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Rosa Luxemburgo: 100 anos sem suas análises da economia políica

Os textos de Luxemburgo foram escritos no calor do momento, durante sua trajetória de militância, e trazem dentro de si análises econômicas do funcionamento e desenrolar do modo de produção capitalistas

















Da página Carta Maior, 02 de fevereiro, 2019
Por Rosa Rosa Gomes


“A direção fracassou. Mas a direção pode e deve ser novamente criada pelas massas e a partir delas. As massas são o decisivo, o rochedo sobre o qual se estabelecerá a vitória final da revolução”[1]. Há 100 anos, eram sequestradas e mortas as principais lideranças revolucionárias na Alemanha, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Após o levante de janeiro de 1919, eles foram pesrseguidos e mortos pelos corpos francos com a conivência do Partido Social-Democrata Alemão (SPD), o partido no qual Luxemburgo fez sua militância política e teórica. Infelizmente para a revolução alemã e mundial, as massas não foram capazes de suprir essas grandes perdas nos anos que se seguiram e a história ganhou outros rumos.

Rosa Luxemburgo, nascida em 05 de março de 1871 na época da Comuna de Paris, viveu uma vida militante, batalhando pela transformação social. Viveu uma vida de teoria e prática, práxis, e morreu em ação. Assassinada, é importante lembrar, por ex-companheiros de partido, ou melhor, sob suas ordens: Friedrich Ebert, Philipp Scheidemann, Gustav Noske.

Nessa data, tende-se a rememorar a Luxemburgo das análises políticas acuradas, das críticas perspicazes a medidas da Revolução Russa, das liberdades democráticas. Nos 100 anos de sua morte, as memórias se voltam para esses aspectos, ainda mais com a conjuntura mundial. No entanto, separar esses aspectos, pinçar de Rosa Luxemburgo apenas o que convém pode transformá-la naquilo que ela combateu no final da vida: a social-democracia aburguesada.

Luxemburgo não era uma defensora da liberdade de expressão em abstrato. Como assinala Michael Brie, “a liberdade de quem pensa de modo diferente” só pode ser concretizada no socialismo, porque se baseia na igualdade de todos, no reconhecimento social, econômico e político da igualdade do outro, portanto, só em um mundo sem desigualdade social, sem exploração do trabalho, é possível ser realmente livre. A existência da sociedade burguesa, da exploração do trabalho alheio impede, no pensamento do Luxemburgo, a concretização da liberdade e da democracia[2].

Ainda para Luxemburgo, essa sociedade globalizante se estrutura de diferentes formas no mundo, porque o modo de produção capitalista se alimenta e subsiste da desigualdade entre as pessoas e entre países. No capitalismo, o mundo precisa necessariamente estar dividido entre potências e colônias, desenvolvidos e subdesenvolvidos. Assim, a análise política é particular a cada país, porque o desenvolvimento histórico levou cada um a determinado estágio de desenvolvimento e conformação social. Daí suas análises tão apuradas, procurando entender cada coisa em seu contexto e defendendo táticas políticas diferentes para tempos e espaços diferentes.

Já percebemos aqui que tudo aquilo que se exalta em Luxemburgo não pode ser entendido sem outra parte integrante de seu pensamento e prática política: a compreensão econômica.

São tempos de celebrar Rosa Luxemburgo em todos os seus aspectos, como a totalidade que ela é. Por isso, chamo a atenção aqui para esse lado da autora.

Os textos de Luxemburgo foram escritos no calor do momento, durante sua trajetória de militância, e trazem dentro de si análises econômicas do funcionamento e desenrolar do modo de produção capitalistas. Há alguns textos que inclusive se dedicam a discutir aspectos “puramente” econômicos, como diriam os liberais de hoje e de então: sobre cartéis, política comercial, política alfandegária. E há textos que se dedicam a debater com os teóricos da burguesia alemã de sua época.

Isso porque esses teóricos são expressão do desenvolvimento histórico de determinado lugar e determinada época. Assim, em um texto publicado na revista teórica do SPD em 1894/95, Die Neue Zeit, Luxemburgo analisa dois momentos da escola histórica alemã: um momento em que essas teorias respondiam aos interesses dos Junkers (a classe aristocrática, proprietária de terras da Alemanha) e um segundo momento em que respondiam aos interesses da burguesia, que queria superar esse conservadorismo e era a favor do desenvolvimento industrial. A segunda fase correspondia a um momento em que a luta de classes capitalista já estava estabelecida e, portanto, o contraponto desses teóricos era o socialismo e sua crítica ao sistema capitalista.

Da mesma forma, ela analisa no primeiro capítulo do livro Introdução a Economia Política a forma como o conceito “economia política” foi compreendido ao longo do tempo e como os teóricos econômicos responderam a necessidades históricas diferentes. Antes de 1848, a teoria clássica (Adam Smith, David Ricardo) tinha um aspecto revolucionário ao trabalhar na direção da consolidação do desenvolvimento industrial burguês. Após as revoluções de 1848 e com o surgimento do movimento operário, os teóricos da burguesia passaram a justificar a dominação de classe dela tornando-se, portanto, reacionários.

Seguindo essa linha, chamo a atenção para a segunda seção do livro A Acumulação do Capital,publicado em 1913. Nessa seção, Rosa Luxemburgo faz uma exposição histórica da questão sobre a reprodução ampliada do sistema capitalista, problema presente nos debates econômicos desde os 1800. Na análise dos principais teóricos que discutiram a questão, Luxemburgo divide os debates em três momentos.

O primeiro momento foi em torno da década de 1820 resultado da crise causada pelo bloqueio continental de Napoleão Bonaparte em 1815. Essa crise colocou em cheque a perfeição do modo de produção que se desenvolvia naquela época e fez surgir as primeiras reivindicações de trabalhadores. Enquanto, neste primeiro momento, os teóricos se dedicavam a provar a harmonia do capitalismo, no segundo momento, entre as décadas de 1840 e 1860, as crises já estavam colocadas (em 1857 ocorre a primeira crise mundial) e o movimento dos trabalhadores já estava mais avançado, o socialismo como práxis começou a surgir, portanto, os teóricos tentaram entender quais as origens das perturbações do sistema. Ou seja, por que as crises ocorrem? Esses se recusavam a ver as crises como um movimento intrínseco à própria reprodução do capital, eles tentavam achar os problemas que deveriam ser concertados para que o sistema voltasse a um suposto desenvolvimento harmônico. No terceiro momento, a discussão teórica importante estava entre os marxistas, que superaram a análise de Smith e incorporaram o movimento total do capital, o capital social total. Esse momento respondia ao avanço técnico da sociedade e do movimento dos trabalhadores e procurou entender quais as formas econômicas da revolução nos diferentes espaços que o capitalismo produziu mundo afora.

Como podemos observar, Luxemburgo analisou os debates econômicos sobre a reprodução do capital com o enfoque na transformação da sociedade. Mas não deixou de observar as teorias que eram produzidas para acobertar a própria realidade sem falsificá-la. Teorias dos patrões de sua época que queriam justificar e normalizar a exploração. Em muitos momentos, tomou como sua tarefa a desmistificação dessas teorias, procurando entender o que as motivava, dessa forma, tem-se maior segurança para o desenvolvimento da luta revolucionária em favor dos trabalhadores. Para saber os caminhos a seguir é preciso ler também o adversário.

Essa tarefa continua na ordem do dia, fazer uma leitura dos planos econômicos e suas motivações, sem esquecer que não existe pura economia, que a frase “é a economia, estúpido”[3] na verdade é uma falácia que quer encobrir a política por traz dela. O que existe é economia política, elas não se separam porque se concretizam uma na outra. Rosa Luxemburgo tinha clareza disso e foi até o final de seus dias praticando a análise da economia política de sua época e tecendo estratégias, ações para a transformação social.

[1]Luxemburgo, Rosa, “A Ordem Reina em Berlim”, em Isabel Loureiro (org.), Rosa Luxemburgo: textos escolhidos. São Paulo: Editora Unesp, 2011, vol. 2, p. 401.

[2]Ver Michael Brie, “Freiheit ist immer die Freiheitder anderen. Zur sozialphilosophischen Dimension von Rosa Luxemburgs Kritik an der Bolschewiki”, em Klaus Kinner; Helmut Seidel (orgs.), Rosa Luxemburg: historische und aktuelle Dimensionen ihres theoretischen Werkes, Berlim: Dietz, 2002, p. 66-69, (Geschichte des Kommunismus und Linkssozialismus; 3).

[3]Frase de marketing da campanha eleitoral de Bill Clinton contra George Bush nos Estados Unidos em 1992.

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