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O capitalismo está colapsando.

As pessoas querem empregos com salários decentes - por que isso é tão difícil?
O funcionamento do capitalismo foi contestado tanto pela direita populista quanto pela esquerda socialista. No cerne do descontentamento nos EUA estão os salários oscilantes.


Da carta Maior, 30 de Abril, 2019
Por Richard Reeves



Créditos da foto: Jovens estadunidenses e apoiadores do partido Democrata são agora mais entusiastas do socialismo do que do capitalismo. Ilustração de Lucy Jones para o Guardian EUA.

Antes do capitalismo havia o trabalho. Antes dos mercados, e antes mesmo do dinheiro, havia o trabalho. Nossos ancestrais mais remotos, ao caçar e coletar comida, quase certamente não viam o trabalho como uma parte da vida separada e compartimentalizada da mesma forma que vemos hoje em dia. Mas sempre tivemos que trabalhar para viver. Mesmo no século XXI, lutamos no trabalho em busca de nossos meios de vida, e é daí que vem a campanha para um “salário digno”.

Como espécie, gostamos de nos definir através de nossos pensamentos e sabedoria, como Homo sapiens. Mas poderíamos fazê-lo tão facilmente quanto através da forma como conscientemente nos esforçamos para atingir certas metas, através de nosso trabalho — como Homo laborans. Apesar disso, foram necessárias duas revoluções, uma agrícola e uma industrial, para transformar o “trabalho” em sua própria categoria.

O capitalismo industrial cortou e fragmentou o tempo humano em pedaços claramente demarcados, de “trabalho” e “lazer”. O trabalho foi então empacotado em uma das invenções mais importantes da era moderna: um emprego. Deste ponto em diante, a luta dos trabalhadores foi para encontrar um emprego que tivesse os melhores benefícios, especialmente em termos de salário, em troca dos mínimos custos impostos ao trabalhador, especialmente em termos de tempo.

Para Karl Marx, todo o sistema capitalista estava inelutavelmente armado contra os trabalhadores. Independentemente das pequenas vitórias dos sindicatos, o capitalista retinha o poder; o controle supremo sobre o tempo dos trabalhadores. E o trabalhador continuaria para sempre alienado de seu trabalho. A meta era afirmar a soberania sobre nosso próprio tempo, livres do controle temporal do capitalista, capazes de “caçar de manhã, pescar à tarde, cuidar do gado à noite, e criticar depois da janta”.

O problema com a alienação está longe de ser resolvido. Somente um a cada três trabalhadores estadunidenses diz que se sente “conectado” com seu trabalho. Mas em termos das condições materiais para a vida, durante um grande período da história econômica, o capitalismo foi bastante bom para os trabalhadores. Os salários subiram, as horas de trabalho diminuíram, a vida (em geral) melhorou. A pobreza global diminuiu pela metade. Como sistema econômico, o socialismo caiu em desgraça e, em grande parte, apesar da recente retórica da esquerda política estadunidense, continua a cair.

Há muitas variantes de capitalismo, é claro, desde o de bem-estar social da Escandinávia até o laissez-faire anglo-saxão e o estatismo de mercado chinês. Mas a tendência parece bastante clara. O capitalismo funciona. E funciona, o que é mais importante, para os trabalhadores.

Mas e agora? Durante a última década, a lógica dos mercados e o funcionamento do capitalismo foram intensamente questionados e confrontados, tanto pela direita populista quanto pela esquerda socialista. Jovens estadunidenses e apoiadores do Partido Democrata estão agora mais entusiasmados com o socialismo do que com o capitalismo (com diferenças de 6% e 10%, respectivamente). Candidatos importantes agora orgulhosamente se descrevem como socialistas — algo impensável alguns anos atrás (se de fato são socialistas de acordo com qualquer definição racional do termo é, evidentemente, uma outra questão).

Livros futuros de história podem começar um capítulo sobre a atual era com os eventos de 15 de setembro de 2008, quando o Lehman Brothers deu entrada no maior pedido de falência da história, com 639 bilhões de dólares em bens e 619 bilhões de dólares em dívidas. Ou talvez a data de início será três anos depois, em 17 de setembro de 2011, dois anos depois do fim oficial da recessão, quando centenas de manifestantes se reuniram no Parque Zuccoti em Manhattan para o “Occupy Wall Street” (“Ocupar Wall Street”). Ou em 8 de novembro de 2016, quando Donald Trump alcançou o maior cargo do país. Tudo depende de se, ao olhar para trás, nossa crise começar a ser vista como de natureza econômica ou política.

Certamente, a Grande Recessão foi um choque econômico gigantesco. Nove milhões de empregos foram perdidos e famílias de 4 milhões de lares foram despejadas. A renda média familiar caiu em 7%. Famílias negras viram suas reservas de dinheiro já pequenas serem cortadas quase que pela metade. E a recuperação foi dolorosamente lenta, no período que alguns economistas denominaram de uma “economia zumbi”.

Mas a Grande Recessão também iluminou tendências muito anteriores ao declínio, notavelmente em termos de crescimento estagnado dos salários de tantos trabalhadores. Comparando-se com os anos do pós-guerra, o crescimento econômico tem sido lento durante as últimas décadas. Ao mesmo tempo, o mecanismo de transmissão que conecta o crescimento econômico aos salários dos trabalhadores parece ter se quebrado. A porção de renda que vai para os trabalhadores caiu vertiginosamente, de 65% em 1974 a 57% em 2017.

Nos últimos anos, com o zumbi gradualmente acordando, a renda e os salários familiares começaram a subir ligeiramente — mas as famílias ainda estão precisando trabalhar mais horas para obter a renda de que necessitam. As mulheres estão trabalhando mais, e ganhando mais (apesar da diferença salarial com os homens ainda existir). Mas com os homens trabalhando menos, e ganhando menos, as famílias estão simplesmente ficando na mesma em termos econômicos. Desde 1979, o salário médio masculino nos EUA caiu 1,4% para homens brancos — e 9% e 8% para homens negros e hispânicos, respectivamente. Trabalhadores no topo da pirâmide salarial e de escolaridade viram seus rendimentos continuamente engordando: o mesmo não aconteceu com os grupos do meio e da base do mercado de trabalho. O crescimento do salário continua entorpecido no meio da pirâmide.

Ao mesmo tempo, a volatilidade da renda da base da escala cresceu, em parte por causa de mudanças em direção à chamada gig economy, intrinsecamente esporádica, e em parte por causa do aumento da imprevisibilidade dos horários de trabalho. A maioria dos trabalhadores estadunidenses ainda são pagos por hora, e metade deles não tem controle formal sobre seus horários de trabalho. Dois em cada cinco trabalhadores horistas entre 26 e 32 anos de idade ficam sabendo de seus horários de trabalho com uma antecedência menor que uma semana. É difícil organizar o cuidados dos filhos com tão pouca antecedência. Muitos trabalhadores estadunidenses estão lutando, assim como os antigos sindicatos, em duas frontes: mais dinheiro e mais tempo.

Por quê? Por que, para tantos estadunidenses de classe média e da classe trabalhadora, o “crescimento econômico tornou-se um esporte de espectadores”, como o economista liberal Jared Bernstein memoravelmente afirmou?

Há duas explicações concorrentes para o fato de ter-se rasgado o tecido conjuntivo entre o crescimento e os salários: a Narrativa da Produtividade e a Narrativa do Poder. A narrativa da produtividade é a seguinte: os salários refletem a produtividade do trabalhador; a economia moderna recompensa as habilidades mais do que no passado; e muitas pessoas não melhoraram suas habilidades rápido o suficiente. Sob a fraca designação de “mudança tecnológica enviesada pelas habilidades”, este ponto de vista prevaleceu sobre a maior parte do espectro político durante este século. Livres mercados poderiam entregar resultados suficientemente justos, desde que todos tivessem a educação e o treinamento necessários. A “aprendizagem vitalícia” tornou-se o mantra de tudo isso, e também a resposta padrão dos políticos e acadêmicos sobre o aprofundamento do problema da desigualdade.

Há dois problemas com esta narrativa. Primeiro, os investimentos necessários em educação e treinamento nunca foram de fato feitos. Faculdades comunitárias, o destino mais comum para estudantes saídos do segundo grau das famílias entre as 80% com menor renda, são pouco financiadas, sobrecarregadas e em grande parte ignoradas pela elite política. O aprendizado vitalício nunca passou dos resumos políticos de think tanks e dos painéis de Davos para a vida real de pessoas reais.

O segundo problema é que a produtividade é somente parte da história — e talvez nem seja a parte mais importante. Certamente é errado declarar que não há nenhuma relação entre o crescimento da produtividade e o crescimento de salários. Mas a conexão certamente tornou-se menos clara com o passar do tempo, e ficou mais difícil de fazer a correspondência com as tendências de desigualdade salarial.

Até mesmo os apoiadores mais fortes e ponderados da Narrativa da Produtividade, como Michael Strain, diretor de estudos de políticas econômicas no American Enterprise Institute, reconheceram que ela é somente um elemento. Strain escreve: “é mais útil pensar em salários como sendo determinados por uma combinação das forças competitivas do mercado, poder de barganha e instituições”.

A Narrativa do Poder é que os salários não refletem a produtividade do trabalhador, mas seu poder. Menores salários são reflexos do crescimento da fraqueza, o resultado de quatro tendências que se intersectam. Primeiro, os sindicatos tornaram-se quase criaturas míticas, unicórnios do mercado de trabalho. Somente 1 em cada 20 trabalhadores do setor privado dos EUA é membro de sindicatos, uma grande queda em relação aos anos 1950, quando 1 em cada 4 eram sindicalizados. Em algum momento nos anos 1980, os negócios dos EUA declararam guerra contra os sindicatos, e ganharam.

Segundo, a diferença salarial entre trabalhadores similarmente qualificados em diferentes empresas aumentou. Um estudo muito citado descobriu que um terço do aumento da diferença salarial entre 1978 e 2013 ocorreu dentro de empresas, enquanto que dois terços do aumento ocorreram entre empresas. O poder de mercado de uma empresa contra o de outra é o que determina os salários, em vez do poder de um empregador em especial contra seus trabalhadores. Mesmo se os trabalhadores conseguirem se organizar, eles não conseguem forçar um empregador completamente diferente a compartilhar mais excedente com eles (isso sim seria socialismo).

Terceiro, o poder de mercado tornou-se cada vez mais concentrado em uma menor quantidade de empresas maiores, especialmente em termos do poder no mercado de trabalho. Os perigos do poder de monopólio nas economias de mercado são bem conhecidos, e a pressão para se ter robustas leis antitruste historicamente uniu a direita pró-mercado e a esquerda progressista. Em anos recentes, a ameaça do poder de monospônio (ou seja, um único comprador dominante), notavelmente no mercado laboral, tem crescido. A Amazon é o garoto propaganda do poder de monospônio. Mas em muitas cidades, um único hospital pode ser o maior empregador, e o único empregador de enfermeiros, por exemplo. É difícil nessas circunstâncias para os trabalhadores negociarem melhores salários e condições de trabalho.

Quarto, o mercado laboral não é tão fechado quanto parece. Há ainda um “exército de reserva” grande de trabalhadores, cuja função é manter os salários baixos. Isso pode não ser o que a taxa de desemprego midiática — agora em 4% — está nos dizendo. Mas a taxa midiática nos diz menos do que no passado, porque milhões de trabalhadores romperam com o sistema completamente, e portanto não são contados nas estatísticas de desemprego. As chances de um homem com “idade ideal” estar em um emprego assalariado caiu 8% nas décadas do pós-guerra. Durante a maior parte deste período, as taxas de emprego das mulheres estavam aumentando — mas, pelos menos nos EUA, esse crescimento parou abruptamente durante a virada do século, e na verdade caiu um pouco. Adultos negros, hispânicos e de menor escolaridade tiveram as maiores quedas em participação.

Essa falta de poder dos trabalhadores em empresas específicas provocou pedidos de salários mínimos maiores. A nível federal, o valor do piso salarial caiu 46% desde 1968. Estudos influentes de David Card e do falecido grande Alan Krueher ajudaram a apaziguar os medos sobre as consequências econômicas negativas de um maior salário mínimo. Mas um grande desafio aqui é que a diferença entre os lugares mais ricos e mais pobres também aumentou. Um salário mínimo de 15 dólares pode fazer sentido em Boston (salário médio = 24,16 dólares por hora). Mas talvez não em Brownsville, Texas (salário médio = 11,59 dólares por hora). Metade dos trabalhadores dos EUA ganham menos de 18,58 dólares por hora.

Um trabalhador sem poder é um com um contracheque de menor valor. Também pode sofrer maiores indignidades ou desrespeitos durante a vida laboral diária. O livro de James Bloodworth “Hired: Six Months Undercover in Low-Wage Britain” descreve a perda de dignidade enfrentada por funcionários de depósitos da Amazon e motoristas de Uber. Histórias de terror sobre trabalhadores sob constante vigilância, incapazes de tirar tempo para ir ao banheiro e portanto usando fraldas adultas, ou intimidados e assediados por chefes ou outros trabalhadores. Em 2011, o Morning Call de Allentown, Pensilvânia, reportou que gerentes do depósito local da Amazon se recusaram a abrir as portas para a ventilação apesar de crescentes temperaturas. Em vez disso, colocaram ambulâncias do lado de fora, para os trabalhadores que desmaiavam.

Imagens vívidas, e sem dúvidas verdadeiras neste caso em particular. Mas é importante notar que esta não é uma experiência geral para a maioria dos trabalhadores. A proporção de estadunidenses reportando que foram “tratados com respeito no trabalho” tem estado estável em cerca de 92% desde 2002, de acordo com o General Social Survey.

Para alguns críticos do capitalismo, os trabalhadores perderam a luta pelo poder desde o início. Como Marx (Groucho desta vez, não Karl) uma vez disse: “O que cria escravos do salário? Salários!”.

Sejam quais forem os ganhos materiais que os trabalhadores conseguiram obter, vieram à custa de uma profunda perda de soberania. Em seu livro “Private Government: How Employers Rule Our Lives (and Why We Don’t Talk about It)”, a filósofa Elizabeth Anderson defende a ideia de que CEOs são os novos totalitários, que “pensam sobre si mesmos como individualistas liberais”, enquanto que na prática agem como “ditadores de pequenos governos comunistas”. Imaginamo-nos livres, mas efetivamente trocamos nossa liberdade por salário, efetivamente entregando nossos passaportes ao batermos cartão.

O que a maioria das pessoas quer é um trabalho que pague um salário decente e ofereça tanto alguma satisfação quanto alguma segurança. Os críticos mais duros do sistema, como Anderson, acreditam que essas metas são incompatíveis em níveis profundos com a dinâmica do capitalismo. Mas pelo menos para alguns, especialmente para os homens brancos, o capitalismo de mercado foi bastante bom por pelo menos uma geração. É por isso que foi tão importante lutar para abrir as portas para mulheres e pessoas de outros grupos étnicos. A meta progressista não é limitar o mercado, mas abri-lo.

Em tempos históricos muito recentes, a direção geral da história parecia ser em direção ao capitalismo de um ou outro tipo. No lapso de tempo entre a queda do Muro de Berlim e a queda do Lehman Brothers, parecia que os mercados incorporados em democracias liberais eram o futuro predestinado. Fukuyama declarou o Fim da História.

Acadêmicos adotaram o termo “capitalismo tardio” para descrever as tendências em direção às economias lideradas por serviços e com acordos laborais cada vez mais flexíveis (flexíveis, no caso, para o empregador). Mas com o deslocamento, insegurança e desigualdade testemunhados durante a última década, é difícil discordar do narrador do livro “Lurid and Cute” de Adam Thirlwell que exclama em relação ao capitalismo: “Tardio? Mas tinha acabado de começar!”.

Richard Reeves é autor de “Dream Hoarders” e membro sênior da Brookings Institution.

*Publicado originalmente em theguardian.com | Tradução: equipe Carta Maior

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