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Paulo Freire: um diálogo entre Educação Popular e Teologia da Libertação

Do Pazebem.org, 4 de junho, 2019
Por Eduardo Brasileiro –



Samba da Utopia (Jonathan Felix)
Se o mundo ficar pesado
Eu vou pedir emprestado
A palavra poesia

Se o mundo emburrecer
Eu vou rezar pra chover
Palavra sabedoria

Se o mundo andar pra trás
Vou escrever num cartaz
A palavra rebeldia

Se a gente desanimar
Eu vou colher no pomar
A palavra teimosia

Se acontecer afinal
De entrar em nosso quintal
A palavra tirania

Pegue o tambor e o ganzá
Vamos pra rua gritar
A palavra utopia

A música feita para a Cia. Do Tijolo no espetáculo sobre Paulo Freire chamado Ledores no Breu fala de um movimento de pessoas que decidem por ser sujeitos históricos, a partir da prática de ler o mundo, interpretá-lo e transformá-lo. Ou seja, não aceitar a vida como mero fenômeno biológico (viver e comer) e sim como uma construção biográfica. A conscientização a partir do pensar a realidade a atuar nela foram as possibilidades possíveis de construção popular brasileira. E, provocado pelo amigo Mauro Lopes, jornalista e teólogo, a pensar sobre a sua espiritualidade sou levado a escrever esse texto/movimento em mim, em nós e cadenciado nas coisas.

Digo isso, no calor das ruas que levaram no 15 de maio e 30 de maio a pluralidade das ideias que compõem o seu pensamento. O Brasil, em nossa conversa no canal Paz e Bem sobre espiritualidade e Paulo Freire precisará descobrir os seus Brasis.

Reencontrar Paulo Freire é sintomático num período onde se busca apagar a história (volta ditadura! fora comunistas! fora Paulo freire!). As ondas revoltas do autoritarismo nunca esgotado, encontrou vigor para se levantar e o primeiro objetivo deles é eliminar a semente revolucionária de Paulo Freire. Quando um povo é expulso do tempo e do espaço, os que resistem e sobrevivem se refugiam no único território possível: no dizer, recontar, reler suas histórias… a educação popular é como reconhecemos esse esforço utópico de sobrevivência.

Os indígenas do Xingu dizem que o espirito das águas repousa na floresta, o espírito vento incessante repousa sobre o trabalho diário de artesões, não o comercializado em shoppings centers ou nos atacados do Brás, no centro de São Paulo. O fios que compõem o tecido, é o espírito, a realidade é o tecido, trama que se constitui a realidade.

Freire sempre sinalizou que uma formação para a vida, passa por iluminar nossa imanência, ou seja, a educação deverá ser o método para buscarmos nossa transcendentalidade (espiritualidade) para potencializar nossa prática (práxis). Para isso, me remeto a uma fala de Paulo Freire, num encontro dele com a espiritualidade, em algum beco, favela dos nossos Brasis. Diz: “eu me sinto entre os que: creem na transcendentalidade; segundo, eu me situo entre aqueles que, crendo na transcendentalidade, não dicotomizam a transcendentalidade da mundanidade”. Já no final, conclui, “eu fiquei com Marx na mundanidade, a procura de Cristo na transcendentalidade”.

Aqui bebemos da espiritualidade freireana, essa transcendentalidade: a capacidade de ver o que está dentro de nós. E, libertadora, pois é capaz de mudar tudo o que está envolvido no campo exterior, a materialidade que hoje é individualista, acumuladora e consumista neste estágio do neoliberalismo. Freire movido por sua tese central na vida a liberdade e a libertação, mostra que alimentando-se da utopia, a espiritualidade se encarna e luta pela justiça. Um modelo de espiritualidade: não alienante, que problematiza o cotidiano, através da conscientização que humaniza o homem permitindo vive-lo a totalidade do bem viver.

Nessa trama, mulher ou homem se vê construtor de um discurso que denuncia a desumanização, a barbárie do discurso intolerante e da privatização das relações. Por isso, a visão utópica da educação popular é profecia. Caminho para os pés descalços, para os sem tetos, sem terra, sem trabalho, sem direitos.

Freire nessa hora perguntaria: mas quem diz o que diz? Nesse costurar a cultura em si, é preciso ter presente as linguagens dos territórios nossos, é perceber como Walter Benjamin ressalta, o contrapelo da história; os/as silenciados/as, inviabilizado/as e seus corpos. Espiritualidade é também linguagem, corpo ideológico, como nos diz Freire, exercício de poder. O poder em discutir quem está falando e de onde está falando é primordial. As espiritualidades latino americanas apontaram para isso, quando surge a teologia da libertação, e vem à tona a teologia negra, feminista, ameríndia, queer. Assim amalgama a trama entra a Espiritualidade e a Educação Popular: o esforço humano de construir a vida pelo critério da ética.

Tatear Deus se tornou algo próximo, não mais preso nos templos. Paulo Freire fez isso ensinando sobre tijolos. Foi assim nas aulas de Angicos, no Rio Grande do Norte. Paulo Freire alfabetizou 380 pessoas em 40 horas, conhecida como a pedagogia do tijolo. Para ele, primeiro os educandos aprender a ler o mundo a sua volta e depois a formação das palavras. Assim também é a espiritualidade: uma intuição, um desassossego, que faz ver o que ninguém vê e é capaz de mudar tudo a nossa volta quando soletrado o espírito em gestos.

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