Pages

Antonio Conselheiro, heroi da Pátria

O cearense Antonio Conselheiro liderou por um quarto de século uma peregrinação pelos sertões da Bahia e de Sergipe, constituída por excluídos, sem-terra e ex-escravos.


Do GGN, 25 de Abril, 2019


Não fosse a celeuma que se levantou, ninguém saberia que o Senado Federal é guardião de um Livro dos Herois e Heroinas da Pátria. Pois existe em Brasília um Panteão da Pátria, na Praça dos Três Poderes, obra de Oscar Niemeyer – lembrando a forma de uma pomba, evidentemente a “Pomba da Paz”. Ao lado fica uma torre onde arde uma chama perpétua. Como nos contos de fada, dentro da torre há um Livro de Aço (com páginas de aço), no qual é necessário gravar, sim, gravar, os nomes, porque o aço repele qualquer escrita.

Surpreendente é que um líder popular como Antonio Conselheiro mereça tal honra. É claro que Tiradentes é um deles, e já está arraigado na simbologia e no imaginário dos brasileiros, que aprendem a reverenciá-lo desde os bancos escolares. Mas outro líder popular, além do mais nordestino?

Cada nome deve ser proposto por um projeto de lei e ratificado tanto pela Câmara quanto pelo Senado. Este foi iniciativa da deputada Luizianne Lins (PT- Ceará), que o chama de “símbolo de liderança social”, e aprovado pela Comissão de Educação, Cultura e Esportes sob a rubrica PLC 185/2017. Só falta o aval do Presidente, mas quem em sã consciência duvidaria disso?

O Livro, que já continha 31 nomes até dezembro do ano passado, aos quais então se acrescentaram mais 21, sinaliza certas tendências. Assim, por exemplo, as mulheres mal chegam a 20% do total, o que pode ser resultado de uma definição estreita de heroismo, ou seja, só as patriotas. Jovita Alves Feitosa ficou conhecida por se vestir de soldado e tentar participar da Guerra do Paraguai. A matrona e latifundiária cearense Bárbara de Alencar foi liderança na Revolução Pernambucana de 17. A índia Clara Camarão ajudou a expulsar o invasor holandês. Maria Felipa de Oliveira e Sóror Joana Angélica destacaram-se na Guerra da Independência na Bahia, a primeira como combatente e a segunda como mártir. Anita Garibaldi envolveu-se nas guerras do Rio Grande do Sul e na Itália. Zuzu Angel, mãe do militante assassinado e desaparecido Stuart Angel, empenhou-se em denunciar a ditadura. Ana Nery foi a primeira enfermeira do país e serviu na Guerra do Paraguai.

São poucas, é fato, mas ainda assim quase todas, sinal dos tempos, entraram agora na nova lista. Em compensação, os militares são inúmeros, e dá para compreender, porque a profissão os torna automaticamente herois, ninguém discute.

Reis, duques, condes, marqueses não faltam, bem como outros figurões. Mas lideranças populares… Contam-se, afora o eterno Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Chico Mendes o ambientalista, o indígena Sepé Tiaraju que tombou nas Guerras Guaraníticas. Uma láurea coletiva cabe a quatro negros da Conjuração Baiana e a seis homens que se destacaram na expusão dos holandeses em Pernambuco, entre eles o negro Henrique Dias e o índio Felipe Camarão. E basta.

O cearense Antonio Conselheiro liderou por um quarto de século uma peregrinação pelos sertões da Bahia e de Sergipe, constituída por excluídos, sem-terra e ex-escravos. Detinham-se nas localidades por que passavam e construíam/reconstruíam igrejas, cemitérios, açudes, calçadas, em sistema de mutirão. Com o tempo e o avolumar-se das hostes, começaram a suscitar perseguições, o que os levou a uma retirada para o fundo do sertão e para o alto das serranias, procurando viver em paz uma vida de penitência no arraial de Canudos. Em vão. Viram neles uma tremenda ameaça e enviaram tropas do Exército, munidas de 23 canhões. Ao fim de uma resistência tenaz, os soldados arrasaram o arraial e mataram todos os seus habitantes, jogando bombas de dinamite e ateando fogo aos escombros.

É sem dúvida interessante que agora (voto expresso por Euclides da Cunha em Os sertões) Antonio Conselheiro seja incorporado a esta esquiva entidade à qual de vez em quando apelam, a “identidade nacional”.

Antonio Callado, autor de Quarup, propôs, com reiterados argumentos, o nome de Antonio Conselheiro, e não apenas para ser heroi da Pátria. Mas, católico, penitente e mártir, que fosse canonizado como o primeiro santo brasileiro.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

Nenhum comentário:

Postar um comentário