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Sobre ratos e homens, por Izaías Almada

Do Jornal GGN, 28 de Junho, 2019
Por Izaías Almada

Ao adiar o julgamento da suspeição e imparcialidade do agente da CIA Sérgio Moro, após negar um habeas corpus ao ex-presidente Lula, o STF deu mais um tiro no pé.

Não, caro leitor, nada a ver com John Steinbeck e o ratinho que um de seus personagens carregava enquanto procurava trabalho em uma fazenda da Califórnia nos duros anos da crise econômica de 1929. Melhor seria dizer aqui sobre ratos ou homens.

Pois chega a dar engulhos constatar que no décimo nono ano do século XXI um país como o Brasil, de vasto e rico território e mais de 220 milhões de habitantes, tenha a sua mais alta corte composta por figuras tão sinistras e medíocres como o são a maioria dos juízes que a compõem.

Os filmes de terror feitos em Hollywood não fariam melhor. Com aquele juridiquês para se apresentarem cultos aos olhos de um país de semianalfabetos políticos, saem dos camarins do STF com suas túnicas fúnebres e tomam assento no palco para darem um espetáculo de muita e falsa pompa, demonstrado em seus papéis mal decorados, o quanto somos uma nação de caipiras aculturados.

Ao adiar o julgamento da suspeição e imparcialidade do agente da CIA Sérgio Moro, após negar um habeas corpus ao ex-presidente Lula, o STF deu mais um tiro no pé.

Mostrou, na maioria dos seus componentes, para o que realmente serve dentro do país no atual jogo da geopolítica internacional, ou seja, deixar o Brasil de mãos amarradas e sequestrado, sem voz ativa na guerra que se trava entre os três gigantes da economia mundial: Rússia, China e Estados Unidos.

Justiça? Ora, quem está preocupado com a justiça? O ex-presidente Lula que se dane, ele e os milhões que o seu governo tirou da pobreza. O resto é silencio, ou melhor, covardia.

O terrível nessa história é que nós, cidadãos brasileiros condenados agora a vivermos cercados dentro de oito milhões e meio de quilômetros quadrados, ainda procuremos forças para criticar pessoas e instituições que não valem a “ponta de um corno”, como diriam nossos irmãos portugueses.

A crítica só tem seu valor quando cai em terreno fértil e não em terra arrasada por pesticidas morais ou em mentes embriagadas pela vaidade e pelo temor de perderem as benesses que autoacumulam com o passar do tempo.

Uma fotografia em preto e branco do atual STF me faz lembrar os filmes do ator Bela Lugosi, em particular – é claro – o seu (sem trocadilhos) imortal Drácula.

Adiar por mais dois meses, pelo menos, a já provada injusta prisão do ex-presidente, é um ato de poder exacerbado ou, como poderão indicar alguns dos fatos políticos do momento, um ato de covardia. A mesma covardia que juristas e testemunhas, debaixo de ameaças, levaram à cadeira elétrica os operários italianos Sacco e Vanzetti em 23 de agosto de 1927 nos Estados Unidos.

Quando nos olhamos no espelho, todas as manhãs, deveremos sempre nos perguntar, ao contrário dessa gente “bem posta na vida”: afinal eu sou um rato ou um homem?

O grande jornalista norte americano H.L.Mencken da primeira metade do século XX afirma na sua obra “O Livro dos Insultos” (*): “A democracia é como qualquer outra forma de governo: todas são inimigas dos homens decentes”.
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(*) Ed. Companhia das Letras.

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