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Chegou a hora da Revolução Brasileira: crítica à ideologia da industrialização e do crescimento econômico

Do Blog da Boitempo, 27 de Junho, 2019
Por Jones Manoel.


Como bem colocou Lênin, em 'O Estado e a revolução', só se consegue reformas por meio da luta revolucionária. No capitalismo dependente, em particular, essa assertiva leninista é mais precisa ainda: só é possível lograr reformas estruturais dentro de um processo de transição socialista.
“Populares sobre cobertura do palácio do Congresso Nacional no dia da inauguração de Brasília” (1960), de Thomaz Farkas / Acervo Instituto Moreira Salles.

Introdução

Desde o processo de libertação do colonialismo espanhol, instaurou-se na América Latina uma controvérsia sobre a dependência. Intelectuais, políticos, partidos, movimentos populares e instituições de pesquisa acadêmica refletem há décadas sobre os motivos do “atraso” latino-americano, as condições de vida do seu povo e as soluções para superar os problemas vividos. Existe, tanto na América Latina como um todo, como no Brasil em particular, um riquíssimo material com diferentes leituras da realidade e propostas de intervenções de acordo com os confrontos históricos de cada momento e os interesses das classe e dos grupos que permeiam essas formulações.

Na sociedade dividida em classes, nenhuma formulação teórica com expressões de massa é separada da luta de classes. É parte da luta de classes uma encarniçada batalha pela direção moral, política e intelectual da sociedade – isto é, das diversas classes, frações e grupos sociais –, e essa direção é obtida por meio de uma economia política que combina de forma estratégica a coerção e o consenso. Os dominados, tendencialmente, estarão amoldados à ordem dominante porque as próprias formas sociais capitalistas produzem isso: o fetichismo da mercadoria e alienação são complexos sociais típicos e inseparáveis do capitalismo.

Contudo, o capitalismo é permeado de contradições, e o amoldamento à ordem do capital precisa ser construído e reproduzido ao mesmo tempo em que é reposto pela base material própria das relações sociais e das relações de produção existentes. Nesse processo, as classes e frações de classe atuam concretamente por meio de suas expressões políticas (como partidos ou movimentos), aparelhos ideológicos e intelectuais que funcionam como produtores de uma hegemonia político-cultural sobre a sociedade e tornarão o interesse particular de uma classe, ou bloco de classe, como o interesse geral, universal.

Esse processo de luta pela hegemonia não é lastreado apenas no plano ideal dos confrontos teóricos e culturais. Além de estar assentado na estrutura própria das relações materiais de produção e reprodução da vida – a base real da construção das experiências políticas, ideológicas e organizativas das classes – e ser mediado pelos aparelhos ideológicos e pelas expressões políticas, um projeto hegemônico sobre as classes dominadas exige também uma base material presente no cotidiano dos explorados, isto é, níveis de concessão, ainda que mínimos1.
Ocultar do debate e da luta política as relações de produção e forjar projetos de desenvolvimento burguês que alcancem adesão de massa é um objetivo permanente das classes dominantes que assume diferentes formas e conteúdos históricos de acordo com as fases do capitalismo, com o padrão de acumulação de capital e com as variações conjunturais. É parte da grande política burguesa reduzir a práxis política dos explorados a questões secundárias como brigar por tal ou qual política pública, excluindo do horizonte de ação a questão do poder, das reformas estruturais e, óbvio, a revolução socialista.

Nosso objetivo nesta coluna é analisar duas grandes formulações teóricas que foram, em suas respectivas épocas históricas, instrumentos do bloco no poder para cimentar a direção política e moral sobre as classes exploradas: a ideologia da industrialização e do crescimento econômico como respostas resolutivas aos problemas fundamentais da classe trabalhadora, isto é, as expressões da “questão social”2.

Situaremos, primeiro, sem qualquer pretensão de esgotar o tema, o papel da ideologia da industrialização no âmbito do desenvolvimentismo e suas variadas facetas. Em seguida, passaremos a debater a substituição da ideologia da industrialização pela ideologia do crescimento econômico no bojo do neoliberalismo. Na parte final da coluna, mostraremos como esses construtos ideológicos representam estratégias da classe dominante para obter o consenso dos dominados e banir da ação política a tematização do subdesenvolvimento, da dependência e da superexploração da força de trabalho: as determinações fundamentais que particularizam o capitalismo dependente brasileiro e sua inserção no processo de acumulação mundial de capital.

Superar o subdesenvolvimento sem a revolução: o desenvolvimentismo e a ideologia da industrialização

Ao final da Segunda Guerra Mundial, a revolução anticolonial que marca o século XX – que teve na Revolução de Outubro seu primeiro grande capítulo e na vitória soviética sobre o nazifascismo o segundo – explode na periferia do sistema capitalista3. Os países de África e Ásia, em luta pela sua emancipação nacional, tendiam a manter uma proximidade maior com o campo comunista liderado pela União Soviética4 e viam na planificação econômica (e não necessariamente no “modelo” socialista) uma estratégia de desenvolvimento adequada aos seus interesses. Na América Latina, os partidos comunistas passavam por processos de massificação e se tornavam atores políticos com maior peso e importância na luta de classes.

Era necessário para o sistema capitalista, liderado pelos Estados Unidos, organizar uma contraofensiva política e ideológica de proporções mundiais e em cada país capitalista, a fim de impedir o crescimento e adesão de massa aos projetos socialistas e nacional-revolucionário terceiro-mundistas. Para a América, foi criado a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), e as universidades, fundações e mídias estadunidenses passaram a exportar as teorias sobre o desenvolvimento para os países periféricos.

Embora a Cepal em muitos momentos tenha demostrado uma “radicalidade” não aceita pelo imperialismo, a perspectiva desse órgão, no geral, era explicar o subdesenvolvimento latino-americano a partir do processo da chamada “deterioração dos termos de troca”, ou seja, a pauta de exportação dos países de Nuestra América estava centrada em mercadorias primárias com reduzida produtividade no trabalho. A centralidade da produção agroexportadora obrigava o país a importar os produtos industrializados necessários e, como no “mercado internacional” o preço dos manufaturados é sempre tendencialmente maior que dos produtos primários, havia uma “troca desigual” entre os países do centro e os da periferia na qual os últimos transferiam capital para os primeiros.

Os enclaves urbano-industriais não conseguiam se desenvolver porque o grosso do país estava preso numa economia primário-exportadora voltada para fora, que conformava um reduzido mercado interno devido aos baixíssimos salários do trabalhador urbano como consequência de um constante êxodo rural, devido ao domínio do latifúndio no campo, a criar uma superpopulação relativa sempre ampliada. Sem um mercado interno sólido e forte e uma política econômica que criasse as condições para a superação da divisão, chamada de dualismo estrutural, entre o enclave urbano-industrial e a sociedade agrário-exportadora, seria impossível desenvolver um processo de acumulação capitalista centrado na industrialização e na urbanização do país com um redirecionando do processo produtivo para as demandas do mercado interno.

A Cepal não só analisava os problemas de América Latina como divulgava vários relatórios com “soluções” a serem aplicadas. Em nosso país, o principal nome do pensamento cepalino foi Celso Furtado e a expressão máxima do desenvolvimentismo, corrente de pensamento heterogênea e dinâmica que a Cepal contribui na formação, foi o Instituto de Estudos Brasileiros (ISEB).

A reforma agrária, o planejamento estatal indicativo como forma de aumentar o investimento de capital nas áreas prioritárias ao desenvolvimento, as compras governamentais e as empresas públicas na potencialização do processo de substituição de importações e fortalecimento do mercado interno, e o investimento em educação e produção de ciência e tecnologia nacional (todas essas medidas dentro de uma política econômica protecionista) são as medidas mais indicadas nos debates correntes dos anos 50 e 60 pelo pensamento Cepalino e desenvolvimentista.

Todas essas medidas e a ferramentaria de política econômica que as acompanhava tinham um fio condutor: a industrialização. O desenvolvimento da indústria como o grande dínamo modernizador das economias periféricas que propiciaria a superação do atraso e do subdesenvolvimento, alçando o país à condição de desenvolvido. A industrialização, sem grandes pormenores, era entendida como a multiplicação de plantas industriais pelo país e o maior peso da indústria na economia nacional (exemplo: na composição do PIN/PNB, porção de força de trabalho empregada, crescimento na pauta de exportação etc.).

Guardadas as devidas proporções e diferenças importantes, os intelectuais do ISEB, como Alberto Guerreiro Ramos, as formulações do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e as análises da Cepal convergiam num elemento fundamental: a crença na possibilidade de superar o subdesenvolvimento sem romper totalmente com o capitalismo por meio de uma mudança no padrão de acumulação de primário-exportador voltado para fora para uma acumulação urbano-industrial centrada no mercado interno, em aliança com setores da burguesia industrial considerada progressista e com interesses nacionais (é necessário destacar, porém, que as formulações do PCB eram bem mais avançadas e radicais que as da Cepal ou ISEB).

A possibilidade de uma industrialização periférica autônoma e emancipadora (de um ponto de vista nacional) era exibida como a grande solução para os problemas do país em termos de emprego, baixos salários, miséria, pobreza, desigualdade etc. O governo de Juscelino Kubitschek foi a maior expressão desse otimismo da consciência ingênua sobre as possibilidades de um capitalismo autônomo na periferia na era desenvolvimentista.
O mercado perfeito e a ideologia do crescimento econômico

A partir dos anos 70, tem início a contrarrevolução neoliberal. Essa contrarrevolução conseguiu vencer as experiências de transição socialista no Leste Europeu e na URSS, acarretando uma das maiores tragédias sociais da história moderna, e na Europa Ocidental tomou a face de uma contrarreforma prolongada buscando destruir o Estado de bem-estar social. O consenso keynesiano é jogado fora e no seu lugar a ordem dominante abraça a ficção do mercado perfeito, eficiente e autorregulado. O neoliberalismo pode ser sintetizado da seguinte maneira:

“As raízes da crise, afirmavam Hayek [teórico pioneiro do neoliberalismo] e seus companheiros, estavam localizadas no poder excessivo e nefasto dos sindicatos e, de maneira mais geral, do movimento operário, que havia corroído as bases de acumulação capitalista com suas pressões reivindicativas sobre os salários e com sua pressão parasitária para que o Estado aumentasse cada vez mais os gastos sociais […]. Esses dois processos destruíram os níveis necessários de lucros das empresas e desencadearam processos inflacionários que não podiam deixar de terminar numa crise generalizada das economias de mercado. O remédio, então, era claro: manter um Estado forte, sim, em sua capacidade de romper o poder dos sindicatos e no controle do dinheiro, mas parco em todos os gastos sociais e nas intervenções econômicas. A estabilidade monetária deveria ser a meta suprema de qualquer governo. Para isso seria necessária uma disciplina orçamentária, com a contenção dos gastos com bem-estar, e a restauração da taxa “natural” de desemprego, ou seja, a criação de um exército de reserva de trabalho para quebrar os sindicatos. Ademais, reformas fiscais eram imprescindíveis, para incentivar os agentes econômicos. Em outras palavras, isso significava reduções de impostos sobre os rendimentos mais altos e sobre as rendas. Desta forma, uma nova e saudável desigualdade iria voltar a dinamizar as economias avançadas, então às voltas com uma estagflação, resultado direto dos legados combinados de Keynes e de Beveridge, ou seja, a intervenção anticíclica e a redistribuição social, as quais haviam tão desastrosamente deformado o curso normal da acumulação e do livre mercado. O crescimento retornaria quando a estabilidade monetária e os incentivos essenciais houvessem sido restituídos.”

Perry Anderson, O pós-neoliberalismo (Paz e Terra, 1995), pp. 10-11.

Em Nuestra América, o neoliberalismo começou a ser aplicado pelas ditaduras militares do grande capital (como no caso do Chile), mas ganhou proporção de política continental nas transições conservadoras do ciclo militar-burguês à volta das democracias burguesas. No processo de volta à democracia (burguesa), consolida-se uma importante divisão do trabalho: as ditaduras militares do grande capital trataram de banir o radicalismo político e teórico, expresso, por exemplo, nas reflexões da teoria marxista da dependência, e a democracia burguesa sob o neoliberalismo legitima e reproduz em nível superior a hegemonia escudada no terrorismo de Estado.

O neoliberalismo, ao mesmo tempo em que desmontou elementos importantes do desenvolvimentismo (como as empresas públicas, os pouquíssimos centros de pesquisa científica nacional e vários direitos sociais), prometeu um éden de desenvolvimento econômico e social por meio da retirada do Estado da economia, vista que este seria ineficiente e perdulário, a concentração da ação pública nas áreas de direitos sociais (saúde, educação, cultura etc.), e que o crescimento econômico per se trataria de resolver todos os problemas da “questão social”.

Nesse período, os aparelhos políticos do imperialismo (denominados apologeticamente “organizações internacionais”), como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, passaram a chamar os países da periferia do capitalismo de “em desenvolvimento” ou “emergentes”. Com uma operação ideológica, o Brasil deixava de ser subdesenvolvido e, segundo o presidente Fernando Henrique Cardoso, o “príncipe da sociologia”, passava a ser apenas um “pais injusto”5.

O receituário para combater a injustiça? Crescimento econômico. Os aparelhos políticos do imperialismo, vários aparelhos ideológicos privados e os intelectuais da classe dominante criaram um mito de que não existe combate às desigualdades sociais sem um forte crescimento econômico e que esse crescimento só pode acontecer com a liberalização dos mercados, desregulamentação estatal, austeridade fiscal permanente (menos para o gasto financeiro com juros e serviços da dívida) e privatizações que alarguem o papel das relações de mercado em toda regulação da economia.

Se os índices de urbanização ou aumento de plantas industriais eram exibidas nos anos 50 e 60 como principais feitos de um governo, a partir dos anos 90 tudo estava condicionado a um centro estratégico e seus derivados necessários: o crescimento econômico é o principal objetivo a ser buscado, e para isso é necessário garantir o combate à inflação, a confiança do investidor e a autorregulação do mercado.

Quando, nos anos 90, a resistência das classes populares ao neoliberalismo se intensifica, a classe dominante busca criar uma falsa alternativa ao bloco no poder neoliberal: o social-liberalismo. Essa ideologia procura demonstrar uma maior “sensibilidade” para as “questões sociais”, tematiza os problemas gerados com o padrão neoliberal de acumulação do capital e incorpora pautas de “esquerda” como ecologia, feminismo, antirracismo etc.

“Diante da crise conjuntural, que ameaçava parcialmente a hegemonia neoliberal em regiões do planeta, ideólogos de diversas instituições ligados às classes dominantes iniciaram um processo de revisão dos principais pontos do projeto neoliberal, sintetizados no Consenso de Washington. Surgiu com esta revisão ideológica do neoliberalismo o que pode ser chamado de social-liberalismo, uma tentativa político-ideológica das classes dominantes de dar respostas às múltiplas tensões derivadas do acirramento das expressões da “questão social” e da luta política da classe trabalhadora.”

Rodrigo Castelo, O social-liberalismo: auge e crise da supremacia burguesa (Expressão Popular, 2012), p. 47.

O social-liberalismo é uma hábil forma da classe dominante propagar a ideologia que irá orientar o domínio do bloco no poder e, ao mesmo tempo, forjar uma hegemonia sobre as classes e movimentos contestadores. É uma forma de mudar deixando tudo como está. O social-liberalismo toma como dadas e irreversíveis todas as contrarreformas neoliberais e advoga apenas relativo nível de mudança na política econômica e nas políticas públicas, prometendo, evidentemente, que essas tímidas “mudanças” serão suficientes para combater as expressões da “questão social”, e garantindo a) manter intacto o núcleo duro da padrão neoliberal de reprodução do capital; b) garantir a permanente exclusão das “questões estruturais”, a grande política dos de baixo, da ação política.

No Brasil, o Partido dos Trabalhadores, o PT, que nasceu com marca operária e socialista, tornou-se o principal operador do social-liberalismo e abraça o mito do crescimento econômico como ponto de partida fundamental, indispensável à distribuição de renda. Diz o PT:

“Um novo contrato social, em defesa das mudanças estruturais para o país, exige o apoio de amplas forças sociais que deem suporte ao Estado-nação. As mudanças estruturais estão todas dirigidas a promover uma ampla inclusão social – portanto distribuir renda, riqueza, poder e cultura. Os grandes rentistas e especuladores serão atingidos diretamente pelas políticas distributivistas e, nestas condições, não se beneficiarão do novo contrato social. Já os empresários produtivos de qualquer porte estarão contemplados com a ampliação do mercado de consumo de massas e com a desarticulação da lógica financeira e especulativa que caracteriza o atual modelo econômico. Crescer a partir do mercado interno significa dar previsibilidade para o capital produtivo.”

Resoluções do 12.º Encontro Nacional (2001). Diretório Nacional do PT (São Paulo, 2001), p. 38.

A consequência prática do social-liberalismo, além de um gigantesco desarme teórico, político e organizativo da classe trabalhadora e da massa dos explorados, foi possibilidade com que a classe dominante pudesse voltar ao neoliberalismo em sua face mais extremada com o governo Temer e depois radicalizem ainda mais esse programa com o governo Bolsonaro.

A ideologia da industrialização, durante o desenvolvimentismo, e a ideologia do crescimento econômico no neoliberalismo, seja na sua fase neoliberal extremada ou social-liberal, foram uma expressão da hegemonia da classe dominante sobre os explorados. Contudo, é importante pontuar algumas questões. A hegemonia, além de não dispensar complexos e crescentes mecanismos de repressão e controle, normalmente vem associada a uma rede de compromissos materiais. A ideologia da industrialização na era desenvolvimentista trouxe “ganhos materiais”. Isto é, redução do pauperismo absoluto para as classes trabalhadoras urbanas e segmentos médios, embora, é claro, não tenha revertidos os brutais índices de desigualdade social característicos do capitalismo dependente.

Da mesma forma, o ciclo social-liberal do PT trouxe um aumento relativo do consumo médio dos assalariados e uma redução do pauperismo absoluto e relativo, sem, de novo, alterar em nada a desigualdade social e a distribuição de renda e riqueza. Em ambos os casos, especialmente durante os governos de JK e Lula, o momento político é coberto de otimismo ingênuo, grandes “feitos”, aparentes transformações estruturais irreversíveis e no final se percebe que o país mudou, mas continua o mesmo.

Contudo, existe uma diferença significativa entre as ilusões social-liberais e as desenvolvimentistas. As primeiras significaram um nível de cooptação e paralisia da classe trabalhadora ao ponto de, durante a maior ofensiva burguesa nos últimos tempos, iniciada com Dilma, avançada com Temer e radicalizada com o bolsonarismo, a classe trabalhadora manifestar extremas dificuldades de realizar uma resposta política à altura. Já no ciclo desenvolvimentista, mesmo com uma orientação estratégica equivocada, a atuação política da classe trabalhadora conseguiu avançar a tal ponto de, segundo vários autores, provocar uma crise revolucionária e conseguir realizar algo nunca mais repetido na história brasileira: combinar um movimento de massa em ascensão com uma Presidência reformista e sintonizada com esse movimento de massa. Por isso o golpe de 1964 foi uma contrarrevolução preventiva.

Conclusões e desafios

“A história do subdesenvolvimento latino-americano é
a história do desenvolvimento do sistema capitalista mundial”
– Ruy Mauro Marini

Essa frase que abre o primeiro capítulo do livro Subdesenvolvimento e Revolução, de Ruy Mauro Marini, expressa uma conquista teórica fundamental da classe trabalhadora latino-americana e dos seus intelectuais: os problemas fundamentais da classe trabalhadora e da semi-soberania nacional do Brasil e dos demais países latino-americanos não são devido à ausência de desenvolvimento capitalista, a permanência de relações pré-capitalistas no campo por muito tempo chamadas de feudais ou a ausência de uma revolução burguesa tida como “clássica” ou jacobina.

Não existe ausência ou déficit de capitalismo na América Latina, mas uma forma de ser específica do capitalismo, uma totalidade integrada ao sistema mundial do capital. O capitalismo dependente brasileiro é tão capitalista quanto a economia dos EUA, porém, com determinantes histórico-estruturais, dinâmicas produtivas e papel na divisão internacional do trabalho diferenciados. Daremos a voz a dois clássicos autores latino-americanos que refletem com brilhantismo a questão:

“Nos marcos da dialética do desenvolvimento capitalista mundial, o capitalismo latino-americano reproduziu as leis gerais que regem o sistema em seu conjunto, mas, em sua especificidade, acentuou-se até o limite. A superexploração do trabalho em que se funda o conduziu finalmente a uma situação caracterizada pelo corre radical entre as tendências inerentes ao sistema – e, portanto, entre os interesses das classes por ele beneficiadas – e as necessidades mais básicas das grandes massas, que se manifestam em suas reivindicações por trabalho e consumo. A lei geral da acumulação capitalista, que implica a concentração da riqueza num podo da sociedade e o pauperismo absoluto da grande maioria do povo, se expressa aqui com toda brutalidade, colocando na ordem do dia a exigência de formular e praticar uma política revolucionária, de luta pelo socialismo.”

Ruy Mauro Marini, Subdesenvolvimento e revolução (Insular, 2013), p.63.

“Proclamamos que este é um instante de nossa história no qual não é possível ser efetivamente nacionalista e revolucionário sem ser socialista; por outro lado não existe no Peru, como jamais existiu, uma burguesia, no sentido nacional, que se professe liberal e democrática e que inspire sua política nos postulados de sua doutrina.”

José Carlos Mariátegui, Sete ensaios de interpretação da realidade peruana (Expressão Popular, 2010), p. 55.

Nossa revolução burguesa, isto é, o processo de transição ao capitalismo dependente e associado de forma subordinada ao imperialismo, repôs em termos diferenciados e com determinantes próprios a dominação da época colonial. Enquanto país dependente e dominado pelo imperialismo, transferimos valor para os centros dominantes do capitalismo, essa transferência de valor é “compensada” na acumulação interna a partir de um processo de intensificação da exploração sobre a classe trabalhadora, aumentando a massa total de mais-valor produzido, complexo social que Marini chama de superexploração da força de trabalho. A superexploração garante um padrão de acumulação viável mesmo com a transferência de valor e o aumento do controle dos centros imperialistas das economias periféricas.

A semi-soberania nacional, a transferência de valor, o papel subordinado na divisão internacional do trabalho e a superexploração da força de trabalho se combinam como determinantes estruturais e elimináveis da forma capitalista dependente: o desenvolvimento do subdesenvolvimento gera mais subdesenvolvimento. E não é no nível de política econômica que se combate o capitalismo dependente, mas atacando as relações de produção capitalistas dependentes, ou seja, com a prática política radical, revolucionária.

Os países da periferia capitalista, diferentemente dos países centrais do capitalismo, comportam possibilidades reduzidas de pactos de classe redistributivos: a não existência de algo comparável ao Estado de bem-estar social na história da América Latina e do Brasil não se deve apenas a uma suposta incapacidade política das classes trabalhadoras para impor essa “vitória” à burguesia, outrossim, a questão é que é incompatível o “reformismo forte” e a superexploração da força de trabalho.

“A superexploração do trabalho constitui, portanto, o princípio fundamental da economia subdesenvolvida, com tudo que isso implica em matéria de baixos salários, falta de oportunidade de emprego, analfabetismo, subnutrição e repressão policial.”

Ruy Mauro Marini, Subdesenvolvimento e revolução (Insular, 2013), p. 52.

Como bem colocou Lênin, em O Estado e a revolução, só se consegue reformas por meio da luta revolucionária. No capitalismo dependente, em particular, essa assertiva leninista é mais precisa ainda: só é possível lograr reformas estruturais dentro de um processo de transição socialista.

As consequências práticas dessa compreensão crítica do desenvolvimento capitalista na periferia impõem um combate ainda mais engajado contra as formulações hegemônicas da ordem dominante sobre as possibilidades de “inclusão social” e “ascensão social” dentro da ordem por meio de políticas públicas. Combater, na teoria e na política, as formulações ideológicas que prometem responder às expressões da “questão social” sem tocar na propriedade e no poder é parte fundamental da compreensão crítica do mundo e elemento indissociável da luta revolucionária. Caso contrário, as classes dominantes serão vitoriosas, e elas não têm cessado de vencer.

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Vale a pena conferir a participação de Jones Manoel na mesa de YouTubers marxistas que encerrou a Festa de Aniversário do Marx organizada pela Boitempo em parceria com a Fundação Lauro Campos e Marielle Franco. Junto com Sabrina Fernandes (Tese Onze), Humberto Matos (Saia da Matrix), Larissa Coutinho (Revolushow) e Debora Baldin (mediação), ele falou sobre “Como começar a ler Marx?”, tema do debate, e muito mais…
Notas

1 Sergio Lessa, em Capital e estado de bem-estar: o caráter de classe das políticas públicas (Instituto Lukács, 2013), procura mostrar como o Estado de bem-estar não significou qualquer redistribuição de renda ou democratização do Estado burguês, embora seja uma mudança na vida dos trabalhadores comparado com o período histórico anterior. Os trabalhadores no seu cotidiano sentiam que viviam melhor – com um índice de desemprego menor e com maior acesso aos bens de consumo, por exemplo – embora fossem mais explorados.
2 Sobre a categoria “questão social”, usamos a formulação da palavra de José Paulo Netto, em “Cinco notas a propósito da ‘questão social’”, publicado como apêndice à terceira edição de Capitalismo monopolista e serviço social (Cortez), e disponível aqui.
3 Sobre o conceito de revolução anticolonial e sua utilização como chave de leitura histórica da dinâmica do século XX, conferir Domenico Losurdo, A luta de classes: uma história política e filosófica (Boitempo, 2015).
4 Para a compreensão desse tema, conferir a obra de Losurdo acima citada.
5 Episódio citado por Nildo Ouriques, em entrevistada dada ao programa “Justiça do Trabalho na TV”. Disponível aqui.
Referências.

Pedro Fassoni Arruda, Capitalismo dependente e relações de poder no Brasil: 1889-1930. São Paulo: Expressão Popular, 2012.
Perry Anderson, O pós-neoliberalismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.
Vânia Bambirra, O capitalismo dependente latino-americano. 2° Ed. Florianópolis: Editora Insular, 2013.
Rodrigo Castelo, O social-liberalismo: auge e crise da supremacia burguesa. São Paulo: Expressão Popular, 2012.
Jaime Osório, O Estado no centro da mundialização. São Paulo: Expressão Popular, 2014.
V. I. Lênin, O Estado e a revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2012.
Ruy Mauro Marini, Subdesenvolvimento e revolução. 5° Ed. Florianópolis: Editora Insular, 2013.
José Carlos Mariátegui, Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. São Paulo: Expressão Popular, 2010.

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Jones Manoel é pernambucano, filho da Dona Elza e comunista de carteirinha. Começou sua militância na favela onde nasceu e cresceu, a comunidade da Borborema, construindo um cursinho popular, o Novo Caminho, junto com seu amigo Julio Santos (ele, Julio e outro amigo, Felipe Bezerra, foram os primeiros jovens da história de Borborema a entrar em uma universidade pública). Depois de dois anos com o cursinho popular, passou a militar no movimento estudantil em paralelo ao seu curso de história na UFPE. Pouco tempo depois, ingressou nas fileiras da UJC (a juventude do PCB). Ativo no movimento estudantil até 2016, hoje atua no movimento sindical e na área da educação popular. Mestre em serviço social, atualmente é professor de história, mantém um canal no YouTube e participa do podcast Revolushow. Segue militante do PCB. Escreve para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

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