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Os intelectuais e a marcha da civilização contra a barbárie

"Dentre os setores da sociedade que se espera um posicionamento à altura, está a intelectualidade"

Por Regis Clemente da Costa*
Do Brasil de Fato I Curitiba,3 de Agosto de 2019 


"Que os intelectuais brasileiros tenham coragem para se engajarem na defesa dos valores universais da justiça" / Gibran Mendes

O nascimento do termo intelectual como sujeito engajado nas causas sociais e da justiça é datada do século 19 com o caso do capitão Alfred Dreyfus, pois demarcou a ação pública de artistas, cientistas e escritores contra o Estado pela quebra de normas jurídicas no processo que movia contra Dreyfus.

O engajamento dos intelectuais atravessa os séculos 19 e 20. Em todos esses momentos, os intelectuais ou estão inseridos nas realidades concretas da sociedade, atuando nas causas sociais, políticas e de justiça ou são criticados ou questionados por sua omissão diante desses acontecimentos.

A chegada de Jair Bolsonaro ao poder no Brasil é acompanhada de novas exigências àqueles que se declaram conhecedores ou adeptos das correntes filosóficas, sociológicas e políticas que consideram os avanços civilizacionais da verdade, da justiça, da liberdade e da democracia como princípios norteadores da sociedade.

As posturas adotadas por Bolsonaro não são novidades, pois suas declarações sobre a ditadura militar, por exemplo, são conhecidas há décadas, assim como suas posições sobre a tortura, naturalizando as perseguições, os assassinatos e desaparecimentos ocorridos nos anos de chumbo, dentre outros temas como os direitos humanos, as minorias, as questões ambientais, os movimentos sociais. Tais posicionamentos e discursos, fazem ressurgir páginas da História brasileira carregadas de dor e desumanidade.

Objetivo

O objetivo desse breve artigo é de provocação àqueles que, de alguma maneira, compreendem a gravidade das concepções ideológicas, políticas e econômicas que perpassam os discursos e ações de Bolsonaro, como a defesa da ditadura militar e a tentativa de naturalização dos atos de barbárie ocorridos nesse período.

Incluem-se, nesse contexto, a exaltação de ditadores latino-americanos como Augusto Pinochet, do Chile e Alfredo Stroessner, do Paraguai, a submissão ao governo estadunidense, assim como, a retirada de direitos dos trabalhadores, o desmonte das políticas sociais, a privatização de grandes e estratégicas empresas estatais, a fim de agradar o capital abutre que solapa a nação brasileira.

Diante de tantas afrontas, espera-se a reação na sociedade por parte de quem, de alguma maneira, compreende e defende os avanços civilizatórios conquistados. Nota-se, porém, um cuidado e, por vezes, receio em se dar os devidos nomes aos fatos, às ações e às posições do governo Bolsonaro como um governo neoliberal e neofacista.

Dentre os setores da sociedade que se espera um posicionamento à altura, está a intelectualidade. Por vezes, reclusa aos seus respectivos gabinetes para cumprir tarefas academicistas e burocráticas ou para atender exigências da lógica do produtivismo, a intelectualidade pode, se assim não se acovardar, ser parte de um grande movimento na sociedade que faça a diferença em tempos em que os valores civilizatórios são atacados diante das câmeras de TV, em palanques ou em lives transmitidas por redes sociais, sem o menor constrangimento e com repercussão entre o público cativo.

Por vezes, em contextos políticos semelhantes ao que ocorre no Brasil, com governantes de plantão e suas ações despóticas e tirânicas, os intelectuais chamaram a sociedade a se posicionar ou foram chamados por ela a se posicionarem, e corresponderam, pois, se compreende que é intrínseco o vínculo do intelectual com a atividade de pensar e com as questões relacionadas à condição humana, na crença de que ele pode contribuir no processo de transformação do mundo.

Nesse contexto, dentre tantos intelectuais engajados que refletem essas temáticas, podemos citar Elio Vittorini, escritor italiano, conhecido por suas posições antifascistas na Itália. Ele aponta, em 1945, na obra “Uma Nova Cultura” questões relacionadas às consequências da Segunda Guerra Mundial e do fascismo e se dirige aos intelectuais italianos, afirmando que todos eles conheceram o fascismo, e que “não existe crime cometido pelo fascismo que essa cultura já não tivesse ensinado a execrar há muito tempo.”

Vittorini, afirma também, que, as situações como as cometidas pelo fascismo terem se repetido na Itália, se deve ao fato que o ensinamento dessa cultura não teve, senão, pequena, talvez nenhuma influência civil sobre os homens. Dentre outros apontamentos de Vittorini, em relação aos intelectuais e à cultura, destaca que “não queremos mais uma cultura que nos console no sofrimento, mas uma cultura que proteja do sofrimento, que o combata e elimine.” Nessa perspectiva, o intelectual deveria atuar no sentido de fazer surgir uma cultura que esteja voltada à defesa do ser humano e não do seu mero consolo, e isso, interessa a todos.

A compreensão do intelectual engajado atuante na defesa das causas humanitárias, com posicionamento crítico diante do mundo, principalmente naquilo que fere os princípios determinados por convenções internacionais, como o caso da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), ou ainda ligado às concepções progressistas na sociedade, fundamentam os significados históricos que o termo intelectual concebeu ao longo dos séculos.

Nesse sentido, evidencia-se a figura do intelectual como sujeito necessário para a continuidade de um processo civilizacional básico, em que a barbárie está sempre rondando, pois, passados tantos séculos, ainda não foi suficiente para que a humanidade aprendesse com seus próprios erros e atenuasse as tragédias por ela produzidas e reproduzidas.

Coragem

Que os intelectuais brasileiros tenham coragem para se engajarem na defesa dos valores universais da justiça, da liberdade, da verdade e da democracia. Que se engajem para fazer surgir uma cultura que esteja voltada à defesa dos homens e mulheres. Uma cultura que proteja do sofrimento, que o combata e elimine e não uma cultura que se contente em consolar.

Passados 200 dias da posse de Jair Bolsonaro está evidente a que ele veio, e que é uma necessidade falar sobre fascismo, sobre ditadura, sobre ataques aos direitos humanos, aos direitos sociais.

É urgente combater esse governo por meio do engajamento e da práxis dos intelectuais. Urge aos intelectuais a participação na construção e fortalecimento da marcha da civilização contra a barbárie.



*Professor de filosofia na Rede Estadual de Educação do Paraná e doutor em educação

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