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O Brasil à espera de uma faísca

Do IELA, 12 de Março de 2019
por Ricardo Almeida


Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança.

Chico Buarque


Estamos cansados de saber que a grande maioria do povo brasileiro diz que não gosta de política e que vota apenas por obrigação. É muito fácil identificar pessoas que votam e depois não acompanham a ação dos seus eleitos. Bertold Brecht fez uma constatação nesse sentido quando afirmou que o analfabeto político “não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio depende das decisões políticas”. No entanto, nessa afirmação, o poeta não orientou os seus leitores sobre como essas pessoas poderiam aprender a se interessar por política.

Claro, muitos de nós sabemos que somos governados por pessoas que gostam de política e que mesmo as questões mais simples são decididas pelos governos, pelos parlamentares (municipais, estaduais e federais), pelos juízes (em todas as esferas) e pelos anunciantes dos jornais, rádios e TVs do país inteiro. Mas, será que a esquerda brasileira está contribuindo para esclarecer a população sobre a atuação de cada um desses “agentes” reais?

Salvo os movimentos rurais (como a Via Campesina e sua rede de organizações setoriais) e urbanos como o MTST e o MNLM, por exemplo, está claro que existe pouca ação político-pedagógica permanente e participativa! Inclusive, uma parte significativa da nossa esquerda costuma criticar o povo (em abstrato) quando lhe convém e a elogiá-lo quando este mesmo povo apoia as suas políticas. Eis um exemplo: quando Lula governava o país e tinha mais de 80% de aprovação, diziam que os brasileiros não desistiam nunca e que tudo estava “no seu lugar”. Bastou acontecer uma série de “marolinhas” e uma derrota eleitoral para o povo passar a ser chamado de “pobre de direita”, de “coxinha” e de não sei mais o quê… Afinal, de qual povo nós estamos falando? É aquele mesmo da época de Lula ou será que essas pessoas mudaram com o vento?

Entendo que o uso indefinido desses adjetivos é uma atitude arrogante e suicida, pois desconsidera os fenômenos da opressão e da alienação dos indivíduos, seja pela exploração do trabalho ou pela falta de acesso aos grupos de reflexão etc. e tal. Essas atitudes também deixam claro que muitas pessoas defendem o legado de Paulo Freire, mas não assimilaram a sensibilidade das reflexões do mestre da práxis para a liberdade. Outras falam em Marx, mas nunca refletiram profundamente sobre as relações de trabalho ou os conceitos contidos nas Teses sobre Feuerbach ou nos Manuscritos Econômicos Filosóficos. Tem gente que, inclusive, faz “críticas psicanalíticas”, mas ainda não leu O Mal Estar na Cultura, de Freud, para não citar uma imensidão de importantes estudos sobre o corpo e a mente humana, produzidos em sua maioria no século 20.

Mas tudo bem, pois tudo é um processo permanente de ensino/aprendizado… Afinal, nós estamos recém experimentando aquela sensação de pertencimento a um movimento de lutas contra as injustiças, e a fase das críticas costuma anteceder a das ações coletivas. No entanto, para a superação desse estágio, é bom lembrar que nos anos 70 e 80 era possível questionar e discordar dos métodos de Che Guevara e de Marighela, por exemplo, mas que hoje isso se tornou quase que uma heresia e já não há espaço para aprofundar esse tipo de reflexão nos grupos de esquerda. Os partidos ainda seguem a lógica dos mandatos parlamentares, as organizações de base foram abandonadas, muitas pessoas estão abduzidas pelo “culto às personalidades” e perdemos o hábito de promover debates públicos em que seja possível ouvir o contraditório entre as próprias forças de esquerda.

Para não ser injusto, após a recente derrota para o projeto da extrema direita, estão sendo realizadas algumas importantes reflexões públicas, embora muitas ainda fiquem restritas ao meio acadêmico. Mas, no geral, para quem está do lado de fora, quem se informa apenas pelos programas de rádio, televisão ou pelas redes sociais, fica uma imagem de que ainda somos pessoas que só utilizam adjetivos e jargões, e que não temos propostas claras e nem paciência para o diálogo.

Creio que, se continuarmos assim, vamos atrasar o processo de reflexão pública sobre os temas geradores de consciência política (temas que mudam conforme a conjuntura política, e que vão desde as questões morais, como a insensibilidade com a morte de uma criança, até as questões de direitos, como o desmonte da previdência pública, às ameaças à soberania nacional etc.) que sejam capazes de apaixonar e de educar o nosso povo. A falta do debate público no passado recente foi uma das razões que levaram as pessoas a não se sentirem parte, a oscilar conforme o vento, devido às crises econômicas, entre uma candidatura e outra ou a desistir da política, ao votar nulo ou se abster no dia das eleições.

Vocês lembram que as eleições de 2014 foram polarizadas, e que Dilma venceu o candidato das elites econômicas com muitas dificuldades? Pois um olhar atento também vai perceber que naquele momento já estavam sendo articuladas algumas ações públicas pró-golpe: a Globo fez uma falsa autocrítica sobre a sua participação no golpe de 1964, o Aécio prometeu uma oposição sem tréguas, até fazer o governo “sangrar” e o Temer divulgou uma carta dizendo que já não se sentia parte daquele governo. Só faltava uma faísca para o descontentamento popular ser canalizado contra os governos “do PT”.

A faísca surgiu em 2013, em protestos legítimos contra o aumento da passagem de ônibus em algumas capitais do país. Hoje sabemos que a Rede Globo (leia-se, os seus patrocinadores) aproveitou aquelas manifestações para destacar a violência da repressão militar contra os estudantes e, ao mesmo tempo, incentivar setores das “classes médias” a sair de casa para defender a Lava-Jato e denunciar a corrupção “do PT”. Mas existe um ponto bastante negligenciado pela esquerda (em alguns casos, intencionalmente), que teve uma dimensão simbólica muito grande: as políticas econômicas do segundo mandato de Dilma foram decisivas para silenciar a maioria do povo trabalhador. Não esqueçam que, embora o Brasil passasse a ser a sexta economia do mundo e o nosso futuro, era de muita esperança, o país ainda apresenta uma das maiores desigualdades sociais do planeta, e que uma simples faísca pôde e pode (a qualquer momento) gerar um incêndio de grandes proporções.

Apesar de tudo, e a partir da memória dessas experiências estamos refazendo a história e avançando na organização de pequenas ações de base. No entanto, percebo que a maioria dessas ações ainda se baseia nas lembranças do período Lula, nos desastres do governo Temer e deste governo militarizado. Foi por isso que eu escrevi num tom de advertência, pois sinto que falta uma reflexão profunda sobre o papel do Brasil no cenário internacional e sobre os fenômenos da alienação, da liberdade e da consciência política dos brasileiros.

Se a sociedade conservadora aprendeu com as derrotas sofridas nos primeiros anos do século 21 e trabalhou na base da sociedade, seja por meio dos pastores neopentecostais, dos milicianos ou patrocinando as fakenews, nós temos de enfrentá-la utilizando práticas e teorias que podem dar certo, organizando com antecedência as nossas mobilizações e diferentes atividades culturais e políticas.

Este desafio passa pela superação do vício nas redes sociais, que está nos transformando em seres apenas das palavras escritas e não das ações. Estamos convivendo diariamente com curtidas, sorrisos e com carinhas de desgosto, mas isso não significa que exista um comprometimento prático com outras pessoas. Como as nossas melhores experiências de mobilizações livres ficaram nos distantes anos de 70 e 80, algumas pessoas até falam em voltar às origens dos partidos de esquerda, mas não percebem que essas origens foram e são os movimentos sociais e as organizações de base. Ou seja, aquilo que falamos na internet deveria ser dito ao guarda da esquina, à atendente de telemarketing, ao motorista da Uber e aos dirigentes sindicais e comunitários, seja na fila do banco ou na ida para a escola.

Com a perda de direitos e a precarização do trabalho, com o desmonte da previdência pública e a venda das nossas riquezas, o povo brasileiro começou a entender a relação entre as forças econômicas e a política. No entanto, é preciso aprofundar essas reflexões, pois existem diversos elementos que podem contribuir para esclarecer a abrangência do golpe de 2016. Por exemplo, o mundo inteiro sabe que a Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos utiliza estratégias de desestabilização política para promover a pilhagem e a ascensão de regimes autoritários nos continentes, que Dilma e a Petrobrás foram alvo direto de espionagem pelo governo estadunidense, que o juiz que condenou Lula sem provas fez treinamento e palestrou por diversas vezes nos EUA, que um agente norte-americano assumiu publicamente que eles possuem bons apoios aqui no Brasil, que Steve Bannon, com recursos de caixa 2, ajudou a eleger Bolsonaro por meio de armadilhas, mentiras e intrigas, que depois o ex-juiz Sergio Moro aceitou ser o ministro da justiça do governo das fraudes e das fakenews, e que o capitão presidente é um verdadeiro aloprado, pois durante a sua posse agradeceu ao general Villas Boas pela sua eleição e que “tudo iria ficar apenas entre os dois”. Agora, já não falta nem mesmo um policial federal com o distintivo da polícia norte-americana, SWAT, para revelar a complexidade do golpe dado nos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras brasileiras.

As Caravanas Lula, as campanhas eleitorais do ano passado e o movimento #EleNão foram importantes para um acúmulo de forças, e as vigílias #LulaLivre e o movimento #MariellePresente seguem renovando a nossa esperança, mas o Carnaval de 2019, as manifestações do 8M – no Dia Internacional da Mulher, e a performance do presidente autoproclamado Zé de Abreu revelaram que o Brasil está a espera de uma faísca para incendiar novamente. Pensando nesta possibilidade, as forças de esquerda deveriam promover uma ampla reflexão sobre essas experiências e oxigenar a memória da sua militância, pois ela detém as nossas melhores referências e podem esclarecer o grande público quais são os interesses de classe, das categorias e dos setores que estão em disputa.

Ao reconhecer as autonomias e as possibilidades de convergências entre as diferentes propostas e expressões, poderemos iniciar um movimento horizontal e radicalmente democrático em cada estado e município brasileiros. No entanto, para isso ocorrer, será fundamental reunir pessoas que entendam que a política não é uma responsabilidade somente dos “políticos”, que a educação não é uma tarefa exclusiva dos professores, que os debates sobre economia não possuem unicamente um viés economicista e que as manifestações culturais não se limitam às artes.

Enfim, não faltam desmandos deste novo governo para serem denunciados, y todas las armas son buenas para acabar com os falsos mitos, desde a pesquisa histórica até a crítica, a sátira e a ironia – presenciais e digitais. Mas não podemos esquecer que houve um golpe de Estado de novo tipo no Brasil, que a maioria dos parlamentares foi eleita na base de fakenews patrocinadas (portanto, foi uma fraude) e que estamos no meio de uma disputa econômica, cultural e política de abrangência planetária. Quem continua sentado é porque ainda não assimilou que a economia e a política se globalizaram, que há uma crise das democracias representativas pelo mundo afora e que este período de transição está resultando, paradoxalmente, na radicalização da democracia (da participação direta) ou na ascensão de governos autoritários. Taokei?



Publicado originalmente no www.sul21.com.br

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