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Ir como voltar

O poder que procura se impor sob a forma do poder que tudo controla


Da Folha de São Paulo, 26.abr.2019
Por Vladimir Safatle


Ir como voltar. É assim que termina "A Sociedade Contra o Estado", livro maior do antropólogo Pierre Clastres a respeito da estrutura política das sociedades ameríndias.

Seu livro é a defesa de que tais sociedades não estavam em alguma forma de estágio anterior de desenvolvimento social devido à inexistência do Estado ou à inexistência de uma lógica econômica de produção do excedente.

Na verdade, essas eram sociedades que se organizavam de forma deliberada contra a possibilidade de emergência do Estado. Para elas, a emergência do poder centralizado, da figura do Um, da cristalização da autoridade em lugares nos quais o poder e a força de lei se encarnam em um ponto era vista como sua própria destruição.

Isso significava que o espaço da chefia, em tais sociedades, não se confundia com o lugar do poder. A tribo não possuía um rei, mas um chefe que não era chefe de Estado. Ou seja, o chefe não dispunha de nenhuma autoridade, nenhum poder de coerção, nenhum meio de dar ordem. Como diz um chefe guerreiro da tribo abipone: "Os abipones, por um costume recebido de seus ancestrais, fazem tudo de acordo com sua vontade, e não de acordo com a do seu cacique. Cabe a mim dirigi-los, mas eu não poderia prejudicar nenhum dos meus sem prejudicar a mim mesmo; se eu utilizasse as ordens ou a força com meus companheiros, logo eles me dariam as costas". Ou seja, a palavra do chefe não tinha força de lei. Sua verdadeira função era procurar, por meio da palavra e de sua força retórica, apaziguar conflitos entre sujeitos, famílias, linhagens.
Marcelo Cipis/Folhapress

As exceções a esse modo de exercício eram quase sempre ligadas à guerra. A preparação e a condução de expedições militares eram as únicas circunstâncias nas quais o chefe aparecia como aquele que exerce a autoridade. Por ter a guerra como atividade constante, as sociedades ameríndias sabiam do risco permanente de o chefe sair do estreito limite determinado à sua função. Nesta análise, aparece a figura de sociedades com estruturas políticas extremamente complexas e inventivas. Estruturas que demonstram a consciência de tendências imanentes à degradação da vida social sob o império.

Mas, ao fim de seu livro, Clastres se depara com o caso complexo dos tupis-guaranis no momento da chegada dos portugueses. A alta taxa de densidade demográfica fazia as tribos dos tupis-guaranis estarem em vias de se aproximar do modelo do Estado e da chefia com autoridade estabilizada e convergente.

No que Clastres descreve, então, uma sublevação interna cujos efeitos seriam destruidores do poder dos chefes. Essa é a história de homens que arrastavam milhares de índios a partir de uma palavra profética, que os colocavam em migração para fora dos limites da tribo à procura de uma terra na qual o risco da degradação produzida pelo poder não existisse. Essa sociedade libera assim forças capazes: "Mesmo ao preço de um quase suicídio coletivo, de fazer fracassar a dinâmica da chefia, de impedir o movimento que poderia levar à transformação dos chefes em reis portadores de leis".

Talvez valha a pena lembrar dessas páginas tão importantes para a compreensão de nós mesmos, de nossa sociedade, em um momento no qual comunidades indígenas estão a protestar em uma Esplanada do Planalto tomada pela Força Nacional. Pois o fato de os povos indígenas serem sempre os alvos privilegiados quando o Estado brasileiro aumenta o nível de sua lógica de extermínio é também a expressão do conflito entre duas experiências políticas. Conflito no qual uma deve negar a outra, eliminar todos os seus traços, apagar toda sua força de influência. Para que não lembremos mais como nós sempre lutamos contra a força de um poder que procura se impor sob a forma do poder que tudo controla.

Vladimir Safatle

Professor de filosofia da USP, autor de “O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o Fim do Indivíduo”.

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