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O ritmo das dobras

Steve Reich nos lembra que dá para explorar o que para nós parecia impossível


Da Folha de São Paula, 12 de abril, 2019
Por Vladimir Safatle


“Quão pequeno o pensamento necessário para preencher a vida inteira. Tal como alguém que viajaria pelo mesmo país durante toda a vida achando não haver nada fora dele.” Este é um fragmento do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, posteriormente copilado no livro “Cultura e Valor”.

O compositor americano Steve Reich serviu-se da primeira dessas frases para compor uma peça para três sopranos, dois tenores, dois vibrafones e dois órgãos elétricos chamada “Provérbio”, gravada pela primeira vez em 1996.

A peça é um canon, ou seja, uma composição construída a partir de uma frase que entra em contraponto consigo mesma normalmente por meio de defasagens entre as vozes ou modificação de tempo e duração entre as vozes.

Suas linhas melódicas são inspiradas nas repetições das cantinelas e na música polifônica medieval (Pérotin).
Marcelo Cipis/Folhapress

Não deixa de ser ilustrativo que Reich parta de um conjunto de coro e percussão. Normalmente, o uso conjugado do coro e da percussão serve para salientar o caráter afirmativo, unitário e compulsório do que se deixa dissolver em uníssonos. O que explica seu uso preferencial em situações cívicas, religiosas.

No entanto, Reich era animado por um desejo de outra ordem. Trata-se de desdobrar um pensamento aparentemente pequeno a fim de que ele possa preencher uma vida inteira. Como uma espécie de mônada que contém em seu interior todo o mundo. Maneira de criar uma unidade a partir de um desdobramento incessante que parece se comprazer em eliminar o que se entendia até então por “limite”, pervertendo assim o lugar social do coro.

De fato, Reich havia seguido essa trilha desde seus primeiros trabalhos, quando era questão de pensar, como ele mesmo dizia, a “música como processo gradual”. Isso significava uma música que se estruturava por meio da modificação gradual dos limites de seu próprio material. Por exemplo, “Piano Phase” era uma música composta de uma frase simples paulatinamente defasada em contrapontos, levando o ouvinte a escutar a transformação gradual de sua estrutura devido a novas relações de pontuação e intensidade que necessariamente aparecem.

Dessa forma, o princípio minimalista de repetição não aparecia como um dispositivo de confirmação do que fora apresentado, mas como uma astuta estratégia de transformação por saturação e desdobramento do mesmo. A música estava então paralisada em um instante, mas este instante parecia ganhar vida própria, desdobrando-se até o ilimitado. Ela havia perdido seu “desenvolvimento”, mas isso apenas abria às portas para descobrirmos como uma vida inteira poderia ser preenchida por um só pensamento. Não um pensamento obsessivamente repetido, mas infinitamente desdobrado.

Esse desejo fez Steve Reich se abrir para matrizes não ocidentais de produção musical, em especial àquelas presentes em músicas modais africanas percussivas. Ele encontrou nas formas musicais africanas estruturas semelhantes de diferenciação gradual. Algumas dessas peças estão em um CD que sai nesta sexta (12): “Colin Currie & Steve Reich Live at Fondation Louis Vuitton” (Colin Currie Records).

Currie é um percussionista com sólido trabalho na música contemporânea. Em seu CD encontramos, além de “Provérbio”, trabalhos percurssivos de Reich como “Mallet Quartet”, “Pulse”, “Clapping Music” e “Music for Pieces of Wood”.

O CD é uma ocasião privilegiada para a compreensão das questões que, de fato, animaram uma trajetória musical singular, capaz de produzir obras significativas e suficientemente corajosas para procurar respostas aos novos caminhos da composição musical por meio da exploração do que para nós parecia impossível.

Vladimir Safatle

Professor de filosofia da USP, autor de “O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o Fim do Indivíduo”.

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