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O (restrito) lugar da mulher na Filosofia no Brasil

Por NÁDIA JUNQUEIRA RIBEIRO
Da Carta Capital, 9 DE MARÇO DE 2019



Carreiras dedicadas à reflexão e ao raciocínio não parecem ser um lugar para mulheres. Por isso, o corredor já começa estreito
Imagine um curso de graduação em que você terá menos de um terço de professoras mulheres. Então imagine que você nunca terá qualquer referência bibliográfica em nenhuma das disciplinas que seja mulher. Imagine, então, que você decida falar de sua pesquisa num evento em que você é a única mulher na mesa. Nesses eventos os colegas e professores vão tentar diminuir sua pesquisa. Vão, inclusive, te assediar. Em seguida, imagine que a banca de sua monografia terá uma mulher e dois homens. Mas você insiste em pesquisar e a seleção para o mestrado tem uma mulher e quatro homens na banca. Na do doutorado, a mesma coisa. Do concurso para professor, o mesmo. Quais são as chances de você, mulher, sentir que você pertence a essa área? A gente não sente. A gente insiste. Enquanto eu escrevo filósofa, o corretor me indica que essa palavra não existe.

Esse sentimento, compartilhado por tantas mulheres da área, foi traduzido em números, em 2016, numa pesquisa feita pela professora Carolina de Araújo (UFRJ). Um importante trabalho que dá luz para compreensão do espaço das mulheres na Filosofia. A pesquisa comparou a proporção de homens e mulheres em três momentos distintos da carreira. Entre os graduados em Filosofia no Brasil em 2014, 38,4% eram do sexo feminino. Entre os 3.652 estudantes de mestrado e doutorado, éramos 28,45% do total em 2015. Já quando se analisam os docentes permanentes, há 20,94% de mulheres.

Aproximando esses dados daqueles reunidos pela plataforma Lattes, somos a área com menos mestras e doutoras de todas as Ciências Sociais Aplicadas, Ciências Agrárias, Ciências da Saúde, Letras, Artes e Linguísticas. Perdemos apenas para algumas engenharias, nas Ciências Exatas e da Terra para Física e Computação. Em nossa área, Ciências Humanas, estamos na lanterna um pouco à frente apenas da Teologia.

A conclusão da professora se resume aqui: mulheres têm 2,5 menos chances do que os homens de chegar ao topo da carreira acadêmica em Filosofia no Brasil. Em suma, Carolina fez e continua a fazer o importante trabalho de trazer provas de uma realidade já percebida e apresentar o diagnóstico de que somos “expulsas” da carreira.

O que há por trás desses números ainda não foi pesquisado. Mas há indícios dos entraves que refletem estes números, compartilhados por nós, quando passamos a deixar de achar essa situação normal e começamos a falar sobre isso. É sobre eles que precisamos nos versar sobre para construir as mudanças. Sem ter qualquer pretensão de esgotar as razões, que são várias e passam, inclusive, pelo recorte racial, social e de identidade de gênero (o que, certamente, agrava ainda mais o quadro), indico alguns.

Temos aqueles obstáculos compartilhados por qualquer mulher que decide pela pesquisa no país. A maternidade é um deles. A exigência da produtividade de uma mãe é a mesma para qualquer outra pessoa que nunca viveu um puerpério, não passa as noites em claro, amamenta, leva ao médico e deixa sua pesquisa de lado várias vezes ao dia para oferecer afeto e amor ao filho.

O assédio moral e sexual desencoraja, paralisa, desmotiva e expulsa as alunas deste caminho. Não são poucos os relatos daquelas chantageadas por professores que assediam das mais variadas formas. As estudantes desistem da disciplina, de uma orientação e da pesquisa. E, particularmente neste caso, o silêncio é enorme como se nada acontecesse ou como se isto não tivesse qualquer relação com a produção acadêmica. Sem qualquer estrutura de apoio, nenhuma aluna se sente encorajada a falar e a transformar sua situação. Preferem se silenciar, carregar sua dor, seu caderno, sua ideia e ir para casa. Muitas vezes, para sempre.

Esses são alguns fatores que nos afastam da paridade na pós e docência e que são partilhados por outras áreas. Mas temos algo que se apresenta como pano de fundo bem peculiar da Filosofia. O mito da mulher que não pensa. A atividade do cuidado que historicamente está sob a responsabilidade da mulher se estende às escolhas de carreiras. Cursos de enfermagem, pedagogia, terapia ocupacional, por exemplo, recebem uma quantidade expressiva de mulheres em relação à de homens. Por sua vez, carreiras dedicadas à reflexão e ao raciocínio não parecem ser um lugar para mulheres. Por isso, o corredor já começa estreito. Muitas mulheres não se sentem sequer capazes de começar uma graduação em Filosofia.

Mas nossa área não exige apenas o raciocínio e a reflexão. Para seguir adiante na carreira é necessário falar. Uma vez lá dentro, a sensação de que aquele espaço não é nosso persiste. Fazemos nossas leituras, provas, desenvolvemos textos e artigos, mas não nos sentimos à vontade para falar. As ideias vão se formando na cabeça, a boca quer se abrir para expressar uma ideia ou questão, mas nossa mão sua e o ambiente nos lembra que não temos chance ali de errar. Porque ao levantar a mão, os olhos vão primeiro identificar que você é uma mulher: dali em diante você tem de provar que, apesar de mulher, você tem algo relevante a dizer.

Por essa razão, enfrentar apresentação de comunicações em eventos cuja plateia é predominantemente masculina é atravessar um deserto. Assim como as bancas de seleção, qualificação, defesa e de concurso cuja maioria, com poucas exceções, é masculina. É como um eterno lembrete de que aquele espaço não nos pertence. Insistir em estar ali é acompanhado de um esforço bem peculiar que nenhum colega homem precisa despender. O esforço de eternamente ter de provar que aquele espaço também nos pertence. E isso é cansativo.

A bibliografia, da mesma forma, não nos deixa esquecer disso. A invisibilidade insistente das mulheres filósofas nas grades dos cursos poderia nos levar a crer que sequer existiu mulher na história do pensamento filosófico antes do século XIX. Ou que as que seguiram disso ainda não apresentam um trabalho tão relevante, porque ainda escapam dos currículos. A palavra “mulher” também passa batido nas leituras clássicas de cânones como Aristóteles, Kant e Nietzsche, por exemplo, como se não fosse relevante estudarmos como éramos entendidas ali naqueles textos. Não se trata, obviamente, de leva-los à fogueira. Deixar de ler Aristóteles por ele afirmar que a mulher se resume a sua capacidade de parir seria, no mínimo, ignorante. Mas não passar por cima desses trechos na leitura de “Política” é urgente.

Olhar para esses números indicados pela professora Carolina é reconhecer que há algo que vai mal. Encontrarmo-nos para discutir as razões desses números e as possibilidades de transformá-los é urgente e é o que já está acontecendo. Cresce a cada dia o número de encontros, colóquios e congressos que discutem não apenas teoria feminista, mas mulheres filósofas e a própria presença das mulheres na Filosofia, como o Encontro Vozes: as Mulheres na Filosofia ou Congresso Internacional Mulheres na Filosofia Moderna.

Tornar tudo isso problema institucional também é urgente. Por essa razão, o Grupo de Trabalho de Gênero e Filosofia da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (criado tão somente em 2016) se manifestou em 2017, na ocasião da escolha de representante de área da Capes, sobre a necessidade de inserir indicadores que possam balizar a licença-maternidade com os critérios de produtividade na avaliação dos programas.

O mesmo GT elaborou, no ano passado, um documento publicado pela Anpof com diretrizes para prevenir e combater o assédio moral e sexual nos programas de Pós-Graduação em Filosofia das universidades brasileiras. No documento constam diretrizes que os PPG em Filosofia adotem, além de medidas efetivas de combate ao assédio, medidas preventivas. Ele também explicita o que são assédios moral e sexual e solicita que o assunto seja incluído como um dos itens de avaliação dos programas.

Temos de retirar dos nossos ombros e de nossas estudantes o peso de ser mulher na Filosofia. As estudantes do Ensino Médio que, em sala de aula, conhecem e se encantam com essa nova área, têm de se sentir à vontade para estudá-lo na faculdade. Devem se sentir reconhecidas na bibliografia que evidencia Hipátia de Alexandria, Christine de Pizan, Anne Conway, Simone de Beauvoir, Ângela Davis ou Hannah Arendt. Não podem se sentir desencorajadas a escolher uma área que exige reflexão e raciocínio. Elas têm que se sentir bem para se posicionar e poder falar de suas ideias em aula. Não podem desistir da carreira por assédios ou pelo fato de terem sido mães. Ser mulher na Filosofia no Brasil não pode ser um desafio. Deve ser uma simples escolha.

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