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''Não vou sair do Brasil. De novo, não. Vou ficar e resistir com a única arma que tenho, a palavra''(*)

Em carta ao ex-presidente Lula, Eric Nepomuceno fala de sua indignação pelas injustiças vividas nos últimos anos no Brasil


Da Carta Maior, 24 de Abril, 2019
Por Eric Nepomuceno



Rio de Janeiro, 20 de abril de 2019

Lula, meu bom amigo:

Estou há tempos para escrever. Um ano, para ser preciso. Mas só agora consigo. Você vai perguntar como é que alguém que vive do que escreve há exatos 54 anos demora mais de um para escrever uma carta. Respondo: às vezes, a mão seca.

Cada vez que comecei a escrever para você o que acabava saindo era pura indignação. E eu não queria nem quero mandar para você uma carta irada, por mais justa que seja – e é – essa minha indignação.

Hoje, sábado de aleluia, vamos ver se consigo. Indignado sempre, pelo que fazem com você e com o país. Porém, serenado.

Não preciso contar o que acontece aqui – me refiro a aqui fora – porque você continua absolutamente informado de tudo. Mas conto que nunca, Lula, em nenhum momento, achei que fosse chegar a esta altura da minha vida vendo o que fizeram e fazem com este pobre país.
Eu vivi de perto, Lula, golpes tremendos. Vi o Uruguai ruir em junho de 1973, vi o Chile desmoronar em setembro de 1973, lembro de Salvador Allende, vi o terror se instalar na Argentina em março de 1976. Tive amigos mortos, tive e tenho amigos que sobreviveram a torturas selvagens, a exílios dolorosos, a distâncias e tempos irrecuperáveis. Eu mesmo passei longos anos sem poder vir ao Brasil. Vi meu filho aprender a ficar em pé e a andar e a falar e a escrever longe do país dele.

Vivi e vi um monte de coisas mundo afora, Lula. E achei que isso tudo era passado, era memória.

E agora vejo e vivo o resultado de um golpe diferente. Um golpe sofisticado, perfeito: primeiro tiram uma presidenta eleita, depois prendem você, impedem que dispute uma eleição assegurada, e pronto. Não há tanques nas ruas, não há trabalhadores e estudantes sendo torturados e fuzilados (exceto, claro, quando são pobres e em sua maioria negros), os grandes meios de comunicação funcionam sem policiais censores nas redações (nem precisa: os patrões e os chefes nomeados a dedo bastam), e tudo parece normal.

Parece, Lula. Mas você, melhor que qualquer um, e eu sabemos que de normal não há nada neste país destroçado, à deriva, rumo a um naufrágio tenebroso. Será este nosso país um país sem memória? Espero que não, meu bom amigo. Espero que não, e que desperte rápido desse pesadelo.

Além da dor e da indignação por tudo que acontece, Lula, ando cheio de perguntas. Por exemplo: como é que puderam votar nessa aberração que todo santo dia deposita o traseiro na poltrona presidencial?

Como é que essa aberração nomeou esse ministério todo – do qual, aliás, não escapa ninguém – que assombra o país e o mundo? Como é que este país suporta o pior presidente e o governo mais bizarro (tirando, claro, os anos da ditadura, e ainda assim só por causa da violência e da repressão) de 130 anos de República? Como é que vão demolindo tudo, dia sim e o outro também, e ninguém move uma palha para impedir?

Olha só, Lula, olha só: achei que estava sereno e que escreveria sem indignação. E não consegui.

Melhor parar por aqui, mas não sem antes reforçar minha amizade e meu carinho por você, pela sua gente.

Pensei em sair do Brasil por um tempo, Lula. A razão? Conto: em 1977 conheci, no exilio em Madri, um grande escritor argentino chamado Hector Tizón. Ficamos amigos fraternos.

Certo dia de extrema melancolia, perguntei a ele por que havia saído da Argentina. Não estava em nenhuma organização de esquerda, não tinha vínculos com nenhum movimento, não tinha sido ameaçado. E ele me respondeu: ‘Saí por asco’. Asco pelo que faziam no país dele, Lula. E por essa razão – asco, nojo – pensei em sair do Brasil por um tempo.

Mas não vou. De novo, não. Vou ficar e resistir com a única arma que tenho, a palavra.

E assim espero que a justiça seja feita e você volte para casa, e a gente possa enfim se encontrar de novo e pôr a conversa em dia.

Há muito o que conversar, Lula, muito. E ando precisando.

Deixo aqui, como sempre,

meu melhor abraço

Eric Nepomuceno

Do Nocaute Blog

(*)Nota do Diretor da Carta Maior:

Meu amigo Eric,

Sem te consultar decidi assinar embaixo do teu lindo texto. Tenho certeza que a nossa amizade assim o autoriza, ainda mais quando o destinatário é um outro grande amigo.

Assim, assino embaixo e faço minhas as tuas palavras, inclusive na resistência.

Joaquim Ernesto Palhares
Diretor da Carta Maior

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