Pages

Crônica às mulheres assassinadas

Do Le Monde Diplomatique. Março 7, 2019
por Lucilene Machado



Dormir sobre a realidade imposta hoje à mulher é acordar no centro de uma página em branco com uma arma apontada para a nossa cabeça.

Salve, mulheres! Ave irmãs! Eu vos saúdo e choro a vossa sina. Humilhadas, estupradas, perseguidas, vilipendiadas e forçadas prematuramente ao silêncio eterno, apenas por serem mulheres. O machismo matou mulheres públicas, matou profissionais, matou mães, matou tias, vizinhas, amigas, primas, esposas, amantes… matou uma a uma, por séculos de vileza e a vida seguiu como se nada de mais grave estivesse acontecendo.
Desde Penélope que tentam nos silenciar, desde o início da civilização que esperamos proteção e muito pouco temos conseguido. Continuamos a ser lançadas do alto de edifícios, queimadas vivas, assassinadas por armas diante da família e da sociedade que, timidamente, emite sinais de revolta. O medo está arraigado no subconsciente das pessoas. Nós, vossas irmãs de carne e espírito seguimos com nossas vozes e nossa vontade que parecem coisa nenhuma diante desse universo de extremistas, fundamentalistas, de gente com entendimento tosco, sem sabedoria, sem sensibilidade que imputam a nós os defeitos que estão neles, desqualificando o nosso discurso, deturpando os nossos conceitos e convocando parte de nossas mulheres para engrossar suas fileiras. Gente que fala em nome de um deus inventado, um deus carrasco que se compraz com a tortura e a dor humana.
Certamente não é o Deus que vos recebeu, não é o Deus que se fez homem para dizer aos homens que as prostitutas chegariam antes deles no reino dos céus. Um Deus que veio para as minorias, que veio para suplantar os velhos conceitos e fazer uma nova aliança. Mas até ele foi torturado e morto, foi crucificado pelos religiosos, teve a liberdade trocada pela a de um ladrão e, como representação do mais baixo lugar na escória da humanidade, ganhou a cruz.
Não nego que esse quadro bíblico produz medo, mas não podemos deixar silenciar as vossas vozes. Não podemos deixar que o machismo siga a enganar muitas de nós, que siga a dizer que as mulheres são apenas o outro lado da moeda, a parte detrás, o complemento, suspeitas sempre de algum crime, porque fazem pacto com serpentes. Joana D´arc teve a morte decretada por motivos tais, tinha pactos secretos, com Deus ou com o diabo, não se sabia ao certo. Na verdade, o rei francês temia sua liderança, temia que ela pudesse se aliar aos camponeses e exercer o poder. Foi entregue aos ingleses, que também se sentiram ameaçados pela sua capacidade e a mataram como feiticeira. Foram necessários cinco séculos para provar que ela, na verdade, era santa.



Temos medo dos homens que rechaçam as mulheres politicamente, que continuam a julgá-las em nome de interesses próprios. Homens que querem o poder a todo custo, moralistas de olhares malévolos que farejam o ar procurando uma réstia de cheiro de pecado para emitir uma sentença de morte. Mesmo vivas, morremos todos os dias pelos julgamentos mecânicos, pela austeridade das ações injustas, pelas doutrinas secas, pela objetificação do nosso corpo, pela mercantilização feminina, pela falta de sororidade e outros princípios que dialogam ou estão integrados à palavra machismo.
É preciso coragem para ser mulher, sentir a vida a nos golpear com as pedras da nossa própria história. É preciso ter coragem para prosseguir com a nossa luta e ocuparmos as praças do mundo. Não temos muitas escolhas, além de sairmos às ruas com os nossos corpos em sacrifício e sermos, vez por outra, rotuladas de vadias. Estamos quase sem defesa e vamos, pouco a pouco, perdendo a dimensão da fé. Nossos pensamentos têm espasmos, têm redemoinhos, mas não vamos morrer sem antes revidar essa culpa judaico-cristã que nos jogaram nos ombros e pela qual temos parto com dores todos os dias.
Salve irmãs indígenas, negras, gays ou quaisquer que, além de mulher, pertenceram a outras minorias e, sofreram feminicídios por preconceito ou por se atreverem a sonhar. Eu me envergonho dessa doença que corrói a humanidade chamada preconceito, que relampeja nos olhos a desdenhosa luz vermelha da torpeza, do ódio e todo o seu visgo.
Salve mulheres transexuais, trangêneros ou qualquer outra categoria que reivindicou uma identidade feminina e teve a vida dilacerada. Na condição de cidadã, peço desculpa pelo massacre aos corpos dissidentes que pereceram, sem defesa, em seus anonimatos. A democracia atual é apenas um conceito que não funciona na prática. A política é o lugar da mentira e está muito longe de se constituir em força contra a injustiça e de ser o palco dos enfrentamentos com igualdade.
Dormir sobre a realidade imposta hoje à mulher é acordar no centro de uma página em branco com uma arma apontada para a nossa cabeça. Todas estamos na mira do machismo, esperando leis que nos protejam, esperando campanhas que desestimulem os homens a nos matar, esperando por uma educação que conscientizem as crianças da igualdade entre gêneros, esperando pelo fim da impunidade aos assassinos. Todas nós podemos pagar com a vida o preço de ser mulher, daí a obrigação de sermos fortes, de curarmos as nossas feridas e seguirmos lutando, com nossas estratégias de proteção, nossas máscaras de sobrevivência, bordando em cruz os panos que limpam o sangue quando se rompe a capsula interna e nos dói o mundo.

Lucilene Machado é Doutora em Teoria Literária, Professora UFMS

Nenhum comentário:

Postar um comentário