Pages

“BOLSONARO ROUBA O NOSSO CAMINHO, ISSO É O ÚLTIMO GRAU DA PSICOPATIA”, DIZ PSICANALISTA AMNÉRIS

Do Brasil 247, 2 de Junho, 2019

Professora da área de psicanálise da Unicamp, Amnéris Maroni participou como palestrante no 3º Encontro de Assinantes do 247 em Porto Alegre e explicou como funciona uma mente fascista; segundo ela, Bolsonaro tem uma das características mais graves de um psicopata: roubar caminhos; "Não recomendo falar com um fascista, você vai ficar sem um pedaço de você, e isso é irreparável"; já a mente de Lula, diz, é o oposto: povoada; assista

247 - A professora da área de psicanálise da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Amnéris Maroni, dissecou, no 3º Encontro de Assinantes do 247, em Porto Alegre, o funcionamento de uma mente fascista. Ela se baseou no psicanalista Christopher Bollas para explicar o "modus operandi" dos fascistas e afirmou que o presidente Jair Bolsonaro tem a pior das características de um psicopata.

Amnéris explicou, primeiramente, o funcionamento de uma mente sã, e usou o ex-presidente Lula como exemplo. "O que é uma mente mais ou menos normal e sã? É uma mente povoada, mas tem muitas possibilidades objetal na mente, então ela é muito povoada, tem pontos de vista contraditórios, tem conflitos, então uma mente povoada é aquela que pode reconhecer o conflito fora porque ela tem o conflito em si mesma. Uma mente povoada gosta de ganhar mais objetos internos, vou objetalizando e, quanto mais eu objetalizo, isso significa uma grande pulsão erótica porque só objetaliza quem tem eros e significa uma possibilidade de uma discussão infinita com você mesmo. A forma mais interessante de pensar é a livre associação, é aquele que todos os dias consegue falar: 'Eureka! Descobri isso! Tive um insight!', isso é muito comum na sala de psicanálise mas eu acho que uma mente povoada descobre, tem acontecimentos internos o tempo todo. O Lula tem uma mente muito povoada porque ele muda, porque ele se sofistica, porque ele se refina e tem muitos insights, isso é a escala máxima".

Em contrapartida, a professora esclareceu que a mente fascista faz o processo contrário, desobjetalizando os objetos que tem. "O que é a mente fascista? A mente fascista faz o movimento contrário, ela é cheia de ódio então ela desobjetaliza, ela se torna imperial, essa é a diferença que o Christopher Bollas entre uma mente democrática parlamentar e uma mente fascista. A mente fascista é muito empobrecida porque ela desobjetaliza os poucos objetos que ela tem, a pouca discussão interna que ela tem ela vai, ao longo do tempo, desobjetalizando, é de uma pobreza muito grande. A minha discussão é: podemos conversar com um fascista? Eu acho que não podemos conversar com um fascista, não com os bolsominions, mas com fascista mesmo, como é o caso da coisa lá sentada, não dá para conversar, por que? Porque ele não tem pontos de vista contraditórios internos, ele não vai alcançar se você tiver uma posição contrária a ele".

Amnéris Maroni também trouxe à discussão a comparação entre uma mente fascista e um campo de concentração feita por Bollas. "A segunda que o Bolla nos coloca: se vocês quiserem saber o que é a mente fascista, pensem em um campo de concentração. Um campo de concentração tem mortos-vivos, foram transformados em mortos-vivos, é assim que é a mente fascista, eles não produziram fora o que eles não têm dentro, pelo contrário, produziram fora o que têm dentro, são pobres, muito miseráveis, desobjetalizados e muito ódio porque para produzir a desobjetalização é preciso muito ódio. O que o Bollas coloca é esse espelhamento entre o campo de concentração e a mente fascista".

A psicanalista ressaltou também a diferença entre razão e o "pensar" e voltou a usar Lula como exemplo de mente que pensa. "Quando a gente está em um Estado fascista como o nosso o objetivo é mais do que vender o Brasil, é nos transformar em algo que não somos, em inumanos, por que? Porque o humano pensa, é a qualidade do humano. O que significa pensar? Ter a mente povoada, pensar é ter insights, pensar é fazer eureka, pensar é fazer associações livres e descobrir coisa, pensar é diferente de razão, razão está na universidade, é projeto científico, é o máximo da razão, isso não é pensamento. Tenho muitos colegas da Universidade de Campinas que não pensam nada, porque são de direita inclusive, e é possível encontrar muitas pessoas simples, simplíssimas, que têm pensamento. O Lula é um exemplo de qual podemos nos orgulhar, tem muito pensamento e não tem o projeto científico, não é razão, é pensamento, precisa ter essa mente povoada para pensar. O projeto dos fascistas realmente é levar para o inumano porque eles são, são essa mente objetalizada e empobrecida".

Amnéris disse que mesmo não sendo fascistas, todos têm defesas fascistas na mente, porém, a diferença é que fascistas não são capazes de se desvencilharem disso para repararem seus erros. "Vou falar do terceiro ponto que nós todos podemos também nos espelhar, o que o Bollas diz é que caminhamos em uma escala, sinto muito avisar, nós também temos defesas nazistas, fascistas, nós também, só que o que a gente faz, que é povoado? 'Nossa, o que eu fiz ontem?', volto e peço desculpas, volto e reparo, reponho minha mente povoada. O que faz um fascista? Ele vai até o fim nas defesas mas ele não tem como retornar, a mente fascista mesmo não retorna para o povoado, a nossa vai para o fascismo e volta, temos ataques de fúria, narcísicos, cá e lá falamos o que não devemos, mas a gente volta e repara, eles não".

Segundo a professora, as defesas fascistas são a negação, duplicação de personalidade e a introjeção extrativa. Esta última, de acordo com a psicanalista, é a mais grave delas, característica do último grau de psicopatia e é característica de Bolsonaro. "A terceira característica são as defesas, que tipo de defesa a mente fascista tem? Algumas defesas são claramente psicopatas e perversas, que nós temos de vez em quando, mas não usualmente. A mente fascista nega, nega muito. A defesa principal da mente fascista é a negação. A segunda grande defesa é a duplicação da personalidade, nós podemos fazer com a nossa mente coisas terríveis dependendo de como vamos caminhando pela vida nós podemos, podemos nos duplicar. Outra defesa que é nossa, mais comum, defesa neurótica, você expele para fora aquilo que você não gosta dentro de você, tudo que é indigesto você evacua e fica só com o bom, isso é uma defesa comum, neurótica, que cá e lá nós fazemos. A defesa mais grave é a que o Bollas chama de introjeção extrativa, é uma defesa letal que só psicopata tem estruturado. O Bolsonaro tem essa defesa estruturada, o que o Bolsonaro faz é roubar o nosso caminho, o nosso caminho como nação, ele vai lá e rouba tudo que ele pode, isso é uma defesa muito letal que só psicopata tem, é o último grau da psicopatia, o roubo de caminho e parte do psiquismo. Por isso eu não recomendo falar com um fascista, porque você vai ficar sem um pedaço de você, e isso é irreparável".


Inscreva-se na TV 247 e assista à entrevista na íntegra:


Nenhum comentário:

Postar um comentário