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Crianças possuem a estranha mania de ter fé na vida

É de se espantar os ataques recentes contra a educação e os professores

Treino da equipe feminina sub-11 do COTP (Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa), a única equipe com estrutura para sub-11 feminino no Brasil, que fica em São Paulo - Danilo Verpa - 30.mai.2019/Folhapress












Da Folha de São Paulo, 10 de agosto, 2019 Por Katia Rubio


Assisti com grande espanto a todos os ataques proferidos contra a educação e aos professores nos últimos meses. Vejo ações deliberadas contra a produção do conhecimento e contra todos aqueles que dedicam as suas vidas a ensinar, compartilhar e buscar alternativas e soluções para que o ser humano seja de fato humano.

Eu, particularmente, vivo nessa encruzilhada que envolve esporte e educação e me sinto atingida por todos os petardos disparados. Por outro lado, sou também contemplada pela luz e pela energia que emana dessas atividades nobres e é isso que me faz sair todos os dias da cama pronta para mais um dia.

Para quem lê essa coluna, vá neste sábado (10) até o CEU Meninos e veja o que os professores da rede municipal de ensino têm para mostrar sobre o trabalho que fazem nas escolas. Lá acontece o 1º Congresso de Educação Esportiva.

Além de palestras e cursos também são apresentadas experiências significativas realizadas junto a milhares de crianças que usufruem da experiência esportiva nas escolas e CEUs da cidade e podem vir a ser, ou não, um atleta olímpico. É um evento que mostra o olhar do professor sobre a prática esportiva junto à educação e todos os desdobramentos disso na formação de crianças e jovens. Jogos Olímpicos e medalhas são apenas duas entre tantas possibilidades.
Os campeonatos costumam ser o momento de maior visibilidade da performance de um atleta.

Entretanto, nem sempre aparece no pódio, ou nas profundezas das catacumbas do ruminar das derrotas, todo o processo vivido por quem persiste, indiferente ou independentemente das adversidades que cerca a existência humana.

E quem trabalha com o tempo aprende isso.

Há quase dois anos eu estava em um congresso da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte e fui abordada pela professora Jaqueline Puquevis de Souza, de Guarapuava (PR). Ela começou seu questionamento dizendo que era professora de um pequeno projeto de extensão, não com atletas olímpicos, mas com as categorias de base e amadores. Respondi considerando que eram esses pequenos grandes atletas a possibilidade do vir a ser olímpico. Ademais, o futuro não nos pertence para saber quem virá a ser alguma coisa.
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Medalhas para o Brasil no Pan-2019


O Brasil conquistou seu recorde de medalhas no taekwondo no Pan-2019, com sete pódios. Milena Toneli e Netinho foram ouro; Talisca Reis e Icaro Miguel, prata; Maicon Andrade, Paulo Ricardo e Raiany Fidelis, bronze Washington Alves/COB

Um ano depois ela me escreveu. Aquela resposta ainda reverberava em sua cabeça e os frutos do seu trabalho começavam a surgir. Ela atendia 23 judocas das categorias de base, sendo que 9 deles chegaram à final do campeonato brasileiro. Fora isso, começava uma parceria para atender atletas de golbol em uma instituição para cegos e os planos para o futuro eram muitos.

Ah... O que seria desse mundo sem o otimismo de professores como Jaqueline, que nesta sexta (9) voltou a me enviar uma mensagem. Começou lembrando dos muitos atletas olímpicos que saíram de pequenas cidades do país para conquistar o mundo.

Constata que "suas" crianças das categorias de base cresceram. E, cumprindo a profecia, começam a buscar seus objetivos e resultados. O time de judô com o qual ela trabalha junto do professor Fernando Randori cruzou fronteiras e começa a constatar que o mundo é mesmo redondo. Camile Tavares Farias, irá ao México para participar do pan-americano sub-15. João Pedro Karan Sovrani e Victor Eduardo Kirian Carvalho representarão o Brasil no sul-americano sub-15 do Chile. Já adulta Tatiane Raquel, participa de sua primeira edição do Pan correndo os 3.000 m com barreiras neste sábado, em Lima.

Crianças crescem e os sonhos não envelhecem. E, assim como seus professores, possuem a estranha mania de ter fé na vida.
Katia Rubio

Professora da USP, jornalista e psicóloga, é autora de "Atletas Olímpicos Brasileiros"









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