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Trabalhar para viver ou viver para trabalhar?

Do IHU, 13 Junho 2019
Por Alex Mikulich


Depois de escrever esta coluna por oito anos, ela finalmente tem um nome: “Descolonizando a Fé e a Sociedade”. Descolonizando? O que isso significa? Não progredimos para além dos colonialismos do passado? Em suma, não, nós não nos movemos para além dos modos coloniais de pensar e de ser.

O comentário é de Alex Mikulich, eticista social católico, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 08-06-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No artigo de hoje, eu levanto a questão: a maioria dos norte-americanos trabalha para viver ou vive para trabalhar?

A questão expõe como o nosso sistema econômico prioriza sistematicamente os lucros sobre as pessoas e transforma o trabalho humano em mercadoria. Como sociedade, tendemos a esconder esse modo colonial de fazer e de ser pelos mitos que contamos a nós mesmos sobre o “sonho americano”, o individualismo e o “self-made man”patriarcal.

Talvez tenhamos ido além das administrações governamentais formais baseadas na colonização de culturas e países inteiros. No entanto, o atual presidente [dos EUA] e muitos norte-americanos parecem grotescamente ignorantes em relação ao fato de que os EUA mantêm um relacionamento colonial com Porto Rico e com mais de 300 terras tribais indígenas americanas.

Baseando-se no ensino social católico e nas tradições místico-proféticas, meus artigos questionam incessantemente as premissas assumidas como evidentes da modernidade ocidental, incluindo os pressupostos da salvação secular, o chamado “sonho americano” e a ideia de que os EUA estão sempre progredindo rumo a ideais mais elevados de liberdade, igualdade e solidariedade.

Embora a história popular norte-americana sempre ressalte o progresso moderno, ela também tende a esconder o que o acadêmico Walter Mignolo chama de “The Darker Side of Western Modernity” [O lado mais sombrio da modernidade ocidental], as múltiplas formas pelas quais a globalização econômica foi construída sobre o genocídio dos povos originários, sobre terras roubadas, sobre a difamação de imigrantes recém-chegados e sobre a escravidão. Mignolo demonstra como os últimos 500 anos de modernidade e colonialidade dependem da dispensabilidade e descartabilidade humanas.

Considere-se a precária situação das pessoas que trabalham para viver na chamada “gig economy”. Eu recentemente me tornei motorista de uma dessas empresas de aplicativos de transporte para complementar a renda da minha família. Eu explico para as pessoas que me perguntam que, ao se dirigir para essas empresas, sequer se recebe um salário mínimo. As empresas de aplicativos de transporte, como a Uber e a Lyft, não compensam os motoristas pelos custos do combustível ou da manutenção do carro, muito menos fornecem algo próximo a um salário vivível.

Ao longo dessa experiência, eu cheguei a uma nova visão sobre o que o economista britânico Guy Standing chama de “The Precariat: The New Dangerous Class” [O precariado: a nova classe perigosa]. Standing explica que muitas pessoas estão agora trabalhando para viver em situações financeiras incessantemente incertas. Ele ilustra como o precariado consiste em pelo menos três grupos diferentes: pessoas que perderam seus empregos devido à desindustrialização, refugiados que estão fugindo de crises econômicas e climáticas, e elites bem-instruídas que foram reduzidas a várias formas de emprego temporário (incluindo trabalhadores graduandos e professores adjuntos).

O problema é que cada vez mais pessoas estão lutando para chegar ao fim do mês entre vários empregos temporários ou sem qualquer emprego. De fato, como motorista de empresas de aplicativos de transporte, eu percebo que muitas vezes estou transportando as pessoas entre o seu segundo e terceiro emprego. A vulnerabilidade econômica e a incerteza do precariado são exacerbadas pelo fato de que a rede de segurança social foi dilacerada nos últimos 40 anos.

Como relata a Vox, grupos como o Rideshare Drivers United de Los Angeles, o Boston Independent Drivers Guild e o Chicago Rideshare Advocatescoordenaram greves contra a Uber e a Lyft em pelo menos uma dezena de cidades estadunidenses no último dia 8 de maio. O economista Lawrence Mishel constatou que os motoristas de empresas de aplicativo de transporte ganham menos de 12 dólares por hora; eu ganho tão pouco quanto três dólares por hora, mesmo durante as horas de pico (e mantenho a classificação mais alta dos passageiros). Para as pessoas que precisam dirigir em tempo integral para chegar ao fim do mês, trata-se de salários de pobreza.

Embora a Uber tenha pagado 45 milhões de dólares ao seu CEO [diretor-executivo] no ano passado, a Business Insider disse que ela pagou mais ainda ao seu COO [diretor de operações]. Enquanto isso, as empresas poupam dinheiro esquivando-se intencionalmente das leis trabalhistas dos EUA. Ao classificar os motoristas como contratados independentes em vez de empregados, as empresas não pagam certos impostos, benefícios, horas extras ou um salário mínimo para milhares de motoristas. De acordo com a lei dos EUA, os profissionais autônomos não desfrutam de direitos legais para formar sindicatos e negociar contratos supostamente estendidos a empregados de tempo integral. Digo supostamente, porque a sindicalização e a negociação coletiva estão se erodindo há décadas.

Como relata a Vox, a Uber admitiu esse ponto em um recente arquivamento junto à Securities Exchange Commission. Discutindo os “fatores de risco”, a Uber afirma que, se for exigido que ela classifique os motoristas como empregados, eles incorrerão em “despesas adicionais significativas” por meio das “leis salariais e de horas de trabalho (incluindo salário mínimo, horas extras e requerimentos de intervalos para as refeições e para o descanso), benefícios, contribuições previdenciárias, impostos e penalidades”.

Mesmo que as empresas de aplicativos de transporte e outras pagassem um salário mínimo de 15 dólares por hora, isso seria insuficiente para cobrir os custos básicos de vida em muitas cidades dos EUA. Um recente estudo da City Harvest constatou que duas em cada cinco residências da cidade de Nova York, mais de 2,5 milhões de pessoas, “não têm renda suficiente para cobrir apenas as necessidades”.

O mesmo estudo descobriu que, com base no salário mínimo de 13 dólares por hora em Nova York, uma “mãe solteira precisaria trabalhar 140 horas por semana, 3,5 empregos de tempo integral, para chegar ao fim do mês”. Um salário real para uma família deveria pagar 33 dólares por hora em cidades como Nova York.

A gig economy, explica o economista Mishel (veja o estudo citado acima), não é a economia do futuro. Eu espero que não. No entanto, em outros setores econômicos, quando uma empresa como o Walmart fatura 10 bilhões de dólares em um ano e paga salários de fome aos seus trabalhadores, os lucros dominam sobre as pessoas. Ou, quando as companhias de seguro ditam o nível e a extensão do atendimento aos pacientes para os profissionais de saúde, os lucros dominam sobre as pessoas.

Mesmo para as elites econômicas que podem estar prosperando com salários muito acima do salário mínimo, a concorrência obriga muitos a viajar e/ou a trabalhar longas horas que limitam severamente o tempo para cuidar das crianças e/ou dos idosos. O sistema exige que trabalhemos para viver em vez de viver de modo a sustentar a biodiversidade planetária e as relações comunitárias e mutuamente colaborativas.

Embora lamentemos com justiça o fato de o presidente Trump ter feito mais de 10.000 declarações falsas ou enganosas durante o seu mandato, incluindo a de que ele não cumpriu sua promessa de campanha de trazer de volta os empregos industriais, há uma profunda mentira que a nossa cultura e o nosso sistema econômico perpetuam: a de que a nossa economia serve às pessoas acima dos lucros.

Existem outras formas de viver. As cooperativas de trabalhadores e outras formas de vida comunitária provaram ser mais eficazes na criação e na manutenção de empregos sustentáveis e dignos, gerando riqueza e promovendo o desenvolvimento comunitário e econômico, do que as empresas focadas exclusivamente na maximização do lucro.

No entanto, como sociedade, parece que não temos a capacidade de imaginar outras maneiras de viver. Descolonizar a fé e a sociedade exige um questionamento incessante dos pressupostos assumidos como evidentes pelo sistema dominante. Enquanto não questionarmos os pressupostos fundamentais do sistema, o imperativo atual para o crescimento econômico infinito continuará ameaçando toda a vida do modo como a conhecemos.

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