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Bensaïd: Lênin, o Estado e a revolução

"Em 'O Estado e a revolução', Lênin rompe radicalmente com 'o cretinismo parlamentar' do marxismo ortodoxo. Conserva, no entanto, sua ideologia gestionária."

Do Blog da Boitempo, 26 de Março, 2019
Por Daniel Bensaïd.








Se estivesse vivo, o filósofo e militante marxista francês Daniel Bensaïd completaria hoje seus 63 anos de idade. Em homenagem à data, trazemos este “artigo-prefácio” escrito por ele em agosto de 2007, por ocasião do aniversário de 90 anos da publicação de O Estado e a revolução, de Lênin, obra histórica escrita às vésperas da Revolução Russa. A tradução é de Bruna Ianni e Pedro Barbosa, a partir da versão em espanhol publicada no site do autor, para o Blog da Boitempo. Boa leitura!

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O Estado, a democracia e a revolução: um retorno a Lênin e 1917
Por Daniel Bensaïd.

Redigido na clandestinidade e com urgência em agosto de 1917, depois das jornadas de julho, O Estado e a revolução é um texto pré-insurrecional. Para compreender seu alcance polêmico, e para compreender alguns de seus exageros ou fórmulas unilaterais, deve-se recordar que constituiu um gesto de ruptura com relação à ortodoxia da II Internacional. A intervenção de Anton Pannekoek em 1912 na Neue Zeit havia provocado um escândalo. Contrariamente a Bernstein e Kautsky, para quem a revolução significava somente um “deslocamento de forças” no seio do aparato do Estado, ele havia desenterrado os textos de Marx sobre O 18 de brumário de Luís Bonaparte, A guerra civil na França, a Crítica do programa de Gotha, para recordar aos amnésicos pensadores oficiais da social-democracia alemã que não bastava apoderar-se de um poder de Estado forjado pela burguesia para o seu uso, mas que era necessário destruí-lo.

Tal era a função da ditadura do proletariado, da qual Marx fazia, em sua famosa carta de 1852 a Weydemeyer, uma de suas maiores contribuições à teoria revolucionária de seu tempo. O artigo de Pannekoek foi acolhido como uma recaída em um anarquismo primário. Grande admirador de “Caminhos do poder”, de Kautsky, o próprio Lênin quase não tomou posição na polêmica e continuou aceitando a leitura seletiva dos textos de Marx por seus herdeiros oficiais. Foram, portanto, necessárias a prova da guerra e a revelação da “quebra da II Internacional” para que ele reconsiderasse a questão e relesse sob a pressão de Bukharin a obra de Marx com outros olhos. O Estado e a revolução é o produto desta leitura no calor e na urgência do acontecimento revolucionário.

Para Lênin, como para Engels, o Estado não é nenhum poder imposto à sociedade do exterior, nem, segundo a fórmula de Hegel, “a imagem da realidade na razão”, mas “o produto da sociedade em um estágio determinado de seu desenvolvimento”. Expressa o fato de que “as contradições de classe são inconciliáveis”. A consequência prática disso é que “a libertação da classe oprimida é impossível, não somente sem uma revolução violenta, mas também sem a supressão do aparato de poder de Estado criado pela classe dominante”. Para Marx, de fato, a experiência da Comuna de Paris havia provado que “o Estado representativo moderno” é em primeiro lugar um instrumento de exploração do trabalho pelo capital.

Em sentido oposto ao das utopias pequeno-burguesas de um Estado em levitação por cima das classes, o Estado é a organização da violência de classe. Esta conclusão esclarece as passagens célebres do 18 brumário, nas quais Marx constata que todas as revoluções políticas não tinham realizado até então senão o aperfeiçoamento da máquina de Estado ao invés de “quebrá-la, de demoli-la”, e não de contentar-se com “tomar posse dela”. É precisamente o que levou a cabo a Comuna. A “democracia burguesa” se converte então em “proletária” e “se transforma em algo que já não é mais propriamente um Estado”.

Marx exige então claramente a destruição do Estado existente como “excrescência parasitária” da sociedade. Estas frases, escritas há mais de meio século, se indigna Lênin, foram tão profundamente enterradas pela social-democracia alemã, que para desenterrá-las era necessário realizar “verdadeiras escavações”. Certamente, os anarquistas haviam “evitado as formas políticas” de poder revolucionário, mas os oportunistas da II Internacional por sua vez haviam “aceitado as formas burguesas do Estado democrático parlamentar”. A forma transitória da desaparição de Estado será, contrariamente às ilusões libertárias, “o proletariado organizado em classe dominante”. Marx não tentou inventar esta forma. Se contentou em observar o curso real da luta de classes para descobrir na Comuna “a forma enfim encontrada”.

No período de transição inaugurado por uma revolução, “um aparato militar e burocrático especial” se converte em supérfluo, mas ainda é preciso medir a troca e a distribuição. É somente quando se puder distribuir “vivendas” grátis que “a extinção total do Estado” se colocará na ordem do dia. Enquanto isso, a ditadura do proletariado segue sendo “uma forma de Estado” determinada. Quando Marx polemiza contra as teses anarquistas, insiste Lênin, não é para censurar-lhes a ideia de uma desaparição do Estado, mas sim a sua negativa a utilizar, se for necessária, a violência coercitiva organizada, “é dizer, um Estado”, mas um Estado que já não é, como dizia Engels da Comuna, “um Estado em sentido próprio”.

Para Lênin, como para Marx e Engels, a questão do Estado é indissociável da questão da ditadura do proletariado, como organização da força e da violência, “tanto para reprimir a resistência dos exploradores como para dirigir a grande massa da população”. Se essa “ditadura” tem um caráter de classe, não se concebe, no entanto, como uma ditadura corporativa.* Se trata de tomar o poder para “conduzir o povo inteiro ao socialismo”. A fórmula evoca o conceito de hegemonia, que era corrente na social-democracia russa para definir a relação entre proletariado e campesinato na aliança operária e camponesa, muito antes de Gramsci lhe dar o seu novo alcance estratégico. Já se trata de formar um bloco histórico, sem esquecer que “pelo papel que joga na grande produção, o proletariado é o único capaz de ser o guia de todas as classes trabalhadoras exploradas mas incapazes de uma luta independente por sua libertação”.


Para Lênin, que cita a carta a Weydemeyer, a ditadura do proletariado é a “pedra de toque” que permite “provar a compreensão e o reconhecimento do marxismo”: representando “uma ampliação sem precedentes da democracia”, não pode se limitar a esta simples ampliação, pois deve também romper pela força a resistência dos opressores. A democracia, que segue sendo uma forma de Estado, está assim convocada a desaparecer igual ao Estado e com ele. Estamos, deduz disso Lênin, por uma república democrática como a “melhor forma de Estado para o proletariado no regime capitalista”, porém nenhum Estado pode ser declarado, como pretendem os social-democratas alemães, “livre e popular”: a república democrática é “o caminho mais curto que conduz à ditadura do proletariado”, cujas formas transitórias podem variar até o infinito, mas cuja “essência” segue sendo a mesma. Em uma sociedade capitalista, a democracia segue sendo uma democracia para os ricos, enquanto que a ditadura do proletariado deve instaurar uma democracia para o povo. Na transição de uma para a outra, “a distribuição dos objetos de consumo supõe necessariamente um Estado burguês”.

O Estado subsiste, em um primeiro momento, porém “como Estado burguês sem burguesia”. Esta fórmula paradoxal servirá de novo para Lênin pensar de forma inédita o tipo de Estado saído da Revolução Russa. Mas, um Estado burguês sem burguesia não é, no entanto, um Estado proletário. O Estado burguês sem burguesia vai assim se converter no terreno sobre o qual se expandem os perigos profissionais do poder e em cujo abrigo se desenvolve uma nova forma de excrescência burocrática parasitária da sociedade.

Em O Estado e a revolução, Lênin rompe radicalmente com “o cretinismo parlamentar” do marxismo ortodoxo. Conserva, no entanto, sua ideologia gestionária. Assim imagina ainda que a sociedade socialista “não será mais que uma oficina, um só ateliê, um com uma igualdade de trabalho e igualdade de salário”. Tais fórmulas recordam certas páginas nas quais Engels sugere que a extinção do Estado significará também uma extinção da política em benefício de uma simples “administração das coisas”, cuja ideia é tomada de empréstimo dos saint-simonianos; dito de outra forma, de uma simples tecnologia de gestão do social, donde a abundância existente dispensaria o estabelecimento de prioridades, o debate de opções, de fazer viver a política como espaço da pluralidade.

Para a social-democracia alemã, o correio era “o modelo socialista” por excelência. “Nada é mais justo”, sublinha Lênin, pois “o mecanismo de gestão social está aí perfeitamente disposto”, ou também “admiravelmente equipado”. Tal entusiasmo, que se encontrará mais tarde em seu elogio do taylorismo, indica que, para ele, a destruição da máquina burocrática do Estado dificilmente interfere na divisão do trabalho, com sua organização disciplinar burocrática, como se bastasse em suma “tomar posse” do aparato de produção tal qual, sem ter de transformá-lo. Lênin persiste em sua utopia gestionária imaginando que, quando o Estado e a autoridade política desaparecerem, “as funções públicas perderão seu caráter político e se transformarão em simples funções administrativas”. Se trata aqui não somente da extinção do Estado, mas claramente da extinção da política, solúvel na administração das coisas.

Como ocorre frequentemente, tal utopia, na aparência libertária, se torna uma utopia autoritária. O sonho de uma sociedade que não seria “toda ela mais do que uma única oficina e um só ateliê”, não remeteria, na realidade, a mais do que uma boa organização de seu funcionamento. Igualmente, um “Estado proletário”, concebido como um “cartel de todo o povo”, pode facilmente conduzir à confusão totalitária entre a classe, o partido e o Estado, e à ideia de que, neste cartel de todo o povo, os trabalhadores já não teriam de fazer greves, posto que isso seria fazer greves contra si mesmos.

Parece claro então que, querendo virar o pescoço ao legalismo institucional da II Internacional em uma situação revolucionária, Lênin vira também o bastão da crítica em outro sentido. Rompe com as ilusões parlamentares. Mas se proíbe da mesma forma de pensar as formas políticas do Estado de transição. É este ponto cego que Rosa Luxemburgo vai colocar em evidência. Diferentemente dos críticos vulgares da Revolução Russa, ela estabelece desde 1906, em um artigo publicado na Rote Fahne, uma distinção radical entre blanquismo e bolchevismo: “Se hoje os camaradas bolcheviques falam de ditadura do proletariado, nunca lhe deram a antiga significação blanquista, e jamais caíram no terror da Narodnaia Volia, que sonhava com tomar o poder para si. Pelo contrário, afirmaram que a atual revolução [só] pode encontrar seu fim quando o proletariado, toda a classe revolucionária, se apoderar da máquina de Estado”.

Para ela, a ditadura do proletariado não pode ser a de um partido minoritário substituindo a classe. E se assume plenamente a noção de ditadura do proletariado em sentido amplo ⎼ “nenhuma revolução terminou de outra forma senão pela ditadura de uma classe” ⎼, adverte também os social-democratas russos: “Aparentemente, nenhum social-democrata se deixa levar pela ilusão de que o proletariado possa manter-se no poder. Se pudesse manter-se nele, então implicaria a dominação de suas ideias de classe. Suas forças não bastam para isso no momento atual, pois o proletariado, no sentido mais estrito da palavra, constitui precisamente, no império russo, a minoria da sociedade. No entanto, a realização do socialismo por uma minoria está incondicionalmente excluída, posto que a ideia de socialismo exclui justamente a dominação de uma minoria”. Depois da queda do tsarismo, o poder se retornará então “à parte mais revolucionária da sociedade, o proletariado”, que “se apoderará de todos os postos e permanecerá alerta enquanto o poder não estiver nas mãos legalmente chamadas a detê-lo, no novo governo em que a constituinte é a única em poder de determinar enquanto órgão legislativo eleito pela população”. Prevê que em tal assembleia os social-democratas não serão majoritários, mas sim “os democratas camponeses e pequeno-burgueses”.

Este artigo de 1906 prefigura e anuncia o famoso folheto de 1918 sobre a Revolução Russa. Em um artigo de 1918, intitulado “Assembleia nacional ou governo dos conselhos”, ela condena de novo o cretinismo parlamentar que havia conduzido a maioria socialista à política de união sagrada na guerra: “Realizar o socialismo pela via parlamentar, por simples decisão majoritária, é um projeto idílico [fantasioso]”. Não renuncia, no entanto, ao que escrevia desde 1904 sobre a necessidade a ação fora e dentro das instituições, “a necessidade tanto de reforçar a ação extraparlamentar do proletariado, como de organizar com precisão a ação parlamentar de nossos deputados”. Em seu folheto de 1918 sobre a Revolução Russa, ao contrário dos socialistas ortodoxos da social-democracia alemã, saúde a revolução e aos bolcheviques que haviam “ousado” abrir a via ao proletariado internacional tomando o poder. Sublinha as responsabilidades que resultam disso para os revolucionários europeus, começando pelos alemães: “Na Rússia, o problema só podia ser colocado. Não podia ser resolvido na Rússia. Neste sentido, o futuro pertence em todas as partes ao bolchevismo”. O futuro da Revolução Russa se joga, pois, em uma grande medida, na arena europeia e mundial.

Não deixa de ser certo, também, que os bolcheviques russos têm também sua parte de responsabilidade. Em uma primeira parte de seu folheto, Rosa critica suas medidas sobre a reforma agrária e a questão nacional. Criando não uma propriedade social, mas uma nova forma de propriedade privada agrária, a divisão dos grandes domínios “aumenta as desigualdades sociais no campo” e gera massivamente uma nova pequena burguesia agrária cujos interesses entrarão inevitavelmente em contradição com os do proletariado. Igualmente, a aplicação generalizada do direito à autodeterminação para as nacionalidades do império tsarista não conduz além da “autodeterminação” das classes dirigentes dessas nacionalidades oprimidas, pois “o separatismo” é “uma armadilha puramente burguesa”. Lênin e seus amigos haviam “inflado artificialmente a prepotência de alguns professores de universidade e de alguns estudantes para fazer dela um fator político”. Em matéria de política agrária e de política das nacionalidades, os bolcheviques teriam pecado por excesso de ilusão democrática, enquanto inversamente subestimaram a substância democrática da questão institucional.

É o famoso debate sobre a dissolução da Assembleia Constituinte, constantemente reivindicada pelos bolcheviques entre fevereiro e outubro de 1917, e dissolvida por eles imediatamente depois de ser eleita, em nome da legitimidade superior dos sovietes. Rosa não é surda com relação aos argumentos segundo os quais havia de se “romper com a constituinte caduca”, portanto, “nascida morta”, que ficou atrasada diante da dinâmica revolucionária, tanto por suas modalidades eletivas como pela imagem deformada que dava do país. Mas então, “havia que prescrever sem demora novas eleições para uma nova Constituinte”! No entanto, Lênin e Trótski (em seu folheto de 1923 sobre as Eleições de Outubro) excluem por princípio toda forma de “democracia mista” colocada pelos austro-marxistas.

Trótski reprova Zinoviev e Kamenev por terem se oposto à insurreição de Outubro em nome de uma “combinação de instituições estatais”, conciliando Assembleia constituinte e sovietes. No partido, quem fetichiza a Constituinte são os mesmos, a seus olhos, que haviam duvidado por legalismo da decisão pela insurreição. A definição por Lênin da insurreição como uma arte implica, sublinha, que sua preparação e sua iniciativa correspondem ao partido, e que a ratificação legal da conquista do poder pelo congresso dos sovietes intervém apenas a posteriori. Se, em outubro, a insurreição foi “canalizada na via soviética e ligada ao 2º congresso dos sovietes”, não se tratava para ele de uma questão de princípios, mas “de uma questão puramente técnica, ainda que de uma grande importância prática”. Este choque frontal entre a decisão militar e a instituição democrática é propício à confusão dos papéis, entre partido e Estado, mas também entre o Estado de exceção revolucionário e a regra democrática. Esta confusão é levada ao seu ápice em Terrorismo e Comunismo, folheto também redigido na urgência da guerra civil que é a forma paroxística [máxima] do Estado de exceção.

Porque vive na Alemanha e tem a experiência de uma vida parlamentar já consolidada, a abordagem de Rosa Luxemburgo é muito diferente. Como vimos, aceita os argumentos realizados pelos bolcheviques para dissolver a Constituinte, mas se inquieta explicitamente por esta confusão entre a exceção e a regra: “O perigo começa ali onde, fazendo da necessidade virtude, eles (os dirigentes bolcheviques) tentam fixar em todos os pontos da teoria uma tática que lhes fora imposta por condições fatais e propô-la ao proletariado internacional como o modelo de tática socialista”.

O que está em jogo, além do assunto da Constituinte, é a vitalidade e a eficácia da própria democracia socialista. Rosa enfatiza a importância da opinião pública, que não haveria de se reduzir a um engano ou a um teatro de sombras. Toda a experiência histórica “nos mostra ao contrário que a opinião pública irriga constantemente as instituições representativas, as penetra, as dirige. Como explicar os movimentos divertidos que, em todo o parlamento burguês, os representantes do povo nos fazem presenciar às vezes, quando, animados repentinamente por um espírito novo, pronunciam palavras totalmente inesperadas? Como explicar que, de vez em quando, as múmias mais secas tomem ares de juventude, que os pequenos Scheidemann de todo tipo encontrem de repente em seu coração acentos revolucionários quando a ira cresce nas fábricas, nas oficinas, nas ruas? Esta ação constantemente vivaz da opinião e da maturidade política das massas deveria, então, justo no período de revolução, ser abandonada diante do esquema rígido dos emblemas dos partidos e das listas eleitorais? Muito pelo contrário! É precisamente a revolução que, com sua efervescência ardente, cria esta atmosfera política vibrante, receptiva, que permite às ondas da opinião pública, ao pulso da vida popular atuar instantaneamente, milagrosamente, sobre a instituições representativas”. Ao invés de comprimir este “pulso da vida popular”, os revolucionários devem deixá-lo bater, pois constitui um poderoso corretivo ao pesado mecanismo das instituições democráticas: “E se o pulso da vida política da massa bate mais rápido e mais forte, sua influência se faz então mais imediata e mais precisa, apesar dos clichês rígidos dos partidos, das listas eleitorais caducas, etc. Certamente, toda instituição democrática, como toda instituição humana, tem seus limites e suas lacunas. Mas o remédio que encontraram Lênin e Trótski – suprimir diretamente a democracia – é pior que o mal que se supõe curar: obstrui a fonte viva de onde teriam podido brotar os corretivos às imperfeições das instituições sociais, a vida política ativa, enérgica e sem travas da grande maioria das massas populares”.

Este erro terá seu preço. Em seu Stálin póstumo, Trótski reconhece até que ponto a guerra civil foi uma escola de brutalidade autoritária e de mando burocrático (do que Volochinov e o grupo de Tsarytsin são a viva ilustração). Stálin não terá nenhuma dificuldade para reciclar a seu serviço estes métodos de mando. Mas em 1921, quando a guerra civil está praticamente ganha e o Estado de exceção deveria acabar para que se desenrolasse, ao máximo possível nas condições materiais de um país devastado pela guerra, a vida democrática, Trótski estabelece pelo contrário “a militarização dos sindicatos” para levar a cabo a batalha da produção. Contrariamente à má reputação que lhe é atribuída, Lênin se mostra bem mais sensível neste debate à independência dos sindicatos em relação ao Estado. É certo que o giro da Nova Política Econômica não estava associado a um novo curso democrático.



As advertências de Rosa assumem então, retrospectivamente, todo seu sentido. Temia em 1918 que medidas de exceção temporalmente justificáveis se convertessem na regra, em nome de uma concepção puramente instrumental do Estado enquanto aparato de dominação de uma classe sobre outra. A revolução consistiria então só em fazê-lo mudar de mãos: “Lênin disse que o Estado burguês é um instrumento de opressão da classe operária, o Estado socialista um instrumento de opressão da burguesia, que não é mais do que um Estado capitalista invertido. Esta concepção simplista omite o essencial: para que a classe burguesa possa exercer sua dominação, não há necessidade em absoluto de ensinar e educar politicamente o conjunto da massa popular, ao menos não além de certos limites estreitamente traçados. Para a ditadura proletária, é esse o elemento vital, o alento sem o qual não poderia existir”.

De fato, a nova sociedade deve ser inventada sem manual, na experiência prática de milhões de homens e mulheres. O programa do partido não oferece para este propósito mais do que “grandes painéis que indicam a direção”, e além disso estas indicações não tem mais do que um caráter indicativo, de balizagem e de aviso, mais do que um caráter prescritivo. O socialismo não pode ser concedido de cima. Certamente, “pressupõe uma série de medidas coercitivas contra a propriedade, etc.”, mas, se “se pode decretar o aspecto negativo, a destruição”, o mesmo não ocorre com o “aspecto positivo, a construção: terra nova, mil problemas”. Para resolver estes problemas, a liberdade mais ampla, a atividade mais ampla, a mais ampla parte da população é necessária. No entanto, a liberdade “é sempre ao menos a liberdade de quem pensa diferente”. Não é ela, senão o terror, que desmoraliza: “Sem eleições gerais, sem uma liberdade de imprensa e de reunião ilimitada, sem uma luta de opinião livre, a vida se apaga em todas as instituições públicas, vegeta, e a burocracia se constitui como o único elemento ativo”.

Na realidade, o próprio Lênin havia entrevisto, precisamente em O Estado e a revolução, a funcionalidade social da democracia política. Para certos marxistas, para os quais o direito à autodeterminação das nações oprimidas era irrealizável sob o capitalismo e se converteria em supérfluo sob o socialismo, respondia antecipadamente:

“Semelhante raciocínio, pretensamente espirituoso, mas de fato falso, poderia repetir-se a respeito de qualquer instituição democrática, incluindo o modesto vencimento dos funcionários, porque um democratismo até as últimas consequências é impossível no capitalismo, e no socialismo toda a democracia definhará. […] O desenvolvimento da democracia até o fim, a procura das formas desse desenvolvimento, sua comprovação na prática etc., tudo isso é uma das tarefas integrantes da luta pela revolução social. Tomado em separado, nenhum democratismo dá o socialismo, mas na vida o democratismo nunca será “tomado em separado”; antes, será “tomado juntamente com”, exercerá sua influência também na economia, impelirá sua transformação”. (O Estado e a revolução, Boitempo, 2017, pp. 102-3)

Ao longo de todo o século XX, muita água correu sob as pontes das revoluções. Ao longo das experiências sociais e das investigações antropológicas, as abordagens teóricas sobre o Estado se enriqueceram e aprofundaram, de Gramsci a Foucault, passando por [Nicos] Poulantzas, [Henri] Lefebvre, [Elmar] Altvater, [Joachim] Hirsch e muitos outros. Foucault contribuiu principalmente para desmistificar um fetichismo do poder analisando a genealogia das relações de poder, até elaborar a hipótese segundo a qual o Estado seria uma “forma de governar” ou “um tipo diferente de governamentalidade”. A partir do século XVI, a sociedade civil teria assim posto em pé “algo obsessivo que se chama Estado” como fetiche específico da modernidade.

Um foucaultianismo vulgar deduz hoje disso que esta figura histórica do Estado seria adiante solúvel nas redes de poder da sociedade líquida, de forma que não seria mais necessário tomar o poder para transformar o mundo. No entanto, para Foucault, não se tratava nem de instalar “a instituição totalizadora do Estado” em posição de queda, nem de negá-la. Se sua teoria das relações de poder, como a dos campos de Bourdieu, permite compreender uma pluralidade de dominações e contradições, é certo que todos os poderes não participam na reprodução social das relações capitalistas de produção. Há, nas redes e nas relações de poder, nós mais importantes do que outros. As retóricas liberais de Estado mínimo ou de retirada do Estado ressaltam com maior ênfase o núcleo duro de suas funções repressivas e seu papel eminente na colocação em pé dos dispositivos de biopoder. As ilusões do discurso sobre o “Estado imparcial” defendido por Ségolène Royar durante a campanha presidencial resultam então mais ridículas. Se o tecido das relações de poder tem de ser desfeito, e se se trata de um processo de longo prazo, a máquina do poder de Estado tem de ser quebrada.

Nota

* Lembremos que, em Rousseau e ao longo do século XIX, o termo ditadura evocava uma venerável instituição romana, a de um poder de exceção mandatado e limitado no tempo, oposto às noções de despotismo ou de tirania, que designam ao contrário um poder absoluto e arbitrário.



Para aprofundar a reflexão, recomendamos a leitura de Centelhas: marxismo e revolução no século XXI, de Daniel Bensaïd e Michael Löwy, obra organizado por José Correia Leite.

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Daniel Bensaïd nasceu em Toulouse, na França, em 1946. Foi filósofo e dirigente da Liga Comunista Revolucionária, e um dos militantes mais destacados dos movimentos de Maio de 1968. Professor de Filosofia da Universidade de Paris VIII, faleceu no dia 12 de janeiro de 2010, aos 64 anos. Pela Boitempo, lançou Os irredutíveis: teoremas de resistênica para o tempo presente (2008), Marx, manual de instruções (2013), seu último livro escrito em vida, e, junto com Michael Löwy, o mais recente Centelhas: marxismo e revolução no século XXI, organizado por José Correia Leite.

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