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“A minha segurança está ligada à segurança da população de rua”. Entrevista com o Padre Júlio Lancellotti

Do IHU, 27 Abril 2019
Por Gabriel Brito, publicada por Correio da Cidadania


Entrevistamos o padre Júlio Lancellotti, famoso por sua atuação na Pastoral da População de Rua e alvo constante de ameaças de morte de setores por sociais fascistizados. Além do aumento de ameaças que já vêm de anos, ele comentou fatos como a desastrada desocupação da Comunidade do Cimento em 23 de março e o aumento do número de pessoas em situação de rua em São Paulo e outras grandes cidades brasileiras.

“Está ocorrendo uma investigação. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos emitiu uma cautelar ao governo brasileiro pedindo que garanta minha segurança. No entanto, eles acham que minha segurança está separada da questão da população de rua. São questões que estão unidas”.

Firme em sua posição de se manter ativo na pauta da população de rua, Lancellotti não se anima com as atitudes de um poder público em sua visão cada vez mais negligente com as questões sociais e faz um apelo em favor da solidariedade social em tempos sombrios em diversos aspectos.

“As políticas públicas estão em diminuição e as dificuldades aumentando. A população está cada vez mais negligenciada e abandonada”.
Eis a entrevista.

O senhor tem um histórico de anos de ameaças contra sua integridade física por parte de grupos incógnitos. Elas se intensificaram neste momento?

A intensificação se dá por causa das redes sociais, porque se espalham mais rapidamente e têm uma visibilidade maior. A motivação é sempre a mesma. Assim como aconteceram várias ameaças em relação aos jovens da Febem quando atuava junto a eles em momentos de rebelião, agora se explicitam em relação aos moradores de rua.

Portanto, o motivo não se separa da minha pessoa. Se eu parasse de defender moradores de rua, não haveria ameaças. Como estou comprometido com essa população e sua causa, as ameaças ocorrem.

Elas se intensificam na medida em que hoje é mais fácil divulgar tais questões. São ameaças explícitas, como “tem que dar um tiro na testa desse velho”, “tem que matar esse padre”, “ele já passou da hora”, coisas bastante explícitas e violentas.

E houve alguma situação recente de truculência e intimidação fora das redes sociais?

Sim, existem ataques pessoais também. Outro dia uma pessoa disse que ia me matar, me xingam, enfim, há ofensas diretas.

Há alguma intervenção do poder público no sentido de proteger o senhor?

Está ocorrendo uma investigação. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos emitiu uma cautelar ao governo brasileiro pedindo que garanta minha segurança.

No entanto, eles acham que minha segurança está separada da questão da população de rua. São questões que estão unidas. Se continuarem maltratando, sendo cruéis e violentos, não vão poder parar minha atuação e defesa de tais pessoas.

Não adianta me dar segurança e negá-la a esta população.

Alguma figura mais proeminente do poder público falou com o senhor?

Não. Estive com pessoas ligadas ao DHPP (Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa) e, no ano passado, com o secretário de Segurança Pública. No entanto, eles desvinculam minha pessoa da população de rua, como se fosse ódio pessoal a mim. O ódio existe por causa deste segmento.

E o que o senhor tem visto nas ruas, tal população está aumentando?

Sim, muito, assim como a negligência e a violência. Em São Paulo e no Brasil inteiro, em todas as grandes cidades, o número de pessoas em situação de rua se acentua por conta da situação que vivemos no país e no mundo.

As políticas públicas estão em diminuição e as dificuldades aumentando. A população está cada vez mais negligenciada e abandonada.

No dia 23 de março, houve a desocupação da Comunidade do Cimento, uma fileira de cerca de um quilômetro de barracos nas calçadas que ladeiam a Radial Leste, maior via de ligação entre esta região e o centro da cidade. O que você pode nos contar deste episódio?

Foi um processo bastante difícil com a justiça. Avisamos que havia pouco tempo para encontrar respostas. O poder público foi bastante ineficaz, não cumpriu as exigências estabelecidas pelo Judiciário, muitas pessoas ficaram desabrigadas e abandonadas.

Naquela madrugada recolhemos muita gente pelas ruas, que dormiam nas calçadas, inclusive mulheres e crianças. Algumas pessoas foram para outras ocupações. É uma situação muito calamitosa que só tende a aumentar.

E vai aumentar, objetivamente, pelo aumento da pobreza, do desemprego, da inadimplência, da ausência de ações do Estado... Só piora.

Como é sua situação dentro da igreja, há muita oposição interna?

Existe de tudo. A igreja não é separada do contexto da sociedade. O que acontece nela se reflete na igreja. Há os que apoiam, há os que são hostis.

O que poderia ser feito para diminuir tamanho passivo social?

Temos de ser mais solidários e andarmos na direção contrária desta onda de insensibilidade e individualismo, que trazem uma negligência muito grande sobre tais questões.

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