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Mais sincretismo, por favor.

Sincretismo que permita uma síntese das nossas diversidades e que acolha nossas contradições, síntese da palavra com o corpo.



Do GGN, 25 de Anril, 2019


Sou de família cristã e católica, mas, lá em casa, nunca houve problemas em visitar o Terreiro, ler Kardec, acreditar em reencarnação, fazer simpatias ou ir na benzedeira. Era tudo coisa de Deus nas suas diversas manifestações; tudo relação com o sagrado.

Penso que o grande desserviço que as religiões evangélicas neopentecostais prestaram à nossa cultura religiosa, foi se proporem a criar uma religião pura, limpa das influências que outras matrizes religiosas sempre imprimiram no nosso cristianismo, especialmente as de “cunho espírita” (kardecista, umbandista ou candomblecista). Com esse objetivo de “se purificarem”, optaram por dar um valor excessivo “A Palavra” – o que está escrito na Bíblia – tentando deixar de fora os fenômenos corporais e sensoriais, considerados, sob tal perspectiva, como “coisas do demônio”.

Esse purismo “dA Palavra” como emissária “dA Verdade”, que as neopentecostais defendem, fizeram de seus seguidores, e também de seus líderes (quando não se trata de meros picaretas parasitas sociopatas), sujeitos totalmente submetidos à escrita dura da Bíblia, sem possibilidade de metaforização, de deslizamento ou de uma experiência mais singularizada com o sagrado. A Palavra passa a ser A Salvação, enquanto que o corpo precisa resistir cada vez mais ao demônio: no rigor das vestimentas, das posturas ou manifestações corporais, na relação com a música e a dança, no controle do sexo e da sexualidade.

Lembrando da minha infância, penso que nossa relação mais sincrética com o Sagrado – que um certo catolicismo chamado “não praticante” tolerava – nos permitia desafogar os males e apelos do corpo em outras searas, que não escapava de ser uma cisão (corpo/espírito), mas não era tão rigorosa, tinha possibilidade de vazão.

Mas o mais interessante é que, por mais que as neopentecostais tentaram e tentem privilegiar A Palavra em detrimento do corpo, esse corpo escapa e se manifesta, transformando os seus rituais em cópias tristes e grotescas das experiências corporais e sensoriais próprias das religiões ou experiências que ela tenta negar. A isso é possível dar uma explicação religiosa, obviamente, mas me arrisco a dar uma psicanalítica chamada: “o retorno do recalcado”. O que se rejeita no simbólico, retorna no real.

Outro efeito dessa submissão à palavra dura das escrituras, que não metaforiza, que não desliza de significado, que rejeita o corpo, sobretudo quando este é sexualizado, é provocar um embrutecimento e um endurecimento do simbólico, que não poderia dar em outra coisa que não servir de alimento para o fundamentalismo e o fascismo que assistimos reinantes. Sabe-se que o Bolsonarismo teve forte impulso das religiões neopentecostais, e isso faz todo sentido. Quando a palavra se cola e se nutre da coisa em si e não do seu sentido, oferecendo uma leitura que só seja a literal, torna-se possível criar teorias absurdas como kit gay, ideologia de gênero, marxismo cultural ou qualquer outra, afinal, nesse caso, só se faz necessária a força dA Palavra, mais nada. Se A Palavra disse, isso é suficiente para que eu creia.

Diante disso, no campo religioso, a única coisa que poderá remediar essa marcha fundamentalista que as igrejas evangélicas neopentecostais ajudaram a nutrir é sincretismo. Sincretismo que permita uma síntese das nossas diversidades e que acolha nossas contradições, síntese da palavra com o corpo.

Resumindo, São Jorge precisa de Ogum e vice-versa, e a palavra (feminina, assim com minúscula), nunca será capaz de dizer tudo sobre os dois, ou sobre o que se passa entre eles. A palavra, nessa perspectiva, não carrega nenhuma verdade ou salvação em si.

Mais sincretismo, por favor.

Rita Almeida

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