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"Não podemos deixar que o medo da ultradireita nos leve ao feminismo liberal"

Créditos da foto: (Fernando Sánchez)
Em sua visita a Madrid, para participar de um ciclo de debates, a filósofa e feminista estadunidense, Nancy Fraser, explicou os fundamentos do movimento feminista dos 99% e advertiu sobre os riscos de ceder ao feminismo liberal pelo medo de enfrentar a ultradireita


Da Carta Maior, 27 de Março, 2019
Por Marisa Kohan


Nancy Fraser, filósofa política, intelectual e feminista estadunidense, é professora da New School for Social Research e uma das impulsoras do chamado “Feminismo dos 99%”. Recentemente, ela esteve em Madrid para participar de um ciclo de conferências organizado pelo Grupo de Estudos Críticos, um projeto do Centro Estudos do Museu Rainha Sofia, em colaboração com o Medialab. Nesta entrevista com Público.es, Fraser apresenta as chaves deste movimento feminista, a necessidade de mudar o modelo capitalista e os riscos que enfrentamos nesta tarefa.

Público: O que o é feminismo dos 99% e quais são suas principais ideias?

Nancy Fraser: é uma tentativa de dar nome e um conjunto de ideias a um novo ativismo feminista, que está se desenvolvendo nos últimos anos, e que acreditamos que representa uma alternativa real ao tipo de feminismo que tem sido o predominante, ao menos nos Estados Unidos, no Reino Unido e na França, além de alguns outros países – não estou certa de se na Espanha também. Até há pouco tempos atrás, esses países foram testemunhas de um tipo de feminismo liberal, centrado principalmente nas preocupações das mulheres de classe média alta ou das mulheres dos 10% mais altos da sociedade. São elas as que se beneficiam desse tipo de feminismo, e encontraram seu caminho para prosperar na hierarquia empresarial.

Eu diria que isso deu ao feminismo um nome negativo, porque o associou com o elitismo, o individualismo, o consumismo… A ideia de que as feministas são mulheres de carreira que fizeram suas vidas sozinhas. Não sei se é totalmente assim, mas é desta forma que a grande maioria das mulheres da classe trabalhadora enxergam a questão. Pessoas que observam o presente não como um momento de crescimento, mas sim o contrário, um tempo no qual as condições de vida estão em declínio, com perda de empregos estáveis, com redução dos salários. Enfim, um montão de caos na vida.

Creio que este feminismo liberal perdeu sua credibilidade. Do ponto de vista dos Estados Unidos, a derrota de Hillary Clinton nas eleições de 2016 para Donald Trump foi como um alarme para despertar, porque as cifras indicam que 52% das mulheres brancas votaram por Trump.

É uma estatística surpreendente. Mostrou que o feminismo corporativo de Clinton não era um feminismo para todas as mulheres. Agora, temos este novo tipo de ativismo, que é o ativismo anti austeridade, que defende padrões de vida de uma forma mais ampla, que se interessa pelos direitos dos migrantes, sobre a situação das mulheres trabalhadoras, das mulheres negras… quando escrevemos o manifesto para o feminismo dos 99% queríamos promover essa guinada do feminismo. Um conceito longe do liberalismo individualista e mais próximo das preocupações da grande maioria das mulheres, e também dos homens.

Nosso manifesto dá nome a este movimento e tenta articular o pensamento que o pode transformar em um movimento radical, genuinamente transformador e anti sistema.

Público: E é possível construir isso dentro de um sistema capitalista ou será preciso construir um novo sistema?

Fraser: Definitivamente necessitamos um novo sistema de algum tipo. O atual sistema de capitalismo liberal financeiro está em uma crise aguda e necessita mudanças estruturais muito profundas: em nossa relação com a natureza, uma mudança na relação entre produção e reprodução, entre o trabalho assalariado e a vida familiar… uma mudança no sistema democrático.

Ainda é cedo para dizer se esta é uma transformação poderia nos levará para um sistema que supere o capitalismo. Tampouco sabemos se existe uma forma de capitalismo que possa responder adequadamente a esta crise aguda. Não acho que devamos responder essa pergunta agora, mas minha vontade é a de que sim, pois acho que precisamos nos mobilizar por algo que vá além do capitalismo.

Público: E isso seria algo que vai sendo construindo durante o processo, e não a partir de outras teorias que vão ditando um caminho?

Fraser: Creio que é um pouco das duas coisas. Através de nossas lutas vamos descobrindo quanto esse sistema pode ou quer nos dar, e se pode ou não solucionar os nossos problemas. Também descobrir, pelo método de prática e erro, quais são as mudanças que necessitamos, e quais são as que realmente queremos. Ou seja, há um processo de ignição no pensamento, que vem acontecendo através do ativismo.

Na minha vida, eu aprendi com o ativismo quase tanto quanto no ensino universitário formal. Este manifesto propõe algumas ideias como um esboço do que uma alternativa pode chegar a ser, mas com um espírito de tentar e ver quais são os resultados. Não é um dogma.

Público: Quais são as principais ideias contidas no feminismo dos 99%?

Fraser: Uma das principais ideias é a de que o eixo das desigualdades de género em nossa sociedade se deve à separação que o capitalismo faz entre a produção de matérias primas para obter o lucro e a reprodução social, ou “produção de seres humanos”. Ou seja, a vida familiar, o setor social e a vida comunitária.

Essa separação não existia antes do capitalismo. Todas estas atividades eram parte do mesmo universo social. Quando o capitalismo introduziu a ideia de produção por benefício nas fábricas, dividiu nossas vidas nestas duas partes e a divisão está organizada por gênero: a responsabilidade das mulheres é trabalhar na esfera social (mesmo que privadamente, sem receber salário, ou como professoras, enfermeiras, etc).

Enquanto os homens trabalham nas indústrias, no Exército… esta divisão, na minha opinião, é a peça central da subordinação moderna das mulheres. Houve outras formas, mas funcionaram de outra maneira. É uma organização na qual o trabalho de produção se paga em dinheiro e o de reprodução social, que é o realizado pelas mulheres, na imensa maioria das vezes não se paga. E isso coloca as mulheres em uma desvantagem estrutural na sociedade.

Ao simplesmente entender esta dicotomia de produção e reprodução já nos colocamos em um longo caminho para pensar o que será preciso mudar. Temos que reintegrar aspectos da vida que agora estão separados e contrapostos uns contra outros. Não temos tempo de cuidar das nossas famílias, se temos que, ao mesmo tempo, realizar um trabalho exigente, um trabalho pago de jornada completa, ou até mesmo múltiplos trabalhos, como muita gente tem que fazer hoje em dia. Nos Estado Unidos, as professoras recebem um salário muito baixo, e muitas delas precisam ter um segundo trabalho em um supermercado para ter o suficiente para viver. Isso é absurdo. Como posso, além disso, realizar os trabalhos de reprodução social. Especialmente se os homens, na grande maioria das vezes, não fazem sua parte nos trabalhos de cuidados.

Público: Qual é o papel dos homens nesse processo?

Fraser: Os homens deveriam ser feministas também. Este feminismo para os 99% é um movimento para melhorar a vida de todo mundo, superando a desigualdade de gênero, a desigualdade de raça… todas as desigualdades. Mas não é um movimento contra os homens. É um movimento contra uma estrutura social, um sistema que cria todas estas desigualdades.

Esta crise financeira que vivemos é uma crise do sistema, ou é o sistema em si mesmo? A queda do poder de compra dos salários, o desinvestimento em serviços públicos... isso é uma consequência ou um plano organizado?

Nós sofremos uma tremenda reorganização do capitalismo na passagem da anterior fórmula social democrata, que era menos globalizada e menos financeira, e que dava mais apoio estatal à esfera da reprodução social. Não era um sistema perfeito, claro que não, mas foi o que deu lugar a este capitalismo neoliberal e financeiro.

Em 2007 e 2008 tivemos quase uma fissão nuclear do sistema financeiro mundial. Mas a crise financeira foi só um dos elementos de uma crise muito maior, que também incluiu uma crise ecológica, uma crise democrática, de migração, e dos cuidados ou da reprodução social, que tem a ver com o desinvestimento em todas as necessidades sociais, e a incorporação das mulheres aos trabalhos pagos em jornada completa.

Todos estes são diferentes elementos de uma única e gigantesca crise, que podemos considerar com uma crise geral do capitalismo neoliberal e financeiro. A crise que inundou todo o sistema, devido ao carácter contraditório e insustentável deste sistema.

Público: E o feminismo dos 99% é a resposta a esse declínio?

Fraser: O feminismo dos 99% está emergindo como uma das respostas a esta crise. Os supremacistas brancos também estão respondendo a esta crise, junto com os movimentos populistas… há um grande leque de movimentos tentando dar respostas. Nós somos uma das forças que cresceu neste cenário aberto e incerto, e que tenta oferecer uma alternativa

Público: E quais são os riscos?

Fraser: O risco é que este movimento dos 99% acabe perdendo contra os movimentos de extrema direita supremacistas e anti imigrantes, que são muito desagradáveis, como o que lidera Trump nos Estados Unidos, e o Vox na Espanha. O outro risco é que nos assustemos tanto com os movimentos ultraconservadores que em vez de lutar pelo que realmente queremos acabemos cedendo espaço ao feminismo liberal. E voltar a essa aliança do feminismo com o liberalismo não é a solução, porque entraríamos num círculo vicioso: neoliberalismo, trumpismo, neoliberalismo, um trumpismo pior. Até que realmente cheguemos ao um fascismo, do qual ainda creio que estamos longe.

É necessária uma ruptura neste ciclo. Mas não podemos voltar às trincheiras só para defender o que temos ou tentar não perder o que já ganhamos, porque seguiremos presas nesse ciclo.

Público: Na Espanha, temos partidos de direita promovendo um feminismo liberal que inclui a regulação da prostituição e os ventres de aluguel entre suas propostas. Suponho que você se refere a isso quando fala em não voltar ao neoliberalismo.

Fraser: As pessoas estão compreensivelmente assustadas com esta direita extrema, e podem cometer o erro de pensar que não têm como defender o que acreditam ser o certo, e que é preciso defender o status quo. E na minha opinião isso é um erro, porque defender o status quo foi justamente o que permitiu que estes movimentos de extrema direita começassem a ganhar espaço.

Público: Você foi muito crítica do que chama de “feminismo domesticado”, ou “feminismo da elite”. Na Espanha, Ana Patricia Botín, presidenta do maior banco do país, se declarou feminista recentemente. Isso pode ajudar a igualdade de alguma forma?

Fraser: Não a conheço, mas imagino nomes como Sheryl Sandberg (diretora executiva do Facebook), Christine Lagard (diretora gerente do FMI) ou Hillary Clinton. Estas são três figuras que provavelmente se parecem com o modelo no qual você menciona. Me refiro a elas quando afirmo que dão ao feminismo um nome incorreto. Se a gente chega a pensar que isso é feminismo, temos que concluir que este movimento não pode fazer nada pelas pessoas, e que elas não deveriam apoiá-lo, porque no fundo é um projeto que continuará sendo daninho para a sua realidade.

Ou seja, as pessoas que estragam a vida de muitas outras não são somente os homens, mas também as mulheres.

O que este tipo de feminismo realmente faz é o que chamamos no manifesto de: a dominação da igualdade de oportunidades, pois defende que a classe dominante que governa deve ter igualdade entre homens e mulheres. Ou seja, o setor que arruína a vida de muitas pessoas no mundo não deve ter só homens, mas também mulheres. É uma aspiração absurda.

Público: Muitos partidos conservadores querem se mostrar agora como defensores das mulheres, mas sem usar a palavra feminismo. Dizem que lutam pela igualdade. Precisamos redefinir o conceito de igualdade?

Fraser: Totalmente. Creio que a maior parte daquilo que chamam hoje de “igualdade” é, na verdade, meritocracia. Entendem o problema da discriminação como uma infrarrepresentação das mulheres no topo e que é necessário eliminar essa desigualdade para que as mulheres possam crescer de acordo ao seu talento, em relação aso seus méritos. Isso deixa totalmente intacta a estrutura hierárquica e não beneficia os 99% das mulheres, apenas o 1%, ou as que pertencem aos 10% mais ricos da sociedade. Ou seja, a classe diretora profissional.

Essas mulheres só podem ter sucesso no que fazem se contratam outras mulheres com salários muito baixos e em trabalhos muito precários, mulheres migrantes pobres de outras raças que limpam suas casas, cuidam dos seus filhos, ou atendem os seus pais anciãos em residências da terceira idade. Em outras palavras: há uma relação direta entre esta noção de igualdade e o aumento da desigualdade. É uma ideia de igualdade de classe que diz que as mulheres devem ser iguales aos homens de sua mesma classe, e não importa as demais desigualdades. Definitivamente, o feminismo liberal faz com que seja necessário redefinir uma nova ideia de igualdade.

*Publicado originalmente em publico.es | Tradução de Victor Farinelli

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