Pages

Ulysses, a Constituição e a tal nostalgia da ditadura, por Luis Felipe Miguel

Bolsonaro não é um ponto fora da curva. Bolsonaro é uma demonstração grotesca de aonde este caminho nos leva.


Do GGN, 27 de Março, 2019


Ulysses, a Constituição e a tal nostalgia da ditadura
por Luis Felipe Miguel

Ao promulgar a Constituição de 1988, o deputado Ulysses Guimarães disse que ela havia sido escrita “com ódio e nojo à ditadura” – expressão que, aliás, incomodou os chefes militares presentes à cerimônia. Há uma dose de generosidade na descrição, já que nem todos os constituintes eram assim tão comprometidos com a democracia, mas ela captura bem o fato de que, naquele momento, tendo recém saído do pesadelo autoritário, o Brasil queria dotar a si mesmo de instrumentos que impedissem seu retorno. Por isso, apesar de suas muitas ambiguidades, a Carta de 1988 estabelece fortes garantias contra o arbítrio estatal e aponta o compromisso com um patamar mínimo de justiça social.

A culminação lógica da campanha contra a Constituição, que as classes dominantes do Brasil promovem há anos, é a nostalgia da ditadura. Pois não é possível imaginar uma ordem em que as liberdades democráticas existam e não sirvam para que os dominados se organizem em defesa dos próprios interesses. Bolsonaro não é um ponto fora da curva. Bolsonaro é uma demonstração grotesca de aonde este caminho nos leva.

Ulysses, não custa lembrar, era um veterano político conservador paulista. Apoiou o golpe de 1964, marchou com Deus e a família pela liberdade. Mas foi capaz de ver o que a ditadura significava e mudar de posição. Infelizmente, nossa direita de hoje, liderada por Fernandos Henriques e Dórias, não tem essa estatura. Prefere deixar o país sob a tutela de milicianos ou de milicos, prefere destruir o que existe de institucionalidade democrática, a fim de garantir que suas vantagens e privilégios não serão ameaçados e que o risco de construirmos um país mais justo está definitivamente afastado.

Não basta ridicularizar as bizarrices de Bolsonaro ou torcer o nariz para as comemorações da ditadura. É preciso admitir o campo popular de novo como interlocutor legítimo na esfera política – isto é, que nenhuma mudança no ordenamento constitucional ou na vigência dos direitos ocorrerá sem ampla e verdadeira participação da sociedade. E é preciso restaurar as garantias e revogar a tutela dos poderosos sobre as disputas políticas – o que está sintetizado na bandeira “Lula livre”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário