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Brasil: a catástrofe (parte 1)

Em última instância, o excesso de poder constitui um dos próprios fundamentos do movimento da catástrofe brasileira encenada pelo governo Temer e herdada hoje pelo patético (e sinistro) governo Bolsonaro.


Do Blog da Boitempo, 18 de Junho, 2019
Por Giovanni Alves.


A palavra catástrofe significa em grego, katastrophe, “fim súbito, virada de expectativas”, de kata-, “para baixo”, mais strophein, “virar”. Esta palavra teve a sua origem no teatro, no antigo drama grego. Katastrophe era o momento em que os acontecimentos se voltavam contra o personagem principal, num movimento feito pelo coro inteiro no teatro. A década de 2010 foi um década catastrófica para o Brasil. Literalmente ocorreu uma “virada para baixo”.

No caso particular do Brasil, a virada de expectativas representou os limites do neodesenvolvimentismo e o esgotamento da conciliação de classe do lulismo na perspectiva da projeto do desenvolvimento capitalista com inclusão social dos pobres e bem-estar social. Enfim, a “virada de expectativas” teve andante con brio com o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff em 31 de agosto de 2016. Na verdade, ele foi resultado de um notável golpe jurídico-político operado pelas classes dominantes com apoio da grande mídia (rádios, jornais e TV’s) conduzida pela TV Globo e das principais instâncias dos poderes da República e do aparelho de Estado: o Poder Executivo na pessoa do vice-presidente da República Michel Temer e seu partido, o PMDB; o Poder Judiciário na figura do colegiado do STF e da Operação Lava Jato (conduzida pelo juiz Sérgio Moro); o Poder Legislativo sob a presidência do Deputado Federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

O impeachment de Dilma foi um golpe de mestre (golpe “branco” ou golpe jurídico-político), cuja eficácia se deveu à sua aparência de expressar o pleno – de jure et de facto – funcionamento das instituições democráticas. Diriam os juristas: ubi societas, ibi jus (onde está a sociedade aí está o direito). O golpe de 2016 foi a prova cabal de que os classes dominantes na América Latina desenvolveram uma tecnologia inédita capaz de “derrubar” governos democrático-populares sem precisar das Forças Armadas, como ocorreu no ciclo histórico passado das intervenções militares. Eis o progresso da tecnologia da dominação imperial: da manu militari à mens legis.

No teatro da catástrofe brasileira tivemos ainda a presença de outras instâncias do aparelho de Estado dando apoio – na forma da lei – à destituição da Presidenta eleita do PT pelo voto popular: a Procuradoria-Geral da Republica, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, cada um contribuindo, no seu papel institucional, para a “armação” jurídico-política do impeachment.Definitivamente, o Estado brasileiro enquanto representação material do Poder da classe dominante “cuspiu” ipso jure, respeitando a institucionalidade democrática, o governo petista e seu projeto político de conciliação de classe, que representava a frente política neodesenvolvimentistas. Dura lex sed lex.

O Brasil é um país amnésico. Lutar contra o esquecimento é um ato revolucionário no Brasil. A votação do impeachment que cassou o mandato popular de Dilma Rouseff (PT) ocorreu em votação no plenário do Senado Federal em 31 de agosto de 2016. Esta data deve sempre ser lembrada, assim como o 31 de março de 1964 (o dia do Golpe Militar) e o 17 de dezembro de 1989 (o dia do Golpe Midiático das Eleições Presidenciais que elegeu Collor de Mello). Mas o impeachment de Dilma foi apenas o allegro con anima do processo espetacular do novo tipo do Golpe de Estado, que foi tecido pouco a pouco, pelo menos desde 2013, por meio do intenso processo de (de)formação e manipulação da opinião pública pelas redes sociais; a reiteração cotidiana do ódio de classe (contra o PT) por parte das classes dominantes com seus aparelhos privados de hegemonia (TV Globo et caterva; rádios e jornais de grande circulação; e Igrejas, principalmente as neopentecostais, verdadeiros currais eleitorais de exploração do reacionarismo das criaturas aflitas do povo brasileiro); as movimentações fraudulentas do Ministério Público, do STF e do Poder Judiciário (com a Operação Lava-Jato); e as negociatas no Congresso Nacional sob a condução do Deputado Federal Eduardo Cunha (PMDB) em conluio com o Vice-Presidente da República, Michel Temer (PMDB), o herdeiro do Golpe.

A estratégia de subjetivação do antipetismo foi outro golpe de mestre das classes dominantes brasileiras que explorou em demasia a miséria espiritual do neodesenvolvimentismo numa conjuntura histórica de crise do capitalismo neodesenvolvimentista. A ação politica das classes dominantes e suas personas políticas teve como lastro material o intenso processo cumulativo de imbecilização planejada das massas médias e populares, visando explorar sistematicamente uma característica profunda das sociedades dependentes subssumidas historicamente à cultura liberal e carentes da modernidade capitalista: a falta de consciência crítica (de classe) e a ignorância política como produto da reiterada despolitização operada na pseudo-concreticidade da vida cotidiana.

No auge da era dourada do neodesenvolvimentismo (2003-2010), o sociólogo Francisco de Oliveira denunciou o totalitarismo neoliberal, o desmonte do mundo do trabalho, o impasse estrutural do país-ornitorrinco (2003), a era da indeterminação (2007) e a hegemonia às avessas(2010). No livro Brasil: uma biografia não-autorizada (Boitempo, 2018), Chico de Oliveira, interprete do Brasil, dá “o adeus do futuro ao país do futuro” – e Jair Bolsonaro nem tinha sido eleito ainda…

Portanto, ao fardo histórico da miséria brasileira, aprofundado nos 20 anos de ditadura militar (1964-1984), adicionou-se o totalitarismo neoliberal da década de 1990, com o desmonte do mundo do trabalho organizado (a reestruturação produtiva), a nova hegemonia cultural com o espírito do toyotismo alavancando a “captura” da subjetividade pelo capital, os valores do individualismo e da concorrência no seio de uma sociedade civil historicamente débil na sua subjetivação de classe. Entretanto, contra tal processo biopolítico de dominação neoliberal, o partido político de esquerda (PT) que se dispôs a mudar o Brasil, nada fez efetivamente, optando por administrar (governar) – e, em última instância, conservar – o ethos da ordem burguesa.

No processo necessário de autocritica visando identificar as causalidades históricas da catástrofe do Brasil, temos salientado como falta crucial – literalmente – o desprezo que as forças políticas protagônicas de esquerda tiveram pela luta ideológica, impedindo a construção na sociedade civil de aparelhos hegemônicos capazes de disputar corações e mentes para a perspectiva política e social da democratização radical do Estado brasileiro ampliado (sociedade civil e sociedade política). O partido protagônico da esquerda brasileira reduziu-se a construir projetos de governo e disputar eleições, faltando-lhe efetivamente um projeto político de poder necessário para fazer o previsível enfrentamento – mais cedo ou mais tarde – contra os donos do poder burguês (ou será que Lula e os lulistas, por exemplo, acreditavam que o processo histórico de mudança social num país de extração escravista-colonial seria feito… com “paz e amor”?).

Uma parte significativa do campo progressista (e da esquerda brasileira), com o PT representando o “gosto médio” do progressismo brasileiro (difuso ou ideológico), possui uma mentalidade conservadora, embora não reacionária. Nesse caso, deve-se distinguir “conservadorismo” – no sentido dos valores da Família e da Tradição – de puro “reacionarismo”. No Brasil, os liberais sempre foram conservadores – inclusive liberais de esquerda que habitam, por exemplo, os partidos da ordem democrático-progressista como o PT. Na verdade, é possível ser, ao mesmo tempo, de esquerda, liberal e conservador no que diz respeito aos valores da ordem ético-moral burguesa. Mas, a alma tradicional do povo brasileiro (e o espírito das camadas médias no Brasil) é em sua maioria, conservadora, preservando os valores da família, da tradição…e da propriedade (embora em sua larga maioria, sejam despossuídos). Como líder carismático, Lula (o último dos moicanos carismáticos da politica brasileira) soube interpretar, com sua inteligência política, a etica católica e o espírito do capitalismo brasileiro – sem renegar, of course, o compromisso com o progresso social (a inclusão dos pobres na ordem burguesa idealizada).

Entretanto, com a crise estrutural do capital e os desvarios do capitalismo global a partir da década de 1990, houve uma mudança sutil de registro ideológico da dominação burguesa na terra brasilis. O Brasil neoliberal entrou numa era de profundas mudanças sociometabólicas do poder burguês. A partir do crash financeiro de 2008, as classes dominantes reforçaram o movimento ideológico para além do conservadorismo tradicional que caracterizava outrora a direita liberal.

O apodrecimento intelectual-moral da ordem burguesa fez com que o neoconservadorismo e as politicas de subjetivação reacionária adquirissem um novo protagonismo político. No caso do Brasil, foi na década de 2010 que a direita “saiu do armário”, como se diz. A classe dominante atemorizada com o alavancamento das contradições sociais impulsionadas pela politica neodesenvolvimentista no Brasil, e ameaçada pela crise estrutural do capitalismo brasileiro, investiu – eis a palavra – no conservadorismo reacionário. A falência da direita tradicional expressou-se, por exemplo, na débacle do PSDB e do PMDB como partidos da tradição politico-oligárquica no Brasil. Tal fato politico demonstra que a administração da ordem burguesa caduca acolheu para si – pero no mucho – o discurso da extrema direita, a verdadeira herdeira do golpe de 2016 (mutatis mutantis, observamos o protagonismo da extrema direita também nos EUA e na Europa, demonstrando que trata-se de um fenômeno politico – e cultural – da crise do capitalismo global). É o discurso delirante da extrema direita brasileira que opera aqui aquilo que o capital articula no mundo por conta de sua crise estrutural: o rebaixamento civilizatório como a nova razão do mundo.

Desde 2015, o Brasil vive uma crise histórica inédita (em 2015-2016 uma das maiores recessões da economia brasileira desde 1930). Não se trata de uma crise conjuntural do capitalismo brasileiro, mas sim de uma crise estrutural do Estado burguês e da economia capitalista brasileira. Não se trata da mera crise da economia ou do modelo de desenvolvimento como supõe os economistas de plantão ou os políticos de esquerda de ocasião, mas sim, de uma crise estrutural do Estado burguês no Brasil.

Não se trata de crise de hegemonia do poder capitalista pois isto implicaria considerar que a classe dominante teria seu poder ameaçado. O que se passa é justamente o contrário: a crise diz respeito ao excesso de poder da classe dominante oligárquica, os verdadeiros donos do poder do Estado brasileiro. O estupro verde-amarelo da democracia “de fachada” em 2016 permitiu afirmar o excesso ontogenético da formação social capitalista de extração escravista-colonial. Ao golpearem partidos de esquerda e debilitarem movimentos sociais, a classe dominante – com Temer e Bolsonaro – gozam com o excesso de poder.

Em última instância, o excesso de poder – decorrente daquilo que denominei alhures, “pulsão golpista” – constitui um dos próprios fundamentos do movimento da catástrofe brasileira que descrevemos acima – catástrofe esta encenada pelo governo Temer (2016-2018) e herdada hoje pelo patético (e sinistro) governo Bolsonaro.

Ao “fechar” o processo do Golpe de 2016, a eleição de Jair Bolsonaro para a presidência da República em 2018 inaugurou a novíssima velha República, cuja missão histórica, dada pela classe dominante, é dar prosseguimento – com a insana e delirante “legitimidade” do voto popular (atiçada pelo afeto do anti-petismo) – à profunda reforma estrutural do capitalismo brasileiro, iniciada por Michel Temer (vide a “Lei do Teto” e a Reforma Trabalhista). O próximo passo é a Reforma da Previdência e, quiça, a Reforma Tributária – movimentos contingentes necessários, mas deveras incertos para a classe dominante que não controla completamente os demônios liberados da caixa de Pandora do Golpe de 2016 e a eleição de Bolsonaro. Como capital, a burguesia é um “sujeito cego” ou “sujeito ausente”, embora consciente – na sua inércia – de seus interesses (anti)históricos.

A crise brasileira é uma crise de civilização, complexa e desigual no seu registro histórico, representando em si, o acúmulo de contradições que demarcaram, no decorrer do tempo, a evolução social, econômica e política do Brasil, pelo menos desde o golpe de 1964. A análise crítica rigorosa exige ir além da imediaticidade tão comum nas análises de conjuntura política da esquerda jornalistica de plantão. Enfim, não podemos reduzir a crise brasileira ou a catástrofe do Brasil à sua dimensão meramente política, como fazem alguns intérpretes da cena brasileira (tal como a direção hegemônica do PT, que chega a interpretar o Golpe de 2016 como… mera traição de ex-aliados).

Numa primeira abordagem mais aprofundada da catástrofe brasileira, verifica-se que existe sim uma linha de continuidade deveras problemática entre a “herança maldita” da ditadura militar (1964-1984) e os limites/impasses, paradoxos e contradições da dita “Nova República” (1988 a 2016).

Por “Nova República” identificamos o período histórico iniciado com a Constituição de 1988 e concluído com o Golpe de Estado de 2016. A “Nova República” foi um tempo histórico de ilusões democráticas e lutas de classes (e disputa entre frações de classe da burguesia) travadas no interior do arco da institucionalidade política – o dito “Estado democrático de direito”, que com o fardo do tempo histórico, caducou, apodreceu e rompeu-se na medida em que foi tensionado pela crise da economia e as demandas de reforma social que estavam na base do projeto neodesenvolvimentista, incomodando interesses históricos da oligarquia financeira, dona do poder no Brasil.

Como dissemos acima, foi o processo do Golpe que operou em 2016, o impeachment de Dilma e prosseguindo, a prisão de Lula (em 2018), semeando – com o antipetismo vociferante – um herdeiro verdadeiramente bizarro, mas à altura da estirpe das classes dominantes brasileira: Jair Bolsonaro, o primeiro Presidente da Novíssima Velha República. Foi o “Estado de exceção” de Michel Temer – o presidente do Golpe de 2016 – que deu origem à “Exceção de Estado”, mero simulacro do saudoso (e estranho) “Estado democrático de direito” da Constituição de 1988. Bolsonoro é o “demônio” bizarro da caixa de Pandora da politica da burguesia caduca no Brasil. De fato, Bolsonaro é meramente a representação política da profunda podridão do Estado brasileiro ampliado (sociedade civil neoliberal e sociedade política oligárquica).

Mas seria pura ingenuidade atribuir ao “Coiso”, o Mal em si e para si – embora sua imagem expresse a marca da Maldade. Por trás dele, há o Inominável, aquilo que não pode ser nomeado, mas que está oculto no discurso politicista e que se manifesta como algo ideologicamente etéreo nos humores do mercado: a classe dominante, a burguesia rentista-parasitária, que aparece como tal ente indeterminada é o agente invisível dos movimentos sinuosos da catástrofe brasileira.

Entretanto, retornemos à reflexão ensaística sobre os fundamentos histórico-materiais da catástrofe do Brasil decorrentes da crise (e colapso) estrutural do desenvolvimento brasileiro. É tolice imaginar que a catástrofe brasileira se explique apenas por si mesmo, como se o Brasil fosse um país isolado do resto do mundo.

A causalidade histórica primeira da catástrofe brasileira está no big crash na economia dos países capitalistas centrais em 2008, que provocou no coração financeiro do sistema mundial do capital, um crack comparável ao da crise de 1929. A big recession que atingiu os EUA, a União Européia e o Japão foi seguida por politicas monetárias coordenadas entre os Bancos Centrais do centro capitalista que impediram o pior para o sistema do capital. Na verdade, desde 2008, a economia capitalista central recuperou o crescimento, embora a taxas inferiores de PIB àquelas anterior ao big crash – o que demonstra que há algo de podre no reino do capital. Presenciamos nos últimos dez anos, uma longa depressão do capitalismo global, marcado por candentes disputas geopolíticas entre blocos de poder no cenário mundial (EUA versus China/Rússia). Discutimos isso num artigo de 2018 aqui no Blog da Boitempo.

A big recession e a longa depressão do capitalismo global teve impactos extensos na primeira metade da década de 2010, atingindo, por exemplo, o crescimento da China, o carro-chefe do ciclo de expansão das economias periféricas exportadoras de commodities na década de 2000 (entre elas, o Brasil de Lula e Dilma). Portanto, o big crash não foi apenas “uma marolinha” (como imaginou, por exemplo, o Presidente Lula em 2010). A década de 2010 seria seria uma década de “acerto de contas” radical entre o capitalismo neoliberal e os projetos desenvolvimentistas da América do Sul.

O “gatilho” da catástrofe brasileira foi a crise da economia brasileira em 2013, quase a crônica de uma morte anunciada do projeto do neodesenvolvimentismo. Mas o “gatilho” disparou o mecanismo dos limites irremediáveis do neodesenvolvimentismo diante da crise estrutural do capitalismo brasileiro e, por conseguinte a débacle da “Nova República”.

A função da crise que caracteriza o movimento do capital, é operar – de modo catastrófico -a adequação entre o ideal e o real. A partir da adequação catastrófica, o movimento do capital traz à tona, a verdade do Real ou a miséria brasileira hic et nunc. A crise brasileira desde o Golpe de 2016, como adequação catastrófica ao capitalismo brasileiro como ele é, manifesta-se hoje como crise político-institucional e crise de reprodução social da civilização brasileira.

A catástrofe brasileira se manifesta no decorrer do fardo do tempo histórico como crise histórica complexa, cujos desvarios da conjuntura expõe com mais vigor o que suspeitávamos há tempos: crise cultural, crise de sociabilidade e crise ecológica. A questão é saber se não ocorreu um salto qualitativo da crise ao colapso, na medida em que a dialética como lógica da vida histórica, opera com movimentos de quantidade e salto de qualidade.

Teria a miséria brasileira, identificada por vários interpretes do Brasil (entre eles, Francisco de Oliveira e José Chasin, por exemplo), chegado ao seu limite histórico, devendo deste modo, estender-se por uma larga temporalidade de barbárie social em plena (e sinistra) sintonia com a crise estrutural do capitalismo global no século XXI?

Pergunta-se ainda: seria válido utilizar nas nossas análises prospectivas do Brasil, parâmetros do passado, baseados em ilusões políticas do desenvolvimentismo histórico, hoje não-adequados às novas condições materiais de crise de civilização do capital no Brasil (o que se manifestam no colapso do Estado brasileiro)?

Em linhas gerais, alguns dados configuram evidências que não podemos mais negar: o Brasil envelhece demograficamente, o que deve alterar a médio e longo prazo, a estrutura e dinâmica social do nosso país. Assistimos na década da catástrofe brasileira ao fim do otimismo demográfico. No futuro imediato – e não distante – o Brasil – no aspecto sócio-demográfico – será muito diferente daquele país das gerações passadas e do Brasil tal como o conhecemos. Coloca-se no horizonte desta geração, desafios estratégicos para o Estado brasileiro e sua débil capacidade de investir em educação e saúde pública num cenário de proliferação de doenças cronicas que expõem as fragilidades sociais historicamente cumulativas.

Por exemplo, no começo da década de 2010, anda sob o frescor dos anos dourados do neo-desenvolvimentismo, pesquisadores vislumbraram problemas candentes com respeito a situação epidemiológica brasileira Disse Eugênio Vilaça Mendes no estudo “O Cuidado das Condições Crônicas na Atenção Primária à Saúde: O Imperativo da Consolidação da Estratégia da Saúde da Família”:

“A situação epidemiológica brasileira traz consigo uma epidemia oculta, a das doenças crônicas. A taxa de mortalidade padronizada por idade por doenças crônicas no Brasil, em pessoas de 30 anos ou mais, é de 600 mortes por cem mil habitantes, o que representa o dobro da taxa do Canadá e 1,5 vezes a taxa do Reino Unido. Como consequência, estima-se que morram, a cada dia, no Brasil, mais de 450 pessoas, somente em decorrência de infartos agudos do miocárdio e acidentes vasculares encefálicos. Pode-se afirmar que o Brasil apresenta um processo de envelhecimento de sua população e uma situação de transição epidemiológica, caracterizada pelo […]aumento relativo das condições crônicas [de adoecimento].” (O grifo é nosso).

Obviamente, o pesquisador não abrangeu nas suas considerações epidemiológicas, os transtornos mentais, um universo de adoecimento quase desconhecido para as politicas públicas de saúde no Brasil.

Na verdade, o desprezo pela saúde mental é um traço estrutural da sociedade brasileira (o que talvez explique os sinistros fenômenos de loucura coletiva de camadas médias e populares e o aumento exponencial – sub-notificado – de casos de depressão, ansiedade e síndrome de pânico dos últimos anos). Face ao adoecimento mental, as pessoas recorrem às Igrejas, álcool e/ou às drogas psicotrópicos ou psiquiátricas. Um detalhe: a 1ª Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora da CUT, a maior central sindical brasileira, só foi ocorrer em abril de 2014 – depois de pouco mais de dez anos de governos do PT.

O Brasil há décadas se desindustrializa e corrói as bases do crescimento do PIB e do desenvolvimento capaz de gerar recursos – emprego e renda – para a sua população e capacidade fiscal para o Estado, obrigando, deste modo, o sucateamento das condições de educação e saúde pública e a própria capacidade de investimento público.

O Brasil promove peremptoriamente, há décadas, o colapso do meio-ambiente que se expressa, por exemplo, na diminuição das mantas vegetais nativas, na degradação da água, dos solos e insegurança alimentar, na proliferação do lixo, na intoxicação industrial, no predomínio de combustíveis fosseis e a regressão ao carvão, contribuindo, deste modo, para mudanças climáticas, o colapso da biodiversidade terrestre e a biodiversidade do meio aquático.

A falência ético-política e orçamentária do Estado brasileiro, corrompido nas suas entranhas politicas e sucateado na sua capacidade de investir e atender aos direitos da cidadania tendo em vista o aumento no pagamento e serviços da dívida pública, faz com que o poder público recue, fazendo avançar nas principais metrópoles do País, os negócios do crime organizado. É a ausência do Estado como ente moral de organização do território e regulação da sociabilidade publica que para o protagonismo das milicias (ou gangues) que dominam, por exemplo, territórios da cidade do Rio de Janeiro.

Com a catástrofe da década de 2010, a classe dominante ontogeneticamente liberal-escravista, instaurou a “guerra civil permanente” contra os pobres. A pobreza ampliada nas metrópoles contribui para alimentar a indústria da criminalidade e da ilicitude. Ao mesmo tempo, a retomada do ultraliberalismo dos governos pós-golpe e a liquidação do fundo público, tornam inviável o que é insustentável – numa perspectiva estratégica: a ordem burguesa brasileira.

Enfim, presenciamos desde 1989 – pelo menos – no seio do movimento histórico da Nova Repúblico, a progressividade do Mal no sentido da necrose político-intelectual do Estado brasileiro, entendido de forma ampliada como sendo sociedade civil e sociedade politica. A profunda crise do Estado capitalista no Brasil é a raiz da insatisfação social candente que – ela própria – serve como matéria das políticas de “ódio ressentido de classe” de cunho neofascista. Eis o circuito vicioso da catástrofe brasileira, que tem no neofascismo do conservadorismo reacionário à la Paulo Guedes – por exemplo, imagem e semelhança da inominável burguesia brasileira financeirizada e com complexo de vira-lata.

Nos interroguemos: a modernização conservadora esgotou-se? Por exemplo, Robert Kurz nos idos de 1991, proclamou – depois da queda do Muro de Berlim e do fim da URSS – o “fracasso da modernização”. Poderíamos proclamar hoje – depois do Golpe de 2016 e a nova fase do capitalismo global – o fim da “modernização conservadora”, cuja ultima estação foi o neo-desenvolvimentismo?

* * *

Nesta pequena série de artigos intitulada “Brasil: a catástrofe”, buscaremos provocar perguntas capazes de vislumbrar as novas tendencias de desenvolvimento histórico do capitalismo no Brasil. Tornou-se lugar-comum dizer que o mais importante (e mais difícil) não é encontrar a resposta correta, mas sim, fazer a pergunta certa. O filosofo francês Voltaire (1694-1778), por exemplo, afirmava que “um homem deve ser julgado mais pelas suas perguntas do que por suas respostas”. Na verdade, a ideia é convocar a perspectiva histórico-materialista para fazer as devidas perguntas sobre as possibilidades efetivas do Brasil ir além da sua catástrofe.

Enfim, a função do intelectual é refletir sobre as condições da futuridade. A sociedade brasileira é profundamente anti-intelectual, pois carrega em si, o traço do afeto conservador que nãoquestiona (com radicalidade) o estabelecido. Na melhor das hipóteses, procura conciliar o establishment da ordem burguesa com o desejo da justiça social. A esquerda chic de classe média divaga no mundo do desejo. A função social do intelectual orgânico incomoda profundamente a ordem burguesa caduca, na medida em que ela própria – enquanto establishment que se reitera de modo antirreflexivo – é incapaz de realizar em si e para si, a futuridade.

Karl Marx nunca foi tão atual pois sob o movimento do capital, “tudo que é sólido se desmancha no ar” – ou seja, não há nada a que se agarrar, inclusive às fundamentações que ordenavam a realidade dos projetos histórico-políticos do desenvolvimentismo (com bem-estar social) nos marcos da ordem burguesa – principalmente no caso das sociedades do capitalismo dependente. A filosofia moderna afirmou que “Deus está morto” (Nietzsche). Diríamos que a “morte de Deus” não representa apenas que o presidente da República do Brasil delira quando afirma “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, mas que o fundamento que ordena a realidade (“Deus” para uns, o desenvolvimento capitalista com bem-estar social, para outros) não existe mais (se é que existiu – pelo menos desde a grande crise de 1973).

O que significa que estamos à deriva, sendo o delírio – à esquerda e à direita – a resistência cognitiva de reconhecer a catástrofe da inexistência do fundamento. De certo modo, a catástrofe exige de nós, como valor moral, a coragem da desesperança (como diria Slavoj Žižek, parafraseando Giorgio Agamben que disse certa vez que o “o pensamento é a coragem da desesperança”). Entretanto, a deriva do fundamento pode ser emancipadora pois nos faz lutar – no plano do pensamento – contra o que os outros erigem com seus afetos e desejos.

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Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Marília. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET), do Projeto Tela Crítica e outros núcleos de pesquisa reunidos em seu site giovannialves.org. É autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000) e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo Editorial, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

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