devemos lembrar esse acontecimento que manchou de sangue e pólvora a história da América Latina; e muito mais que lembrar: conscientizar-nos de que uma ditadura que instalou-se no poder por 17 anos, com a brutalidade como foi engendrada, massacrando seu povo e desaparecendo sua gente, não chega lá sozinha. Os interesses do império e a cumplicidade vil da elite burguesa estão sempre à espreita do próximo golpe. O mesmo plano desestabilizador utilizado no Chile em 1973 está sendo aplicado hoje na Venezuela. Guerra econômica, bombardeio midiático e diversos atentados estão sendo executados na terra de Bolívar.

Rodolfo Walsh, jornalista e escritor argentino, morto e desaparecido na ditadura de Videla, deixou importante reflexão sobre o tema: "nuestras clases dominantes han procurado siempre que los trabajadores no tengan historia, no tengan doctrina, no tengan héroes y mártires. Cada lucha debe empezar de nuevo, separada de las luchas anteriores: la experiencia colectiva se pierde, las lecciones se olvidan. La historia parece, así, como propiedad privada cuyos dueños son los dueños de todas las otras cosas".

Pensar sobre a história do Chile, nos estimula a pensar a história de outros países vizinhos que também sofreram - e ainda sofrem - por desejarem uma vida diferente, digna, livre da exploração.

Conhecer a história das nações que nos circundam, nos permite ver o quanto temos em comum apesar da nossa brutal diferença e singularidades. Somos tranças do mesmo tento, imbuídos no mesmo ideal; filhos da mesma pátria-mãe: a América Latina; formamos o mesmo povo: o povo latino-americano. É importante sustentar essa irmandade.

*
INVENCIBLES

Amor, nosotros somos invencibles.

De historia y pueblo estamos hechos.
Pueblo e historia conducen al futuro.

Nada es más invencible que la vida;
su viento infla nuestras velas.

Así triunfarán pueblo, historia y vida
cuando nosotros alcancemos la victoria.

Amanece ya en la lejanía de nuestras manos.
Y la aurora se despierta en nosotros,
porque somos los constructores
de su casa, los defensores de sus luces.

Ven con nosotros que la lucha continua.
Levanta tu orgullo miliciano, muchacha.

¡Nosotros venceremos, mi dulce compañera!

Otto René Castillo

*

ODA AL HOMBRE SENCILLO (fragmento)

y entonces
cuando esto está probado,
cuando somos iguales
escribo,
escribo con tu vida y con la mía,
con tu amor y los míos,
con todos tus dolores
y entonces
ya somos diferentes
porque, mi mano en tu hombro,
como viejos amigos
te digo en las orejas;
no sufras,
ya llega el día,
ven,
ven conmigo,
ven
con todos
los que a ti se parecen,
los más sencillos,
ven,
no sufras,
ven conmigo,
porque aunque no lo sepas,
eso yo sí lo sé:
yo sé hacia dónde vamos,
y es ésta la palabra:
no sufras
porque ganaremos,
ganaremos nosotros,
los más sencillos,
ganaremos,
aunque tú no lo creas,
ganaremos.

Pablo Neruda

*

CUENTA CONMIGO

Cuando sientas tu herida sangrar
cuando sientas tu voz sollozar
cuenta conmigo

(de uma canção de Carlos Puebla)

*

ÚLTIMO DISCURSO DE SALVADOR ALLENDE (11/09/1973)

Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos.

A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranquilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranquilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição."

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