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Racismo

Indivíduos não nascem racistas, indivíduos aprendem a discriminar outros indivíduos pela cor da pele ou por quaisquer outros atributos que se diferenciam dos atributos que considere ''normal''





















Da página Carta Maior, 13 de fevereiro, 2019
Por Marcelo Gruman



Em recente entrevista, o ator irlandês Liam Neeson admitiu já ter saído de casa com um bastão com o propósito deliberado de matar “um negro” depois que uma pessoa muito próxima foi estuprada, há mais ou menos quarenta anos. A confissão de culpa – sim, é uma confissão de culpa – foi feita durante uma entrevista ao jornal inglês “The Independent” em que promovia seu último trabalho no cinema. Neeson afirmou que essa pessoa próxima lidou com o estupro “de uma forma extraordinária” (!), e que não conhecia o agressor. O ator, então, perguntou-lhe qual sua cor. “Negra”, foi a resposta.

Durante uma semana, Neeson saiu às ruas com um bastão a tiracolo, esperando ansiosamente que um indivíduo de pele negra, um “negro desgraçado” em suas próprias palavras, o abordasse e o provocasse na saída de um bar, esperando vingar o sofrimento de sua amiga. Felizmente, nesse período, o ator não conseguiu extravasar seus instintos homicidas racialmente motivados. Sim, porque, embora pudesse ter selecionado uma centena de outras características do agressor, como ele mesmo admite, – “lituano”, “britânico”, “escocês”, “irlandês”, todas elas, a meu ver, também bastante difíceis de serem apreendidas (como identificar um escocês sem o kilt e sem ouvi-lo falar com um possível sotaque?) – a pergunta que ajudaria na identificação do agressor foi especificamente sobre a cor de sua pele.


Indivíduos não nascem racistas, indivíduos aprendem a discriminar outros indivíduos pela cor da pele ou por quaisquer outros atributos que se diferenciam dos atributos que considere “normal”. Liam Neeson diz que não é racista e eu não tenho porque duvidar dele, porque a atitude racista – que, na realidade, acabou não se concretizando, ficou apenas na teoria – ocorreu há quatro décadas, ele se arrependeu do que fez, procurou inclusive ajuda de um padre. Eu, particularmente, procuraria a ajuda de um psicanalista, mas, vá lá. O ataque de “sincericídio”, por outro lado, também revela e desvela a hipocrisia do discurso do politicamente correto porque “todos nós fingimos ser (politicamente corretos) mas, arranhando a superfície, você descobre que esse racismo e esse fanatismo estão lá”.

E esse racismo também existe “às avessas”, quer dizer, por parte de quem sofre historicamente na pele, literalmente, a violência simbólica e física por ter nascido com a pigmentação da pele mais acentuada do que os branquelos azedos. Já ouvi, por exemplo, num debate sobre reparações históricas à população negra, que “vocês”, em referência, obviamente, aos “brancos”, têm uma dívida a ser paga. A menos que a maldade do senhor de engenho seja herdada geneticamente, tal linha de pensamento racialista em nada se difere da que Liam Neeson se utilizou na defesa da honra de sua amiga. No fim das contas, a cor da pele de um indivíduo não diz muita coisa – se é que diz qualquer coisa - sobre seu caráter, sobre sua (s) identidade (s) cultural (is), tanto menos que suas tendências homicidas, como acreditava o criminalista italiano Cesare Lombroso e seus discípulos tropicais como Nina Rodrigues, autor de “As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil”.

A solução passa inexoravelmente pela educação, pela pedagogia da libertação, libertação do etnocentrismo, da ideia de que “nós” somos melhores ou moralmente superior aos “outros”, o que não significa que precisamos gostar ou acreditar naquilo que os “outros” gostam ou acreditam. Conviver com o diferente é necessário numa sociedade que se quer democrática e culturalmente complexa, onde a própria noção de “nós” é fragmentada porque exercemos múltiplos papéis sociais. Descentralizar a ideia de “certo” e “errado”, exercitar o conceito de relativismo cultural tendo por base fundamental os princípios dos direitos humanos, é saudável. É a ideologia da inclusão.

Já imaginaram quantos Liam Neeson tupiniquins andam à solta por aí, empoderados pelo discurso racista, homofóbico, misógino e xenófobo que se espraia na sociedade como a lama tóxica de Brumadinho?


Marcelo Gruman é Antropólogo. Doutor em Antropologia Social (UFRJ) e Especialista em Gestão de Políticas Públicas de Cultura (UnB/MinC). Atualmente, exerce o cargo de Administrador Cultural na Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN no estado do Paraná. Tem um blog (desconstruindomarcelo.blogspot.com), onde divulga suas reflexões sobre a vida cotidiana

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