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Dia do Trabalho: centrais sindicais se unem contra ‘uberização’

DA Carta Capital, 1 DE MAIO DE 2019Por THAIS REIS OLIVEIRA

Contra Previdência e ataques do governo, sindicatos celebram a data sob um mesmo palanque pela primeira vez
Protagonista da retomada democrática pós-64, o movimento sindical brasileiro chega às portas da segunda década do século XXI com vários desafios a enfrentar. Terá que resistir em um cenário de desemprego e informalidades explosivos, e sob a aba de um governo que torce o nariz a qualquer sinal de organização — ou, nas palavras dele próprio, ativismo.

O primeiro e mais importante desses obstáculos é a reforma da Previdência. Pela primeira vez, as centrais sindicais vão celebrar o 1º de Maio sob um mesmo palanque no centro de São Paulo, unidas contra o projeto. Na mira, uma esquenta para uma greve geral programada para o dia 14 de junho.

Desde os anos 90, CUT e Força Sindical atuam em fronts distintos do chamado ‘sindicalismo de resultados’ — a segunda, aliás, foi fundada de um ramo divergente da primeira. A reforma da Previdência se converteu em oportunidade para trabalhar em parceria, sob uma pauta que interessa a todos os trabalhadores de um mercado cada vez mais caótico e inseguro.

Enquanto a indústria encolheu, a economia uberizada se converteu na maior empregadora do país. Um levantamento do Instituto Locomotiva mostrou que a os aplicativos como Uber, Rappi e iFood viraram fonte de renda para 5,5 milhões de autônomos.

Se, por um lado, esse cenário põe os sindicatos em uma crise existencial aguda, de outro evidencia a importância de manter trabalhadores unidos coletivamente. É preciso organizar os desorganizados e reconstruir a solidariedade de classe. Estão em jogo interesses que extrapolam o horário de expediente.

“Somos iludidos pela ideia de que a uberização é o melhor dos mundos, que nos garante autonomia e liberdade, que através desse modelo nos convertemos em ‘patrões de nós mesmos’. Mas essa é uma falácia, pois nos tornamos cada vez mais desprotegidos e vulneráveis”, diz Andreia Galvão, professora do departamento de Ciência Política da Unicamp.

Soluções em caixa


O outro problema em comum é financeiro. O corte repentino do imposto sindical afetou especialmente as centrais e federações, que tem nessas contribuições o principal sustentáculo financeiro. De lá pra cá, a arrecadação caiu de forma brutal — um levantamento do Estadão mostrou que, sem o imposto, a arrecadação caiu de 3,64 bilhões em 2017 para 500 milhões em 2018.

Para o presidente da CUT, Vagner Freitas, o governo tenta quebrar o movimento pelo bolso porque não consegue enfrentá-lo politicamente. “Nesse cenário [de crise], qualquer 30 reais, 40 reais faz falta no fim do mês. Mesmo sabendo da importância dos sindicatos, se o trabalhador precisar cortar gastos, ele o fará com aquilo que não é emergencial”, disse em entrevista a CartaCapital no mês passado.

O governo Bolsonaro aprofundou essa crise ao empurrar para o Congresso a MP873. Desde o 1º de março, os sindicatos não podem mais descontar direto na folha a contribuição sindical e as mensalidades. Quem quiser contribuir terá que pagar um boleto, que custa nove reais por impressão.

“Como a medida provisória vale por 120 dias, o governo sufoca os sindicatos para eles não se organizarem contra a reforma. É uma medida pragmática, uma sacanagem contra o movimento sindical”, diz o economista José Dari Krein, professor da Unicamp e Pesquisador do Cesit (Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho).

Uma alternativa para o futuro é que a união das centrais sindicais não seja só ocasional. “A fusão de organizações poderia ser uma possibilidade”, sugere Andreia. Juntos, defende, esses sindicatos ganhariam base mais ampla, saúde financeira e mais poder para se aproximar dos desempregados, do precariado e do setor de comércio e serviços, hoje distantes dos sindicatos.

“A ideia de que nem o Estado, nem o sindicato, nem outra forma de organização coletiva resolve os problemas da sociedade estimula o salve-se quem puder e enfraquece a democracia. Mas a deterioração das condições de trabalho e de vida só pode ser combatida de forma política e coletivamente, de modo que o sindicato é mais do que nunca um ator fundamental”, completa.

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