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Poços, Último Beijo e as lembranças de Tereza

Do GGN, 27 de Abril, 2019
Por Luis Nassif



Estou na estrada rumo a Poços de Caldas. Logo mais estarei me apresentando no Flipoços, falando da Poços antiga que descrevo em parte da biografia de Walther Moreira Salles.

A viagem não me desperta lembranças das cenas históricas relatadas por Walther, dos namoros, das futuras cantoras célebres que se apresentavam no Gibimba, o mais famoso cabaré do Brasil. Nem mesmo nas estripulias de Getulio Vargas com Emme SImões Lopes, se embrenhando pelas matas da Cascata das Antas.

A lembrança que me invade é de dona Tereza e da Poços de Caldas fora da estação de turismo, a Poços da minha infância e dos melhores dias de minha m{até, dona Tereza das tiradas rápidas, cortantes, a proseadora que adorava parar de banca em banca no mercado municipal, para conversar com os feirantes, especialmente os de São Sebastião da Grama, sua cidade natal.


Quem experimentou a adaga cortante de sua ironia foi Cauby Peixoto, na época o maior fenômeno do rádio. Veio a Poços se apresentar e foi recebido no campo de aviação por um verdadeiro diretório municipal. Ao lado de meu pai, estava dona Tereza, se divertindo com o deslumbramento dos conterrâneos. Aliás, um dos orgulhos dos poços-caldense era o fato de, nos tempos do jogo, grandes artistas, políticos, o próprio Getulio, passearem pela cidade sem serem incomodados pelos antepassados dos selfies.

Cauby desceu do avião, encantando com a recepção. Cumprimentou os cavalheiros formalmente e, formalmente, beijou a mão das damas. Dona Tereza recebeu o cumprimento com ar divertido. Quando Cauby se dirigia à próxima madame, ela exclamou:

• Vou ficar uma semana sem lavar a mão!

Cauby voltou-se para ela, encantado com o elogio da mais bela das madames presentes. E deu de cara com o ar zombeteiro de dona Tereza e com os demais conterrâneos segurando para não rir.

Havia uma diferença grande dela com seu Oscar. Meu pai era o homem sociável de nascença. Tratava da mesma maneira os fregueses mais simples e as autoridades mais ilustres.
Dona Tereza tinha padrão diverso. Trate todas as pessoas de modo igual, dê consideração maior para os mais simples, mas não mostre intimidade com os mais influentes, porque pode parecer deslumbramento.

Logo que se casaram, minhas tias queriam transformá-lá em sócia do Country Club – uma imitação caipira do Rio – e colocá-la nas aulas de tênis. Na correspondência de noivado com seu Oscar, ela dizia, em estilo escorreito, para papai tirar o cavalinho da chuva. O que ela queria era ser sua parceira na vida, nos negócios, em tudo. Menos na parte social.

Dona Tereza tinha tudo para se tornar uma personagem notável. Conspiraram contra ela a saúde, precária, e o machismo muito forte em famílias mineiras, e em famílias libanesas. Meu pai não abriu espaço para ela. Sua missão cívica, então, foi criar filhos como bons cidadãos.

Aos cinco filhos, eu, mais velho, mais quatro irmãs adoráveis, passava diariamente o sentimento de brasilidade. Nas músicas, que entoava com voz límpida, nos desafios de vida e no rigor com que tratava a educação das meninas. E em um fora de época orgulho paulista, apesar da derrota acachapante de 32.

Criticava qualquer gesto mundano das meninas, como, por exemplo, se maquiar (!), aquelas adolescentes lindas e discretas. E, ao mesmo tempo, estimulava a leitura e as lições de vida: ser companheira dos futuros maridos, mas de modo alguém depender deles ou se deixar dominar.

As lições foram transmitidas de filhas para netas, moldando uma geração feminina à altura de dona Tereza.

Ao filho mais velho, a carga era um pouco mais pesada. Certa vez ganhei coragem e fui a um analista. Ele me perguntou o que minha mãe queria que eu fizesse na vida. Respondi-lhe: salvar o Brasil! Ele me olhou de um modo condoído.

Em São Paulo, no primeiro exame de saúde foi constatada o hipercolesterol que destruía seu organismo. Ganhou sobrevida de 14 anos graças ao dr. José Renato, na época um jovem cardiologista da equipe do grande dr. Sérgio, o notável especialista em pontes de safena.

Dona Tereza era um espírito tão extraordinário que, imediatamente, José Renato se candidatou a filho dela. Era encantado com a “dona Terezinha”. Mas tão encantado que não quis aceitar que dona Tereza estava com os dias contados. Eu estava em Blumenau quando recebi um telefonema de Fátima, minha irmã. Mamãe estava internada na Beneficiência. E, de uma das médicas, Fátima ouviu que ela estava em fase terminal.

Imediatamente telefonei para José Renato, que não quis aceitar:

• Dona Terezinha vai sair do hospital e ficar boa!

Não era o diagnostico de médico, mas a torcida do filho.

Faço uma pausa para externar minha suspeita e a da Eugenia de que o Spotify tem um espião. Enquanto escrevia, colocou Carmen Miranda para cantar a “Marchinha do Grande Galo”, com Carmen Miranda e o Bando da Lua. A Carmen que é personagem do livro e a música que dona Tereza cantava
Do seu repertório musical, ficaram muitas lembranças, as mais marcantes das quais algumas versões de “Último Beijo”, o de Zequinha de Abreu e o de Jorge Faraj e Roberto Martins.

Ah, como esse tema atormentou apaixonados, inspirou poetas e líricos, cruel como um romance sem final, uma paixão que não se completou.

Cada um tem uma história de amor incompleta. Mas, ouvindo as valsas, a saudade que me invade é a do beijo de minha mãe.

Último Beijo, Carlos Galhardo, de Jorge Faraj e Roberto Martins

Fundo de Jacques Klein em Último Beijo de Zequinha de Abreu
Roberto Fioravante


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