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O escasso futuro do trabalho

Do IHU, 28 Junho 2019
Por Josep Burgaya


“O furacão digital pulverizou setores inteiros da economia, resultando em um processo de concentração dos lucros e destruição e precarização de uma vastidão de empregos”, escreve Josep Burgaya, doutor em História Contemporânea pela Universidade Autónoma de Barcelona e diretor do Instituto Catalão de Economia Verde, em artigo publicado por Economistas Frente a la Crisis, 26-06-2019. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O universo produtivo e industrial da segunda metade do século XX está se triturando no mundo digital. No Ocidente, viemos de sociedades hegemonizadas pela classe média, com trabalho, expectativas razoáveis de aumento do bem-estar social, proteção e segurança estatal e de inovações tecnológicas, a maioria financiada com recursos públicos.

Justamente as tecnologias da comunicação e informação que geraram essa profusão sem precedentes de grandes negócios privados, tem sua origem em pesquisa e recursos estatais. Essa economia digital, paradoxalmente, se caracterizada pela criação de uma desigualdade cada vez maior entre uma pequena elite e o restante da população, sem que, em hipótese alguma, repousem em forma de impostos as contribuições públicas recebidas.

Alguém definiu isso como uma economia de donut, ou seja, sem nada no meio. Uma atividade da Internet que gera lucros brutais, mas quase sem empregados. Quando o Facebook comprou o WhatsApp, em 2014, pagou o equivalente a 345 milhões de dólares para cada um dos seus 55 trabalhadores. A economia digital concentra riqueza e diminui oportunidades. A média salarial dos trabalhadores, em todo o mundo, não pararam de diminuir nas últimas décadas. Nos Estados Unidos, caiu 30% nos últimos quarenta anos.
O ambiente digital gera muito pouco trabalho, e mesmo parte do que cria é escassamente concorrente e extremamente precário, especialmente nas fases de fabricação e na distribuição ao consumidor final. Atinge muita tecnologia inovadora e, como esta, requer trabalho muito pouco qualificado em alguns aspectos, não incorporado a seus quadros, além de muito mal remunerado.

Além das múltiplas formas de subcontratação e sub-rogação de funções, a diferença de postos de trabalho entre a economia industrial e a digital é abismal. Enquanto Alphabet no início de 2018, tinha uma capitalização de mercado de 710 bilhões de dólares - o segundo depois da Apple -, só oferecia emprego direto para 70.000 pessoas. A General Motors, com uma capitalização doze vezes inferior, emprega 250.000 pessoas. A piada americana reflete isso muito claramente: “uma fábrica moderna emprega apenas um homem e um cachorro. Ao homem para alimentar o cachorro e ao cachorro para que mantenha o homem longe do maquinário”.

O furacão digital pulverizou setores inteiros da economia, resultando em um processo de concentração dos lucros e destruição e precarização de uma vastidão de empregos. Não se produz tanto um problema relacionado à robotização, que afeta seriamente algumas atividades da planta industrial, mas o deslocamento do trabalho formal para condições informais e até mesmo não remuneradas, como é especialmente evidente nas funções que têm a ver com a formação ou com a criação de conteúdos culturais.

O modelo de negócio distribuído do Google foi transferido para o turismo, com plataformas que praticamente liquidaram agências de viagens, que facilitam a contratação direta de voos e hotéis. A Airbnb está causando sérias dificuldades ao setor hoteleiro, como o Uber no setor de táxi. Eles são vendidos como atividades inovadoras, mas, na realidade, se constituem de maneira informal, sem empregados e sem pagar impostos.

John Doerr e o controvertido Travis Kalanick criaram o Uber, em 2009, com a aparente modesta pretensão de facilitar tecnologicamente formas inovadoras de transporte público. “Um software que come táxis”, nas palavras de Marc Andreessen. Só ocupa 1.000 trabalhadores de forma direta. Apesar de não ter nenhum carros e seus ativos serem pouco mais que um software, possui uma avaliação de 62,5 bilhões de dólares, o que é muito mais do que valem, conjuntamente, as duas grandes empresas de aluguel de carros, Avis e Hertz, que entre as duas possuem mais de 60.000 funcionários.

Com a participação da Arábia Saudita e Goldman Sachs, o Uber gerou muitas expectativas e disrupções, mas seus resultados seguem na área de perdas. A manobra dessas companhias de plataforma não é outra senão estourar os preços temporariamente, o que é possível com o financiamento abundante, para monopolizar os negócios e conseguir estabelecer preços altos. É a mesma estratégia do Walmart no varejo analógico. É um modelo tão antigo que consiste em dumping. Seu triunfo não tem nada a ver com tecnologia, mas, ao contrário, com sua imunidade em não respeitar regras, nem legislações. Não há inocência de qualquer tipo nessa ilusão que é vendida para nós como uma “economia colaborativa”.

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